Juiz de Fora vive dias de tensão após tragédia

Temporal na cidade mineira em fevereiro que bateu recorde em volume de chuvas teve consequências inéditas, afetando áreas antes tidas como seguras e levantando questões sobre como se preparar para eventos extremos.Os danos das chuvas em Juiz de Fora são bem conhecidos em uma cidade que tem um relevo que coloca grandes partes de sua população no "fundo" do vale do rio Paraibuna ou em um dos muitos morros da cidade. No entanto, a intensidade das chuvas desta semana tornaram os efeitos da tragédia inéditos. Áreas até então vistas como seguras foram impactadas, levantando questões sobre como se preparar para eventos extremos, que, segundo especialistas, tendem a ser mais recorrentes e impulsionados pelas mudanças climáticas.

"É algo que nunca aconteceu aqui. Estava dormindo, e às 2h escutei vozes gritando para sair do prédio. Achei que fosse mentira ou alguma brincadeira”, conta Priscila de Neves, há cinco anos moradora do bairro Paineiras, na região central, próxima a uma das áreas que sofreu com o deslizamento vindo do chamado Morro do Cristo.

Desesperada, juntou rapidamente documentos e foi para outra propriedade, no Bairro Grama, onde planeja ficar até quando situação em sua rua permitir, o que não sabe quando deverá ocorrer. "A recomendação que temos é de não voltar até que se normalize”, afirmou.

Em uma região mais elevada que aquela às margens do rio que corta a cidade, as proximidades do Morro do Cristo há décadas são muito procuradas, em um cenário de habitações de padrão mais elevado e estrutura mais desenvolvida que em outras partes da cidade, o que fazia com que chuvas não fossem observadas como grande ameaça às edificações.

Imprevisibilidade

Ainda assim, desde 2017 a região consta como local de risco no mapeamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Na madrugada da última terça-feira (23/02), os deslizamentos na região mataram três pessoas, depois que uma onda de lama se arrastou pelo morro, destruindo edificações que estavam pelo caminho. Desde então, uma série de moradores se deslocou para outras regiões da cidade, algo que muitos fizeram pela primeira vez desde que moram ali.

"Boa parte da chuva ocorreu à noite, o que colaborou para pegar as pessoas de surpresa", afirma a climatologista e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Cássia Ferreira. Em um ambiente de "ocupação menos vulnerável”, destaca, a imprevisibilidade e a falta de planejamento tornaram os eventos da última madrugada ainda mais trágicos.

A cidade registrou ao menos 42 mortes e 18 desaparecidos até esta quinta-feira (26/02). Escavações em buscas de vítimas prosseguem, enquanto novos desmoronamentos foram registrados nesta quarta-feira. O alerta máximo de risco para chuvas está previsto ir até a próxima sexta-feira no munícipio. Atualmente, são cerca de 3.500 desalojados em Juiz de Fora.

O cenário é de tensão na cidade, com muitos comparando regiões pouco movimentadas ao período da pandemia. Uma moradora do bairro Democrata, um dos mais afetados, que preferiu não se identificar, afirmou: "Não vou nem olhar mais vídeos, ou não durmo de preocupação”. Segundo ela, seu temor se deve em razão de um barranco que está desmoronando próximo ao seu prédio.

Fevereiro mais chuvoso da história

Em uma cidade marcada pela polarização política em temas municipais, especialmente em razão de a prefeitura ser ocupada desde 2021 por Margarida Salomão (PT), a visão de um ineditismo no volume de chuva que caiu no começo foi uma unanimidade entre a população.

O acumulado de cerca de 200 milímetros (mm) de chuva em um espaço de 12 horas, entre às 17h do dia 22/02 e às 5h do dia 23/02 não tem registros semelhantes na série histórica da cidade. Para todo o mês de fevereiro, a média na cidade costuma ser de 170 mm.

A concentração pluviométrica acumulada, em um fevereiro que registrou o maior volume de chuvas para este mês na sequência histórica da cidade antes de chegar ao fim, colaborou para um ambiente saturado, no qual os deslizamentos foram mais propensos.

Além disso, "uma frente fria passava pelo Sudeste, trazendo bastante chuva e desestabilizando a atmosfera”, aponta Pedro Caraminha tecnologista e diretor substituto do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

No entanto, a razão de tamanha concentração em Juiz de Fora ainda vem sendo avaliada. Uma hipótese é que a interação do vento com as montanhas da região tenha contribuído para o chamado efeito orográfico, criando um contraste que favorece estas chuvas, explica.

Ferreira lembra que, em janeiro de 1985, a cidade enfrentou um cenário semelhante nos volumes de chuva. No entanto, ela faz uma distinção entre os dois momentos: "A cidade tinha cerca de metade do número de habitantes que tem hoje. Atualmente, todos os efeitos são potencializados pela urbanização, com mais pessoas ocupando espaços vulneráveis".

Mudanças climáticas e eventos extremos

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que cada vez mais, em razão das mudanças climáticas, situações como esta tendem a ser mais extremas e a ocorrer com maior frequência. "Segundo o IPCC, chuvas na região Sudeste se tornariam mais concentradas, ocasionando em eventos extremos, e ocorrendo em um período mais curto de tempo”, aponta Ferreira.

Caraminha explica que a atmosfera mais quente retém mais umidade, favorecendo assim a ocorrência desses eventos de chuvas concentradas.

Petrópolis, a 85 quilômetros de Juiz de Fora, foi atingida por um desastre ainda mais forte em fevereiro de 2022, quando choveu 252,8 mm em 3 horas, resultando em 200 mortes e centenas de pessoas desabrigadas.

Após aquele evento, o estudo Atribuindo um desastre mortal de deslizamento de terra no Sudeste do Brasil às mudanças climáticas induzidas pelo homem apontou que as alterações no clima tornaram situações extremas 45% e 71% mais prováveis em períodos de chuva de curto e longo prazo, respectivamente. A recorrência destes eventos diminuiu de 2,36 anos para 1,63 anos no caso de chuvas de curta duração e de 5,66 anos para 3,31 anos nas mais prolongadas.

Ferreira lembra que também ocorreu uma grande concentração de chuvas em outras áreas do Sudeste, mas que, na cidade de Juiz de Fora, há mais regiões suscetíveis. Segundo o Cemaden, a cidade tem a nona maior população do Brasil vivendo em áreas de risco. São cerca de 130 mil pessoas suscetíveis a deslizamentos, inundações e enxurradas.

"Espero que mude a visão”

Por sua vez, a dimensão da tragédia, que costumava ser restrita às áreas mais vulneráveis e habitações com menos estrutura, levanta expectativas de que o tema da adaptação aos eventos extremos torne-se prioridade. "Espero que mude a visão a partir de agora. É preciso se atentar a planos que se adaptem a chuvas mais volumosas”, aponta Ferreira.

"Juiz de Fora é um dos munícipios com maior número de ocorrências atribuídas a deslizamentos. Muitos foram de menores proporções, mas isso é um anúncio de que, uma vez que um evento extremo aconteça, o desastre ocorreria”, aponta Caraminha.

Ele lembra que desastres são raros, "não ocorrem todos os dias e todos os meses, às vezes demora décadas para um novo”. Assim, durante mandatos de prefeitos e vereadores, talvez não ocorra nada, então "acaba não recebendo ênfase”.

"Quando outros extratos da sociedade são atingidos, não somente as populações mais vulneráveis, que é o comum no Brasil, isso causa uma repercussão maior, uma vez que a classe política pode estar mais inserida neste meio”, afirma.

Na avaliação de Ferreira, evitar por completo um desastre seria inviável no caso de Juiz de Fora. Mas ele diz que caso medidas tivessem sido mais bem executadas, seria possível uma mitigação dos efeitos das chuvas. Ela lembra o caso do Morro do Cristo, que ao longo dos anos teve um processo no qual a ocupação urbana retirou a vegetação natural, que poderia limitar deslizamentos.

Tragédia e reação

Com as aulas da rede pública suspensas, escolas em áreas mais afetadas estão servindo como abrigo e centro de doações na cidade. A quantidade de materias entregues vem surpreendendo voluntários que atuam na operação, com centros cheios e fluxo constante.

A DW visitou o centro destinado ao bairro Paineiras, e constatou uma movimentação tão grande de veículos que chegou a causar congestionamentos ao longo do dia na estreita via que sedia a Escola Municipal Professor Nilo Camilo Ayupe. O tempo todo, carros chegavam com porta-malas cheios de donativos, especialmente roupas.

A movimentação impressionou Thaís Nascimento, que vem coordenando as ações no espaço. Segundo ela, o fluxo grande de doações vem sendo distribuído para outras unidades, uma vez que o espaço vem sendo pouco buscado por desalojados que procuram lugar para passar a noite.

Por outro lado, golpes vêm se proliferando a partir da solidariedade, inclusive usando o nome da Prefeitura de Juiz de Fora para pedir doações via Pix. Em suas redes sociais, a instituição lançou uma chave própria para receber doações, com o email: contribua@pjf.mg.gov