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Kirchner desafia Fernández e pede mudança no gabinete na Argentina

Kirchner desafia Fernández e pede mudança no gabinete na Argentina

Nesta foto de 1º de março de 2020, o presidente argentino, Alberto Fernández (E) discursa ao lado de sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, durante a inauguração das sessões no Congresso, em Buenos Aires - AFP/Arquivos


Com duras críticas à gestão do presidente Alberto Fernández, sua vice, Cristina Kirchner, aumentou nesta quinta-feira (16) a tensão que sacode o governo argentino desde a derrota eleitoral nas primárias legislativas e pediu publicamente uma mudança no gabinete.

“Sério que pensam que não é necessário, depois de semelhante derrota, apresentar publicamente as renúncias e que se saiba a atitude dos funcionários e funcionárias de facilitar ao Presidente a reorganização do seu governo?”, escreveu Kirchner em carta pública na qual criticou os hierarcas que se agarram aos cargos.

Estas declarações ocorrem um dia depois que cinco ministros considerados próximos de Kirchner apresentaram sua renúncia a Fernández, que por enquanto não as aceitou.

Kirchner, líder do peronismo de centro-esquerda, destacou que em várias reuniões com o presidente no último ano, pediu-lhe uma mudança de rumo, sobretudo na política econômica.

“Destaquei que acreditava que se estava realizando uma política de ajuste fiscal equivocada que estava impactando negativamente a atividade econômica e, portanto, no conjunto da sociedade e que, sem dúvida, isto teria consequências eleitorais”, disse na carta.

– “Ouvi meu povo” –

Mais cedo nesta quinta-feira, Fernández pediu o fim das disputas e ressaltou que é ele quem está à frente do governo.

“Eu ouvi meu povo. A arrogância e a prepotência não me abalam. A gestão do governo continuará se desenvolvendo do modo que eu considerar conveniente. Para isso que eu fui eleito. Farei isso sempre convocando o encontro entre os argentinos”, escreveu o presidente no Twitter.

Em sua carta, Kirchner, que foi presidente entre 2007 e 2015, reforçou que foi ela quem lançou a candidatura de Fernández “com a convicção de que era o melhor para a minha Pátria”.

“Só peço ao Presidente que agora honre aquela decisão… Mas sobre todas as coisas, tomando suas palavras e convicções também, o que é mais importante do que tudo: que honre a vontade do povo argentino”, concluiu.

Em recessão desde 2018, a Argentina enfrenta uma crise econômica que foi agravada pela pandemia de covid-19. Para amenizar os efeitos da paralisação da economia pelas restrições sanitárias, o governo realizou muitas emissões de dinheiro, especialmente em 2020.

Nesta quinta-feira, no centro de Buenos Aires, grupos de esquerda mobilizaram manifestantes exigindo maiores subsídios para refeitórios e alimentação, e rejeitam um eventual acordo com o Fundo Monetário Internacional.



– “Queremos trabalho” –

Além de seus elevados índices de pobreza (42%) e desemprego (10%), a Argentina tem uma das taxas de inflação mais elevadas do mundo (32% de janeiro a agosto) e tem pendente uma dívida de US$ 44 bilhões com o Fundo Monetário Internacional.

“Não sou nem a favor nem contra o governo. Quero que as coisas sejam feitas. Queremos trabalhar, queremos fábricas”, disse à AFP durante a manifestação Gisela, mãe de três meninas de 11, 10 e 9 anos.

Em 22 de setembro, deve pagar ao FMI um vencimento de capital por 1,9 bilhão de dólares e em dezembro outro também de 1,9 bilhão de dólares.

O governo Fernández tenta chegar a um acordo de ampliação das instalações para substituir o stand-by assinado em 2018. Gerry Rice, porta-voz do FMI, ratificou nesta quinta-feira em Washington que “continua o trabalho com as autoridades argentinas para aprofundar as discussões técnicas para um programa apoiado pelo FMI”.

– Rejeição nas urnas –

O governo de Fernández e Kirchner, que está no meio do mandato, foi duramente atingido pelo resultado das primárias de domingo, nas quais a coalizão governista Frente de Todos obteve apenas 31% dos votos em nível nacional, um resultado inesperado que mostrou uma rejeição muito mais ampla do que o previsto.

“Não sei porque se surpreendem, vê-se que não moram nos bairros dos nossos colegas porque qualquer um pode ver a indignação com a falta de trabalho e educação”, disse à AFP Eduardo Belliboni, integrante de uma das organizações sociais que foram às ruas em Buenos Aires contra o governo nesta quinta.

A coalizão de centro-direita Juntos, do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), obteve 40% dos votos em nível nacional e tirou uma vantagem de cinco pontos à situação na província de Buenos Aires, tradicional reduto peronista e onde os secretários do governador Axel Kiciloff também puseram seus cargos à disposição.

As primárias, de votação obrigatória, são uma espécie de pesquisa de opinião em escala real. Neste caso, o resultado faz o governo temer por sua maioria no Senado e afasta a possibilidade de consegui-la na Câmara dos Deputados.

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