Durante décadas, a maioria dos casos de demência em idosos foi tratada como Alzheimer. Hoje, já se sabe que até um em cada cinco casos tem outra base biológica: a LATE, uma condição ligada ao envelhecimento avançado que afeta áreas do cérebro associadas à memória.
Descrita formalmente em 2019 por pesquisadores da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, a LATE — cuja sigla em inglês significa “Encefalopatia TDP-43 Relacionada à Idade com Predomínio Límbico” — passou a esclarecer um impasse recorrente na prática médica: apesar dos sintomas típicos, os pacientes não apresentavam resultados positivos em exames específicos de Alzheimer. “Clinicamente, a LATE costuma causar um quadro de declínio cognitivo progressivo, com predomínio de déficits de memória episódica, muito semelhante à doença de Alzheimer”, explica neurologista Iron Dangoni, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
Na origem do problema, porém, as duas condições não são iguais. Enquanto o Alzheimer é marcado pelo acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau, a LATE envolve o depósito anormal da proteína TDP-43 em regiões límbicas do cérebro, como o hipocampo e a amígdala, estruturas diretamente envolvidas na formação e consolidação da memória.
Reconhecer a LATE é fundamental para evitar diagnósticos imprecisos, alinhar expectativas de evolução clínica e adequar decisões terapêuticas. “Identificar essa condição ajuda a explicar por que alguns pacientes não respondem como esperado a terapias direcionadas ao Alzheimer”, afirma Dangoni.
Desafios diagnósticos
Detectar a LATE em vida, porém, ainda é difícil. Atualmente, o diagnóstico definitivo da condição é neuropatológico, feito a partir da análise do cérebro após a morte do paciente. Diferentemente do Alzheimer, para o qual exames de imagem e testes laboratoriais já permitem identificar biomarcadores específicos, a LATE ainda não conta com ferramentas diagnósticas diretas na prática clínica.
“Esse é um desafio ainda bastante importante. Como os sintomas são muito parecidos com a doença de Alzheimer, atualmente não é possível saber se um indivíduo que apresenta acúmulo de amiloide e tau também tem depósito de TDP-43”, relata o neurocientista Eduardo Zimmer, professor de farmacologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Há tentativas em curso para mudar esse cenário. Um ensaio clínico com conclusão prevista para novembro de 2026 investiga uma molécula capaz de detectar o acúmulo da proteína TDP-43 em exames de imagem. Desenvolvida pela farmacêutica suíça AC Immune, a molécula mostrou resultados promissores em testes com primatas, publicados em outubro de 2025 na revista Nature Communications. A eficácia e a segurança em humanos ainda estão em avaliação.
O avanço mais concreto foi a publicação de critérios clínicos para distinguir casos prováveis e possíveis de LATE, divulgados em janeiro de 2025 na Alzheimer’s & Dementia. O modelo combina sintomas clínicos, exames de imagem e a presença ou ausência de biomarcadores de Alzheimer. Na prática, esses critérios tentam lidar com situações comuns no consultório. Em pacientes idosos com perda de memória progressiva, exames de imagem podem mostrar alterações em áreas do cérebro ligadas à memória, como o hipocampo. Quando esses pacientes não apresentam os biomarcadores típicos do Alzheimer, o quadro passa a ser considerado um caso provável de LATE.
No Brasil, esse reconhecimento ainda é indireto. “Na clínica brasileira, ele é sindrômico, baseado na idade avançada, no perfil clínico e na exclusão de Alzheimer por biomarcadores quando disponíveis”, explica Dangoni. “Nosso sistema de saúde ainda enfrenta limitações importantes de acesso a biomarcadores avançados, mas há crescente conscientização entre especialistas, especialmente em centros terciários e acadêmicos.”
Embora enfrente desafios semelhantes aos de outros países no diagnóstico e no tratamento da LATE, Zimmer avalia que o país está bem posicionado para contribuir com a compreensão do impacto e da prevalência da doença. Ele destaca o trabalho do Biobanco para Estudos do Envelhecimento da Universidade de São Paulo (USP), que analisa alterações associadas a diferentes proteínas envolvidas em demências, como amiloide, tau e TDP-43. “Ainda vamos ter muita informação sobre a população brasileira a partir desse trabalho feito na USP. Obviamente, seria muito importante contar com bancos de cérebro em outras regiões, para termos uma noção de prevalência regional”, afirma.
Opções de tratamento
Em pacientes com LATE isolada, o declínio cognitivo tende a ser mais lento do que no Alzheimer. A perda de memória avança de forma gradual, e os sintomas costumam aparecer mais tarde. O cenário se agrava quando as duas condições coexistem, situação em que a progressão é mais rápida e os comprometimentos cognitivos são mais amplos e severos.
Evidências reunidas em um estudo de 2023, com base em dados clínicos e neuropatológicos, indicam que pessoas com LATE sem associação com Alzheimer apresentam melhor desempenho cognitivo ao longo do tempo. Já nos casos em que as duas doenças se sobrepõem, o declínio é mais acelerado, configurando alguns dos quadros mais graves de demência na velhice.
Ainda há poucas opções terapêuticas em investigação. O primeiro ensaio clínico direcionado especificamente à LATE está em andamento na Universidade do Kentucky e testa os possíveis efeitos do nicorandil, medicamento usado na Europa e na Ásia para tratar angina. A hipótese é que, ao melhorar a circulação em pequenos vasos sanguíneos, o fármaco possa ajudar a prevenir a esclerose hipocampal do envelhecimento, uma das alterações associadas a essa demência. O estudo, que envolve 64 participantes, deve ser concluído em novembro deste ano.
Diante da sobreposição frequente entre LATE e Alzheimer, pesquisadores também consideram a possibilidade de que medicamentos já aprovados para tratar Alzheimer tenham algum efeito sobre sintomas associados à “nova” doença. Até o momento, porém, não há evidências clínicas que confirmem essa hipótese.
Para o neurologista do Einstein Goiânia, o reconhecimento da condição vem alterando a interpretação do envelhecimento cerebral. “Para o paciente, isso significa diagnósticos mais precisos e uma comunicação mais honesta sobre prognóstico e expectativas terapêuticas”, afirma Iron Dangoni. “Também abre caminho para o desenvolvimento de novos biomarcadores e tratamentos específicos, além de melhorar o desenho dos estudos clínicos, evitando a inclusão de pacientes com LATE em pesquisas voltadas exclusivamente para Alzheimer.”
Fonte: Agência Einstein
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