Geral

Juventude em risco

A pandemia e o isolamento social estão causando problemas emocionais em crianças e adolescentes, comprometendo o aprendizado de milhões de brasileiros e aumentando a população de jovens que não estudam e nem trabalham. Cresce a desigualdade educacional no País e uma crise geracional está instalada

Crédito: reklamlar

DÚVIDA E MEDO A solidão, a tristeza e problemas de convivío e de afeto se intensificaram entre os jovens durante a pandemia: o futuro é uma incógnita (Crédito: reklamlar)

“O cenário é catastrófico e a atual geração já está muito comprometida, independentemente do que acontecer daqui para frente” Cláudio Sassaki, educador e CEO da Geekie (Crédito:Germano Lüders)

Um caminho pantanoso se abriu diante da juventude brasileira e ameaça seu futuro. A pandemia expôs vulnerabilidades e deficiências que estavam latentes e alterou a condição emocional de muitas crianças e adolescentes. Além disso, de maneira específica, torpedeou as boas práticas presenciais do trabalho de alfabetização dos pequenos e levou um número assombroso de estudantes de 15 a 17 anos, cerca de 50 mil, a desistir da escola para entrar no mercado de trabalho no ano passado. Mesmo entre os privilegiados, o isolamento social causa instabilidade e problemas de afeto e de desempenho. Fragilidades estruturais em escolas e famílias que vinham se acentuando se tornaram gritantes e atrapalham o caminho dos seus dependentes. De uma hora para outra, cresceu a sensação de que ficará um mundo pior para nossos filhos e de que a geração que floresce agora corre o risco de ter seu desenvolvimento pessoal limitado ou adiado.

DECEPÇÃO Isadora acabou de ingressar na universidade, mas sente melancolia e falta de perspectiva (Crédito:MARCO ANKOSQUI )

Para a socióloga e educadora Lourdes Atié, os problemas cognitivos gerados pela pandemia podem até ser revertidos no futuro, mas o que mais preocupa é o “buraco emocional” em que muitos jovens estão entrando. “Não sabemos como os estudantes vão retornar quando tudo isso passar”, diz. O estudo “Enfrentamento da cultura do fracasso escolar”, recentemente publicado pela Unicef, mostra o extremo dessa crise geracional: o índice de abandono das escolas, em especial das públicas, quase dobrou, em 2020, aumentando de 2% para 3,8% e alcançando 1,38 milhão de alunos. Numa situação menos drástica, outros milhões de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos de todas as classes sociais estão sendo obrigados a aprender uma nova maneira de se relacionar com a realidade e de repensar as atividades sociais. Em meio a um triplo desastre – sanitário, político e econômico –, muitos não conseguem reagir por falta de opção, apoio, motivação ou conexão. Como costuma acontecer no Brasil, a situação se agrava terrivelmente entre pobres e negros. Outra pesquisa assustadora quando se trata do futuro das crianças, feita pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), mostra que seis milhões de estudantes da pré-escola à pós-graduação não têm acesso à internet.

O empresário e educador Cláudio Sassaki, CEO da Geekie, plataforma que integra tecnologia nos processos de aprendizado, vê um cenário catastrófico e, para ele, a atual geração já está muito comprometida, independentemente do que acontecer daqui para frente. “Transmitir conhecimento ficou mais difícil e as ferramentas de ensino da maioria, em especial nas escolas públicas, não estão preparadas para os novos tempos”. Para Sassaki, não há solução em curto prazo nem no plano do aprendizado, nem no socioemocional, principalmente por causa da falta de iniciativa do Ministério da Educação (MEC) para organizar um projeto de recuperação. Sem isso, todo sucesso dependerá de trabalho individual, localizado. “Nada vai acontecer se não houver um esforço de política pública, uma coordenação”, acrescenta. Em vez disso, o governo Jair Bolsonaro, reduz gastos em educação, promove o negacionismo e a ignorância.

“É importante saber que pré-pandemia a gente já vivia uma crise na educação e já tínhamos dados de uma profunda desigualdade educacional do País”, afirma a professora Cláudia Costin, diretora do Centro de Políticas Educacionais (CEIPE) da FGV. “Depois dos alunos passarem um ano inteiro distantes da sala de aula, só posso prever um enorme aumento da desigualdade”. Ela também chama atenção para o fato do governo federal ter desaparecido do debate sobre educação e ter abdicado do papel de formulador de políticas públicas para proteger os grupos vulneráveis. “Está claro que não há no governo federal um sentido de urgência para o enfrentamento da crise educacional”, diz.

TRISTEZA Rogério Stoari diz que a pandemia freou seus sonhos (Crédito:MARCO ANKOSQUI)

A perda do convívio

Os efeitos do afastamento da escola e do isolamento social são mais graves e desafiadores do que se imagina e obrigam a repensar práticas presenciais consagradas. Generalizados, eles deverão ser persistentes, podendo durar três ou quatro anos, segundo projeções da Fundação Lemann. Mesmo em escolas bem estruturadas, eles são sentidos com intensidade e preocupam. É o caso do Colégio Pentágono, instituição de ensino com unidades em Alphaville, Morumbi e Perdizes, que teve que trabalhar dobrado para garantir o aprendizado de seus alunos da pré-escola, um dos grupos especialmente afetados pela pandemia, por causa da alfabetização. Ainda que tenha conseguido garantir os níveis de aprendizado que tinha nas aulas presenciais com muito esforço e mobilização de pais e profissionais, houve também uma clara percepção de perdas. Além da questão do convívio, há impactos negativos na conquista da autonomia e no desenvolvimento motor. Muito ativas, crianças dessa faixa etária sofrem com as restrições de movimento e falta de atividade física. “Em termos de aprendizagem de português e matemática, nossos resultados em 2020 foram parecidos com os de 2019”, diz Priscila Azevedo, coordenadora pedagógica do 1º ano do Ensino fundamental do Pentágono. “Em compensação, observamos quedas nas funções executivas e motoras”.

A dona de casa e pesquisadora Michelle Oliveira, 31 anos, tem vivido intensamente a experiência de educar seus filhos dentro de casa e mostra que o único caminho para reduzir a dor da pandemia é o engajamento dos pais no processo de aprendizado. Ela tem três crianças, Isabella, 10, Martin, 3, e Odara, 1 ano, que estudam no colégio Mackenzie, hoje fechado. Como os filhos estão em fases diferentes, Michelle passa o dia inteiro tentando fazer com que acompanhem o professor pela tela do celular. Ela ainda monitora a lição de casa, que aumentou consideravelmente. Michelle diz, porém, que a plataforma utilizada para as atividades estudantis é muito pesada para o seu pacote de internet, o que causa dispersão nas crianças. “A Isabella era daquelas alunas que só tirava notas altas e recebia cumprimentos, mas com aulas on-line seu desempenho caiu muito”, afirma. Recentemente, a menina teve uma crise de ansiedade. “Minha filha ficou trêmula, chorava e gritava em frente à tela”, contou.

Episódios críticos como o que viveu a pequena Isabella acontecem com estudantes de mais idade. A pandemia tem trazido muitos momentos de tristeza. A paulistana Isadora Dias, 19, acabou de ingressar na universidade com a intenção de se formar enfermeira, mas sofre com a melancolia e a falta de perspectiva. “Tem muita gente morrendo. Pensei que teria contato com os professores e com os outros alunos agora, mas não pude”, diz. O estudante Rogério Stoari, 19, foi aprovado para cursar Química na Unicamp e é a primeira pessoa da família a fazer graduação. “Sou de escola pública, cursinho popular da Uneafro, me esforcei muito para chegar até aqui, mas a pandemia colocou um freio em meus sonhos”, afirma. Seu curso é realizado em período integral e Rogério assiste as aulas de casa, mesmo com a internet ruim.

A evasão escolar tem impacto direto no aumento do trabalho infantil. Um personagem típico destes tempos de pandemia é o jovem que parou de estudar no ensino médio e decidiu entrar no mercado de trabalho, fazendo, por exemplo, serviços de entrega de bicicleta. Um estudo realizado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), de São Paulo, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostrou que entre abril e julho do ano passado houve, nas famílias mais vulneráveis, um aumento de 26% no trabalho infantil em comparação com 2019. Em domicílios em que mora pelo menos um jovem, o índice de trabalho infantil era de 17,5 por 1000 e subiu para 21,2 por 1000 depois da pandemia.

ISTOÉ conversou com dois jovens que acabam de abandonar os estudos para trabalhar. Um deles é Eric dos Santos Pinheiro, 17, morador de Vargem Pequena, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que deixou o ensino médio para prestar serviços de entregador de bicicletas por aplicativo. Fica doze horas por dia em cima da bicicleta e recebe R$ 5 reais por entrega. Pressionado pelas dificuldades econômicas da família decidiu ganhar algum dinheiro. “Trabalho na região do Recreio dos Bandeirantes porque é mais perto de casa e, de vez em quando, recebo alguma gorjeta”, diz. Outro caso parecido é o de Lucas Daniel, 21, que fazia curso técnico para se tornar operador na Bolsa de Valores antes da pandemia e também desistiu de estudar. Ele mora da cidade de Guarulhos, que fica a 20 km de onde faz suas entregas de bicicleta atendendo por aplicativo.

CONVÍVIO O pequeno Martin, de 3 anos, sofre com o isolamento social e a falta de movimento (Crédito:MARCO ANKOSQUI )

Nesse cenário de indefinição e informalidade, outra pesquisa do IPEA, feita com base nos número da PNAD, mostra que a quantidade de jovens “nem nem” de 15 a 29 anos, que não estudam ou trabalham, aumentou rapidamente nos últimos meses. Segundo a pesquisadora Enid da Silva, responsável pelo levantamento, há um crescimento no número de adolescentes e jovens adultos desencorajados que não encontram mais ânimo para enfrentar a rotina escolar ou trabalhar. Ao longo de 2020, o número de jovens “nem nem” aumentou de 35 milhões para 38 milhões.

“O pior de tudo é ficar um longo período sem atividade, o que traz consequências irreversíveis”, afirma Enid. Os dados do IPEA mostram que na faixa etária de 15 a 17 anos, em vez de ficarem inativos, os adolescentes que deixaram a escola decidiram entrar no mercado de trabalho. Cerca de 50 mil adolescentes ficaram nessa situação, deixaram de ser “nem nem”, mas caíram no subemprego.

“Depois de um ano inteiro distantes da sala de aula, só posso prever um aumento enorme da desigualdade educacional” Claudia Costin, diretora do FGV CEIPE (Crédito: Rogério Albuquerque )

Para conter a evasão de alunos, Osmar Carvalho, diretor da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues, na Freguesia do Ó, em São Paulo, teve que refazer todos os guias de aprendizagem da escola para adaptá-los às aulas remotas e criar grupos de trabalho envolvendo professores, pais e alunos para estimular estudantes com dificuldades e resgatar aqueles com tendência ao abandono escolar. Com 400 alunos e voltada para o ensino médio integral, a escola fez um levantamento criterioso e um trabalho de busca ativa para manter a moral de seus alunos e teve relativo sucesso. “Tínhamos cerca de 20 alunos desmotivados e a caminho da desistência que conseguimos resgatar”, comemora. Mesmo assim, ele assistiu uma redução na aprovação dos seus alunos nas universidades. Se em 2019, 80% dos estudantes do 3º ano foram aprovados, no ano passado, o percentual foi de 65%.

Se depender do governo Bolsonaro, a massa de estudantes deserdados vai fazer homeschooling sem internet ou ajoelhar no milho de uma escola militar. O governo, hoje, está pouco se lixando para a crise na educação e parece determinado a piorá-la para promover a ignorância e o obscurantismo. No primeiro ano da história em que morrem mais brasileiros do que nascem, o ensino no País entra em um ciclo vicioso que ameaça o futuro de milhões de jovens em fase de desenvolvimento. Não bastasse a convivência diária e traumática com a morte – todo mundo já perdeu alguém querido para a Covid-19 – vive-se um momento de falta de proteção do Estado. A doença está no centro da sala, mudou a rotina de todos e os jovens vivem essa experiência dolorosamente. E, mais do que nunca, estão cheios de medos e incertezas.