Rapper Kanye West publica carta aberta com desculpas por apologia ao nazismo

Cantor americano divulgou um longo texto na imprensa se retratando pelas polêmicas recentes

Kanye West na Vanity Fair Oscar Party em 9 de fevereiro de 2020
Kanye West na Vanity Fair Oscar Party em 9 de fevereiro de 2020 Foto: van Agostini/Invision/AP, File

O rapper americano Kanye West, 48 anos, publicou uma carta aberta no jornal inglês impresso Wall Street Journal se retratando por ter feito apologia ao nazismo. Em fevereiro de 2025, o artista chocou seus seguidores no X, antigo Twitter, ao fazer uma sequência de postagens nas quais dizia ser racista, nazista e gordofóbico. Ele ainda falou mal da cantora Adele e afirmou que “ama Hitler”.

O rapper começou com as seguintes mensagens: “Eu sou nazista”, “Eu amo Hitler, e daí, vadias?” e “escravidão é uma escolha”. Na sequência, ele também ofendeu o povo judeu novamente, assim como fez em meados de 2022. Dois meses depois, o cantor lançou uma música em apologia a Hitler.

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Já em maio do mesmo ano, Kanye West fez pulbicações na mesma rede social em que parecia rejeitar o antissemitismo, pedindo desculpas pelas declarações anteriores. “Estou farto do antissemitismo”, escreveu no primeiro de uma sequência de tuítes. “Eu amo todas as pessoas. Deus me perdoe pela dor que eu causei. Eu perdoo todos aqueles que me causaram dor. Obrigada, Deus”, disse o rapper nas outras postagens.

Em sua carta aberta, publicada nesta segunda-feira, 26, Kanye West, que agora assina como Ye, diz que perdeu “o contato com a realidade” quando teve atitudes antissemitas. O artista citou, ainda, um acidente sofrido por ele em 2002, que teria causado uma “lesão” em seu cérebro.

“Há vinte e cinco anos, sofri um acidente de carro que quebrou minha mandíbula e causou uma lesão no lobo frontal direito do meu cérebro. Na época, o foco foi no dano visível — a fratura, o inchaço e o trauma físico imediato. A lesão mais profunda, aquela dentro do meu crânio, passou despercebida. Exames completos não foram feitos, avaliações neurológicas foram limitadas, e a possibilidade de uma lesão no lobo frontal nunca foi levantada. Isso só foi devidamente diagnosticado em 2023. Essa falha médica causou sérios danos à minha saúde mental e levou ao meu diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1”, começa ele em seu longo desabafo.

Segundo o artista, sua saúde mental se deteriorou nos últimos anos, momento em que ele passou a atacar as pessoas. Ele destacou, ainda, ter tido comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos durante um longo período em 2025.

“Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e mudanças significativas. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu”, disse ele.

Kanye West faria um show no Brasil em 2025, mas o evento foi cancelado após a Prefeitura de São Paulo proibir a apresentação. Na ocasião, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) declarou que o artista faz apologia ao nazismo e promove discursos de ódio e que tal postura é incompatível com o uso de espaços públicos da cidade.

Confira na íntegra a carta aberta de Kanye West publicada no jornal inglês impresso Wall Street Journal

“Aos que eu magoei:

Há vinte e cinco anos, sofri um acidente de carro que quebrou minha mandíbula e causou uma lesão no lobo frontal direito do meu cérebro. Na época, o foco foi no dano visível — a fratura, o inchaço e o trauma físico imediato. A lesão mais profunda, aquela dentro do meu crânio, passou despercebida.

Exames completos não foram feitos, avaliações neurológicas foram limitadas, e a possibilidade de uma lesão no lobo frontal nunca foi levantada. Isso só foi devidamente diagnosticado em 2023. Essa falha médica causou sérios danos à minha saúde mental e levou ao meu diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1.

O transtorno bipolar vem com seu próprio sistema de defesa. A negação. Quando você está em mania, não acha que está doente. Acha que todo mundo está exagerando. Você sente que está vendo o mundo com mais clareza do que nunca, quando, na realidade, está perdendo completamente o controle.

Quando as pessoas te rotulam como ‘louco’, você sente como se não pudesse contribuir com nada significativo para o mundo. É fácil para as pessoas fazerem piada e rirem disso, quando na verdade se trata de uma doença muito séria e debilitante, da qual se pode morrer.

Segundo a Organização Mundial da Saúde e a Universidade de Cambridge, pessoas com transtorno bipolar têm uma expectativa de vida reduzida, em média, de dez a quinze anos, e uma taxa de mortalidade por todas as causas de 2 a 3 vezes maior do que a da população geral. Isso está no mesmo nível de doenças cardíacas graves, diabetes tipo 1, HIV e câncer — todas letais e fatais se não tratadas.

A coisa mais assustadora desse transtorno é o quão persuasivo ele é quando te diz: você não precisa de ajuda. Ele te deixa cego, mas convencido de que você tem discernimento. Você se sente poderoso, seguro, imparável.

Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais ignorei o problema. Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que eu mais amo, tratei da pior forma. Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e o esgotamento de tentar lidar com alguém que, às vezes, era irreconhecível. Olhando para trás, eu me afastei do meu verdadeiro eu.

Nesse estado fragmentado, me aproximei do símbolo mais destrutivo que consegui encontrar, a suástica, e cheguei até a vender camisetas com ela. Um dos aspectos difíceis de ter transtorno bipolar tipo 1 são os momentos desconectados — muitos dos quais ainda não consigo recordar — que levaram a julgamentos ruins e comportamentos imprudentes, que muitas vezes parecem uma experiência fora do corpo.

Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e mudanças significativas. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu.

À comunidade negra — que me sustentou em todos os altos e baixos e nos momentos mais sombrios. A comunidade negra é, sem dúvida, a base de quem eu sou. Sinto muito por ter decepcionado vocês. Eu amo nós.

No início de 2025, caí em um episódio maníaco de quatro meses, com comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos, que destruiu minha vida. À medida que a situação se tornava cada vez mais insustentável, houve momentos em que eu não queria mais estar aqui.

Ter transtorno bipolar é um estado notável de doença mental constante. Quando você entra em um episódio maníaco, você está doente naquele momento. Quando não está em um episódio, você é completamente ‘normal’. E é aí que os destroços da doença atingem com mais força. Ao chegar ao fundo do poço há alguns meses, minha esposa me incentivou a finalmente buscar ajuda.

Encontrei conforto em fóruns do Reddit, de todos os lugares. Pessoas diferentes falam sobre estar em episódios maníacos ou depressivos de natureza semelhante. Li suas histórias e percebi que não estava sozinho. Não sou só eu que destruí a própria vida inteira uma vez por ano, apesar de tomar remédios todos os dias e ser informado pelos chamados melhores médicos do mundo de que não sou bipolar, mas que apenas estou vivenciando ‘sintomas de autismo’.

Minhas palavras, como líder da minha comunidade, têm impacto e influência globais. Na minha mania, perdi completamente a noção disso.

À medida que encontro minha nova base e meu novo centro por meio de um regime eficaz de medicação, terapia, exercícios e vida saudável, ganhei uma clareza nova e muito necessária. Estou canalizando minha energia para uma arte positiva e significativa: música, roupas, design e outras ideias novas para ajudar o mundo.

Não estou pedindo simpatia nem um passe livre, embora aspire conquistar o perdão de vocês. Escrevo hoje simplesmente para pedir paciência e compreensão enquanto encontro o caminho de volta para casa.

Com amor, Ye.”