Juros: taxas longas avançam com notícia de que PT vai pedir revisão na autonomia do BC

Já com abertura mais pronunciada na primeira etapa do pregão, os juros futuros longos aceleraram a alta a partir do meio da tarde. O estopim para a piora foi notícia, dada pela Folha de S.Paulo e confirmada logo depois pelo Broadcast Político, de que a bancada petista na Câmara dos Deputados tem intenção de diminuir a autonomia do Banco Central após as irregularidades que vieram à tona no banco Master.

Segundo o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), o caso Master evidencia que o BC não pode ter total autonomia operacional e, por isso, os parlamentares da sigla terão reunião com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O objetivo seria discutir uma alteração constitucional para aumentar o controle sobre a autarquia.

Para profissionais do mercado consultados pela Broadcast, é pouco provável que a iniciativa dos deputados tenha de fato algum resultado. Mas, em um dia fraco na agenda econômica, foi suficiente para aumentar a inclinação da curva a termo. Já os trechos mais curtos seguiram em leve queda, com os agentes ainda mais confiantes de que o ciclo de afrouxamento monetário terá início com um corte de 50 pontos-base na Selic.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 13,379% no ajuste de ontem para 13,36%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 12,727% no ajuste anterior a 12,76%. O DI para janeiro de 2031 avançou a 13,205%, vindo de 13,148% no ajuste antecedente.

Gestor de renda fixa da Kinea Investimentos, Guilherme Rodrigues avalia que a notícia sobre a possível revisão da autonomia do BC pode representar apenas um ruído, mas contribuiu para maximizar o movimento de “bull steepening” da curva, ou seja, quando as taxas de longo prazo sobem mais rapidamente do que as de horizontes mais próximos.

Segundo Rodrigues, essa tendência é típica de momentos próximos de ciclos de flexibilização do juro básico, como o atual. “O efeito inicial é ficar mais aplicado na parte curta. E aí a ata do Comitê de Política Monetária Copom confirmou totalmente o corte de 50 pontos-base, ao mostrar que não teve nenhum desconforto do BC com essa precificação”, disse. A leitura da autoridade monetária, em sua visão, sinaliza um orçamento total de ajuste na Selic de ao menos 300 pontos-base em 2026.

No cômputo semanal, o saldo também foi de ganho de inclinação na curva. A taxa negociada para o primeiro mês de 2027 cedeu 12 pontos-base em relação ao fechamento da última sexta-feira, depois de a ata do Copom não ter ido contra as expectativas da maioria dos agentes para o primeiro corte da Selic.

Já os vértices de janeiro de 2029 e de 2031 abriram 3,5 pontos-base e 11 pontos-base, respectivamente, afetados pelo estresse causado pela possível nomeação do atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, a uma das diretorias vagas do BC. O mercado tem receio de que Mello, de orientação heterodoxa e próximo ao governo petista, ocupe a cadeira de Política Econômica.

Nesta manhã, durante apresentação do balanço macrofiscal de sua secretaria, Mello disse que ainda não recebeu nenhum convite para o cargo de diretor do BC, mas aceitaria se tivesse. A SPE aumentou marginalmente a sua projeção para a inflação de 2026, de 3,5% para “cerca de” 3,6%. Tanto os dados quanto as declarações do economista não tiveram impacto relevante sobre a curva futura hoje.

Relatório semanal do Santander cita que a curva a termo precificava nesta sexta-feira cerca de 80% de chance de corte de 0,5 ponto do juro básico na reunião de março do Copom, com a Selic terminando o ano por volta de 12%. Após ter mudado a projeção de uma ajuste inicial de 25 pontos-base para um de 50 pontos-base em seguida à ata, a instituição reduziu hoje sua estimativa para a taxa final do ano, de 12,5% para 12%.

Para o head de política monetária do banco, Marco Antonio Caruso, as recentes comunicações do BC sugerem que há “conforto” com as apostas do mercado financeiro em torno de um corte “mais firme” na taxa de juros já na reunião de março. A instituição financeira também está ligeiramente mais otimista com o nível da inflação ao longo de 2026, passando a prever IPCA de 3,7% no final do ano, ante estimativa anterior de 3,8%.