A Defensoria Pública do Estado de Goiás ingressou com uma ação judicial para responsabilizar Globo, CNN Brasil, Record, SBT, Metrópoles e outros por publicações e comentários considerados ofensivos contra Sarah Araújo, mulher que teve os dois filhos assassinados pelo ex-marido em Itumbiara, no sul do Estado. A ação foi confirmada à IstoÉ e pede retirada das publicações e pagamento de danos morais coletivos.
A ação busca frear o que a instituição classifica como revitimização e linchamento virtual da mãe, sendo proposta pelo Núcleo Especializado de Defesa e Promoção dos Direitos da Mulher (Nudem), ligado à DPE-GO. Segundo o processo, os veículos teriam amplificado a tragédia sofrida por Sarah ao veicular imagens de cunho pessoal, como um vídeo em que ela parece beijando outro homem.
De acordo com a Defensoria, comentários e postagens deslocaram o foco da brutalidade do crime para a conduta moral da mulher, expondo sua intimidade e incentivando ataques em um momento de extrema vulnerabilidade. As publicações davam a impressão de que Sarah teria cometido adultério – mas a vítima já não possuía relacionamento com ex-marido, Thales Machado.
“A atuação busca frear a revitimização dessa mãe, que passou a ser alvo de ataques, julgamentos morais e discursos de ódio após a morte dos filhos”, informou a Defensoria à IstoÉ. Os portais teriam mantido as publicações no ar sem devida moderação, mesmo após repercussão e ataques contra Sarah.
Veículos inclusos na ação
- CNN BRASIL
- Diário da Manhã
- G1
- Mais Goiás Notícias
- Metrópoles
- Rádio e Televisão Record S.A.,
- Record TV Goiás
- Televisão Anhanguera S/A
- TV Serra Dourada
- Jornal Opção
A Globo alegou à IstoÉ que “não foi notificada e o vídeo em questão não foi exibido em nossas plataformas e canais”.
A CNN também informou que não publicou o vídeo mencionado, “tampouco produziu ou divulgou conteúdo audiovisual mostrando a pessoa citada na reportagem.” A emissora diz não ter sido intimada para remoção de matéria e reafirmou seu compromisso com “o exercício responsável da liberdade de imprensa, a verificação rigorosa das informações e o respeito aos direitos fundamentais”.
A reportagem também contatou os outros veículos citados, mas não obteve retorno até o momento da publicação.
Pedido de indenização coletiva
A DPE-GO atua no processo como custos vulnerabilis – ou seja, não representa diretamente a vítima, mas intervém para proteger interesses coletivos de pessoas em situação de vulnerabilidade. A Defensoria pede a retirada das publicações ofensivas e o pagamento de danos morais coletivos, a serem revertidos a um fundo gerido por conselho federal ou estadual. O processo tramita na 31ª Vara Cível de Goiânia e aguarda julgamento.
O caso envolve o assassinato de duas crianças em Itumbiara. Segundo a investigação, o pai matou os filhos e tirou a própria vida em seguida. Após o crime, a mãe passou a ser alvo de ataques virtuais e julgamentos públicos, situação que, para a Defensoria, foi agravada pela repercussão e pela ausência de controle sobre comentários e conteúdos publicados em sites e redes sociais de grandes veículos de comunicação.