Kleber Mendonça Filho revela bastidores de ‘O Agente Secreto’ no Cinejornal

Inédita no Canal Brasil, entrevista gravada no histórico Cinema São Luiz aborda o roteiro que virou livro, o diálogo do filme com clássicos do cinema e a parceria com Wagner Moura

FRAZER HARRISON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP
Kleber Mendonça Filho é o diretor do longa 'O Agente Secreto' Foto: FRAZER HARRISON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Na próxima quarta-feira, 25, às 19h30, o Cinejornal, do Canal Brasil, exibe uma entrevista inédita e exclusiva com o cineasta recifense Kleber Mendonça Filho. Gravada no tradicional Cinema São Luiz, no Recife — que também serviu de locação para “O Agente Secreto” —, a conversa mergulha no processo criativo do diretor, na transformação do roteiro em livro e nas referências cinematográficas que atravessam a obra.

Sobre a publicação do roteiro em formato de livro, Kleber lembra sua relação antiga com esse tipo de material e conta que comprou o roteiro de “Faça a Coisa Certa” (1989), de Spike Lee, em sua primeira viagem aos Estados Unidos. “Foi o primeiro roteiro que eu comprei na minha vida. Aquele livro, com textos, fotografias e desenhos, me ensinou muito, foi quase como um curso de cinema.” Para o diretor, lançar o roteiro é compartilhar o processo criativo, inclusive com cenas que ficaram fora da montagem final.

Na entrevista, o diretor também fala sobre o momento político do país à época da escrita de “O Agente Secreto”, a partir de 2018, e sobre a construção do personagem interpretado por Wagner Moura. “Quando o Brasil entrou num momento muito ruim politicamente e deu uma guinada para a direita, eu tinha a sensação de estar 100% coberto de razão sobre a forma como vejo a sociedade brasileira — assim como milhões de brasileiros”, afirma. “Eu conversava muito sobre isso com o Wagner. Estava escrevendo um personagem que não enfrenta fisicamente, mas enfrenta como um cidadão brasileiro correto, convicto do que acredita.”

Segundo ele, embora o protagonista não enfrente a violência fisicamente, este se posiciona como um cidadão brasileiro correto e coberto de razão. “A presença de Wagner Moura sustenta essa força em cena, desafiando as estruturas de poder sem recorrer à violência direta.” As referências cinematográficas de “O Agente Secreto” também ganham espaço na conversa. O diretor aponta ecos de “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg, exibido nos anos 1970 na mesma sala do Cinema São Luiz, e a conexão que vai além da memória afetiva: Recife enfrenta, até hoje, um problema real com tubarões — elemento que dialoga simbolicamente com a atmosfera de tensão do filme. “As ideias podem parecer um pouco loucas, mas elas vêm de uma lógica — da vida, da história do próprio país”, explica.

Outra influência citada é “Intriga Internacional” (1959), de Alfred Hitchcock. No clássico, o publicitário Roger Thornhill, vivido por Cary Grant, é confundido com um agente secreto e passa a ser perseguido por forças que ele mal compreende — um homem comum lançado no centro de uma conspiração internacional.

“Quando discuti o personagem do Wagner com ele, pensei muito nesse filme. O protagonista não entende exatamente o que está acontecendo, e ainda assim é sempre interessante. Você acompanha como ele lida com toda a maluquice ao redor”, comenta Kleber. “O Wagner tem uma presença cinematográfica que carrega o filme, assim como o personagem do Hitchcock. Eu gosto da ideia de um personagem que não anda armado, mas é considerado mais perigoso pelas forças de poder do que alguém que anda armado.”

leber Mendonça Filho e Simone Zuccolotto no Cinema São Luiz, no Recife. Foto: Divulgação