Edição nº2535 20/07 Ver edições anteriores

La Niña, safra histórica e tarifas

Em entrevista recente à ISTOÉ Dinheiro, o enólogo e empresário Adriano Miolo foi direto ao ponto: “O governo está acabando com o vinho no Brasil”. E não é de hoje. Nenhum país despreza tanto o próprio vinho quanto o Brasil. Não bastam o louvável esforço dos produtores para aprimorar a qualidade do que engarrafam, o crescente entusiasmo da crítica internacional ou o reconhecimento obtido por meio de premiações importantes. O consumidor rejeita os rótulos nacionais por preconceito. Os mais caros não proporcionam o mesmo status dos equivalentes importados. Os mais baratos muitas vezes decepcionam. Por isso, mesmo quando o consumo cresce, quem lucra são os estrangeiros. De janeiro a junho de 2017 foram comercializados 88 milhões de litros de vinho brasileiro, 10% menos que no mesmo período de 2016. Os espumantes nacionais recuaram 13%. Enquanto isso, a venda de importados saltou 40%.

Os produtores se queixam da carga tributária, em média 60% do que o consumidor paga por uma garrafa. Os impostos tornam impossível competir com a bebida de países onde o negócio do vinho é valorizado, protegido e até subsidiado. No Brasil, ao contrário, acordos comerciais permitem que garrafas de fora sejam vendidas a preços que se tornam predatórios para o produtor nacional.

Pois atendendo às preces de quem, apesar de tudo, insiste em viver de vinho no País, uma boa notícia finalmente veio do céu.Mais especificamente, do clima. A safra brasileira de 2018 é considerada a melhor da década, podendo superar em qualidade os anos históricos de 1999 e 2005, quando os tintos nacionais encontraram seu apogeu. Como de lá para cá o conhecimento sobre vinificação evoluiu de forma constante, a boa matéria-prima colhida desde janeiro tem tudo para render vinhos icônicos. Enólogos estão confiantes. Enófilos, ansiosos. O motivo dessa euforia toda é o fenômeno La Niña (diminuição da temperatura da superfície do Oceano Pacífico), que no Sul do Brasil resultou em ciclos de estiagem ideais para a perfeita maturação das uvas.

Pode ser a virada de mesa que o setor tanto aguardava. Com vinhos de alta qualidade capazes de seduzir o consumidor nacional, faltará apenas que os governos (tanto estaduais quanto federal) revejam sua política de tarifas sobre a bebida. Se os impostos sobre o vinho permanecerem abusivos, nem La Niña salvará.

Nenhum país despreza tanto o próprio vinho quanto o Brasil. A safra 2018, talvez a melhor da história, pode virar esse jogo

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Celso Masson

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