Brasil

Judeus contra Bolsonaro

Entidades judaicas protestam contra o presidente. Ele recebeu a deputada alemã Beatrix von Storch que é vice-líder do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), defensor de ideais neonazistas. O avô da parlamentar foi ministro de Adolf Hitler

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#PORTODAAVIDAVAMOSLEMBRAR Museu do Holocausto em Curitiba cumpre a missão de cuidar da memória para que novas iniciativas genocidas similares ao nazismo não aconteçam (Crédito: Divulgação)

A recepção com honras de Estado dada à vice-líder da extrema direita alemã, Beatrix von Storch, indignou toda a comunidade judaica. Nada menos que o presidente da República, a deputada Bia Kicis, o deputado Eduardo Bolsonaro, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, e o secretário da Cultura, Mário Frias, receberam a parlamentar alemã em seus gabinetes em Brasília. Beatrix é neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças de Hitler. As declarações de repúdio ao encontro foram imediatas. A Confederação Israelita do Brasil (Conib), que é a entidade judaica mais representativa do País, divulgou uma nota oficial contundente lamentando a recepção à parlamentar ultraconservadora alemã. “Trata-se de partido extremista, xenófobo, cujos líderes minimizam as atrocidades nazistas e o Holocausto”. A AfD é reconhecida por querer revisionar todos os acontecimentos durante o Holocausto. Embora o episódio tenha causado desconforto, não surpreende a ninguém a aproximação de Bolsonaro com as narrativas antissemitas. Os discursos racistas e negacionistas da pandemia caminham em paralelo e são incentivados pela ala ideológica do governo. Bolsonaristas mais radicais vibram quando o presidente divulga valores de ódio a judeus, negros, imigrantes, mulçumanos e população LGBTQIA+. O populismo do presidente também é inspirado em modelos totalitários do fascismo e do nazismo. Desde a motociata, copiada do ditador italiano Benito Mussolini, até a repetição das mentiras de Hitler – hoje chamadas de fake news – que é um dos mais expressivos instrumentos de propaganda do mandatário brasileiro.

ALINHADOS A parlamentar Beatrix von Storch e seu marido são recebidos fora da agenda pelo presidente Jair Bolsonaro (Crédito:Divulgação)

Nas redes sociais a deputada agradeceu a recepção: “nós, conservadores, devemos formar uma rede mais próxima e defender nossos valores conservadores em nível internacional”, disse Beatrix. A parlamentar representa um passado que não tem mais respaldo. Em 2016, ela defendeu que a polícia atirasse em imigrantes, inclusive crianças e mulheres que tentassem entrar ilegalmente na Alemanha. Milita radicalmente contra o casamento homoafetivo e se opõe ao bloco da União Europeia. O sectarismo da deputada é tamanho que ela protestou quando houve felicitações natalinas em árabe no site da polícia alemã.

Abrir agenda para uma parlamentar tão inexpressiva mostra a fragilidade nas articulações de um presidente que fala para cada vez menos pessoas. “Um abraço aos náufragos”, foi o que desejou o Instituto Brasil Israel (IBI). Por meio do seu coordenador-executivo, Rafael Kruchin, o instituto divulgou nota em que critica o encontro. Kruchin afirma que Bolsonaro e Beatrix se firmam como figuras sectárias à medida que os dois lados ignoram as tragédias que encontram em seus países com mortos pela Covid e uma história enchente na Alemanha. “O IBI repudia veementemente estes encontros, que representam um revés nos esforços de construção de uma memória coletiva do Holocausto e uma afronta à letra e ao espírito da Constituição democrática do Brasil”.

“Trata-se de partido extremista, xenófobo, cujos líderes minimizam as atrocidades nazistas e o Holocausto”
Confederação Israelita do Brasil

O grupo Judeus pela Democracia (JPD) foi o mais enfático. No Twitter, escreveu que o “bolsonarismo não se preocupa mais em esconder a suas simpatias”. Para a JPD é inaceitável e perigosa a relação do governo brasileiro com a AfD. “É algo que nos assusta ainda mais, não apenas como judeus, mas também como brasileiros. Sem rodeios: nazistas”. Com a hashtag #portodaavidavamoslembrar, o Museu do Holocausto, de Curitiba, fez uma campanha nas mídias sociais para denunciar a presença da parlamentar alemã no Brasil. As postagens destacaram a preocupação em que sejam destruídos “os esforços de construção de uma memória coletiva do Holocausto no Brasil e para nossa própria democracia”. A reação no exterior também foi grande. Nos Estados Unidos, a mais representativa entidade judaica, American Jewish Comittee, manifestou preocupação com o encontro e disse que os ideais racistas e xenofóbicos da AfD não têm espaço no Brasil. Na Alemanha, os jornais divulgaram a reunião com espanto e a decepção com o Brasil ficou estampada já que apenas párias recebem o grupo de extremistas. Quando ainda era deputado, Bolsonaro deu uma entrevista para o extinto programa da Band chamado CQC. Na oportunidade, ele disse que Hitler era um estrategista que queria “aniquilar outro país, para defender o seu povo” e que “genocídio é outra história”. A demonstração de admiração do presidente pelo ditador alemão explica todo o encontro com Beatrix.

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Johann Ludwig Schwerin von Krosigk

O avô de Beatrix foi ministro das Finanças nazista por 13 anos e se manteve na defesa do regime mesmo após a morte de Hitler. Era de Krosigk a responsabilidade de efetuar a apropriação de bens dos judeus para o governo alemão. Em testamento, Hitler deixou clara a importância de Krosig. O ministro foi escolhido para continuar nas Finanças num governo liderado por Goebbels. Condenado a dez anos de prisão por crimes de guerra, em 1949, o ministro cumpriu pena até 1951, quando foi beneficiado por uma anistia.