Comportamento

Justiça para Oscar Wilde

Escritor irlandês foi preso na Inglaterra, em 1895, por “indecência grosseira”. Ativistas e artistas de renome querem agora transformar seu antigo cárcere em museu

Crédito: Divulgação

ROMÂNTICO O escritor foi condenado por seu relacionamento com o Lord Alfred Douglas: exemplo de intolerância (Crédito: Divulgação)

Conhecido mundialmente por sucessos como o romance “O Retrato de Dorian Gray” e a peça “A importância de ser Prudente”, o aclamado bon-vivant Oscar Wilde cometeu sim um crime: nasceu na época errada e precisou pagar por isso. Tudo porque o escritor, ensaísta e dramaturgo foi condenado à prisão e a prestar serviços forçados em 1895, no auge de sua carreira, por se relacionar com outro homem, na época, o jovem inglês Lord Alfred Douglas. A prisão onde Wilde passou 18 meses de sua vida e da qual saiu com a reputação arruinada agora pode virar um museu e centro artístico, isso se o município de Reading conseguir adquirir a antiga construção das mãos do governo britânico.

RENOME O artista Banksy imortalizou o escritor nas paredes da prisão de Reading (Crédito:MING YEUNG)

Ativistas da causa LGBTQI+, estrelas como as atrizes Kate Winslet, Judi Dench e até o artista Banksy entraram na causa pela ressignificação da “Reading Gaol”, prisão da era vitoriana a 65 quilômetros de Londres e conhecida por torturas e péssimas condições sanitárias. A disputa, por enquanto, está no valor a ser pago pelo local, já que a proposta inicial de 2,6 milhões de libras (ou R$ 15,5 milhões) foi considerada baixa pelo Ministério da Justiça, que afirmou em nota “buscar o melhor valor para os contribuintes”. E agora, o local ganha um adendo: Banksy usou uma das paredes externas do prédio para deixar uma de suas obras: um homem escapando do local com a ajuda de lençóis e uma máquina de escrever, deixando clara a sua intenção em marcar o local como um reduto ligado a Wilde. Vale lembrar que a última peça leiloada de Banksy, Game Changer, foi arrematada por 16,7 milhões de libras, cerca de R$ 130 milhões. Ou seja, a parede agora pode valer mais que todo o edifício histórico. A proposta da cidade de Reading, contudo, segue firme e agora é mais difícil de ser ignorada.

A vontade em manter o legado da cela 33, o espaço relegado a Wilde dentro prisão, é imensa. O autor até escreveu um poema sobre o prédio: “A Balada do Cárcere de Reading”, imortalizando-a como uma das cadeias mais famosas do mundo. Há ainda o vasto passado de intolerância sexual no Reino Unido que poderia ser discutido. A repressão ao que se chamava de sodomia vem desde a época do rei Henrique VIII com seu pior pico de repressão ao final do século 19, período extremamente conservador do país em que se condenava qualquer “desvio de conduta”. Até a prática de sexo anal entre casais heterossexuais era considerada crime. A Lei da Sodomia só foi abolida em 1959. Manter relações homossexuais, no entanto, foi considerado delito grave na Inglaterra e no País de Gales até 1967, na Escócia até 1980 e na Irlanda do Norte até 1982.

Um dos casos mais emblemáticos envolvendo as duras leis inglesas é o do matemático Alan Turing, responsável por decifrar os códigos usados pelos nazistas na Segunda Guerra. Turing também foi condenado por indecência grosseira depois que foi descoberto o seu relacionamento com um jovem de 19 anos, em 1952. Ele foi castrado quimicamente e se suicidou em 1954. A rainha Elizabeth II concedeu perdão pela condenação de Turing em 2013 e apenas em 2017 a todos os condenados injustamente por crimes ligados à sexualidade. Na época, a medida de perdoar os condenados não foi considerada suficiente pelos ativistas e, por isso, agora, vê-se um forte apoio à criação de um museu dedicado a um dos maiores escritores que o mundo já viu. Pede-se justiça para Oscar Wilde. Darcy Sullivan, da Fundação

RESSIGNIFICAÇÃO A cela 33, onde Wilde foi detido, já teve até exposições artísticas temporárias (Crédito:JUSTIN TALLIS)

Oscar Wilde, com sede na Inglaterra, falou à ISTOÉ sobre a importância da iniciativa para confrontar o passado repressor do país. “Reading Gaol apresenta uma rara oportunidade de preservar um local que nos ajuda a entender o lado mais sombrio de nossa história. Não podemos jogar isso fora”, afirmou.

De Profundis: uma sofrida reflexão sobre o destino

LEGADO Trecho do manuscrito “De Profundis” escrito a mão pelo autor em seu período aprisionado

O título em Latim, inspirado no Salmo 130, com o significado “Das profundezas”, é uma epístola escrita por Oscar Wilde para seu amante da época, Lord Alfred Douglas, durante os períodos finais de seu encarceramento. Na prisão, o autor teve permissão para escrever, mas dessa vez como punição ou medida terapêutica. Cada página escrita era retirada da cela e Wilde só recebeu o manuscrito de volta ao final de sua pena. Publicado cinco anos após a sua morte, em 1905, a obra é uma longa reflexão sobre a sua condenação.

Wilde condena Douglas e sua vaidade por tê-lo levado a um julgamento fadado ao fracasso e também a si mesmo por sua fraqueza diante do amado. “De Profundis” foi entregue ao jornalista Robert Ross, um antigo amante de Wilde e rival de Douglas. Na obra, o escritor também mapeia seu desenvolvimento espiritual e se identifica com Jesus Cristo,
a quem caracteriza como um romântico e individual artista.