Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

A menos de dois meses do resultado nas urnas, salta aos olhos a alta rejeição alimentada pelo estrato maior da sociedade – composto por mulheres e jovens – contra a reeleição do candidato do Planalto, Jair Bolsonaro. Ele não emplaca qualquer vantagem estatística nesses dois principais segmentos do eleitorado. Dias atrás, mais uma pesquisa Datafolha dava conta do fosso que separa o capitão daqueles votantes na faixa etária de 16 a 29 anos. Reside ali um monumental muro de resistência. Mais de 67% da juventude dizem que não votariam nele de jeito algum. Nos índices das intenções, 51% manifestaram preferência pelo opositor, Lula, ante apenas 20% dos que optaram por Bolsonaro. O resultado é desalentador e mina de forma acachapante os planos de Messias. O recorte evidencia que em ao menos 12 capitais, dada a dianteira e o tempo restante, muito dificilmente qualquer virada de placar é possível nesse segmento. E é um bloco considerável do universo de pessoas aptas ao pleito de outubro próximo. Pelo menos 27,6% dos votantes estão nesse miolo etário da pirâmide. As coisas só pioram quando verificado o desempenho do mandatário no conjunto feminino, que compõe a maioria absoluta do colegiado. Cerca de 53% dos 156,4 milhões de indivíduos habilitados para outubro próximo são mulheres. E aí, nessa camada, a resistência é sem precedentes. Nada menos que 61% delas pedem o “fora Bolsonaro”. Na ponta dos números, de cada quatro eleitoras, três não pretendem tê-lo em um novo mandato presidencial. Dada a fatia majoritária desse público no total daqueles que irão decidir quem comanda o Brasil a partir de 2023, já é possível prever como remotíssimas as chances do “mito” seguir na cadeira que hoje ocupa. E não é para menos que a insatisfação feminina assuma proporções diluvianas. O capitão é um misógino convicto e irreparável. Demonstrou tamanho pendor em inúmeras ocasiões. Em sua verve absolutamente desconjuntada – sem noção do ridículo – alega que elas não votam nele por não gostarem de motociatas. Já chegou ao cúmulo do absurdo de dizer que “as mulheres estão praticamente integradas à sociedade”. Como se estivesse a tratar de algum tipo de animal irracional, inferior ao perfil por ele aclamado do tal “macho alfa”. Buscando consertar o estrago do comentário pretérito – com o qual também já se referiu aos indígenas, diga-se de passagem –, declarou, dias atrás, que as mulheres conseguiram “quase tudo” que queriam no seu governo. A maioria ficou sem entender a que ele se referia. No histórico de gafes notórias e ataques aos direitos femininos, Bolsonaro já fez apologia ao estupro, à agressão física explícita contra muitas delas (algumas jornalistas e colegas parlamentares, por exemplo) e afrontou a dignidade da maioria negando políticas públicas essenciais como a do combate à miséria menstrual. No último Dia Internacional da Mulher, em maio passado, manifestantes carregavam faixas com o lema “Pela Vida das Mulheres, Bolsonaro nunca mais!”. Em discussão com a advogada Conceição Aparecida Aguiar, o presidente partiu covardemente para as vias de fato, batendo nela pelas costas. Sexista clássico, em programa de entrevista com a cantora Preta Gil, indagado sobre a possibilidade de um dos seus filhos se envolver com uma negra, respondeu de bate-pronto: “eu não corro esse risco”. E completou: “não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o seu”. Eis o capitão em estado bruto. O mesmo que já disse a uma colega parlamentar que não a estupraria porque ela “não merece”. E fica a grande questão: como reverter tal histórico de patetices machistas e deploráveis para convencer que o agora candidato mudou, é outro? Difícil. Nem dá para esconder a sua natureza tacanha. Em determinada ocasião, ao ser questionado sobre a situação de trabalhadoras que decidem ser mães, deixou no ar que elas deveriam ganhar menos ou procurar outro emprego. Sobre os filhos, lembrou que tem cinco — “foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio mulher”. Bolsonaro não é menos preconceituoso quando fala de jovens e insinuou em inúmeras circunstâncias que eles deveriam ouvir os pais para aprender como votar direito. Talvez por posturas tão bizarras, acabou por incitar uma mobilização intensa daqueles que ainda não haviam tirado o título para manifestar a preferência no escrutínio deste ano. Cresceu em mais de 50% a procura pelo cadastramento e regularização do documento. O universo dos que irão votar pela primeira vez subiu de 1,4 milhão de jovens para 2,1 milhões e, no total, o eleitorado brasileiros cresceu por volta de 6,21% — compondo, assim, o maior colégio de votantes já registrado pelo TSE. De uma forma geral, o incremento na quantidade de eleitores tem, curiosamente, muito a ver com a rejeição aos métodos do atual titular do Palácio. Bolsonaro gerou antipatia e avança a resistência ao seu nome. Percebendo a perspectiva de derrota, ainda mexe as peças para reparar a rejeição. Escalou a mulher, Michelle, que tentou arrebanhar seguidoras com propaganda enganosa. Ela mentiu sobre projetos que nunca existiram, dirigidos à proteção do sexo feminino, em um esforço inútil para abrandar o currículo de equívocos do marido. A narrativa paralela soa bizarra frente às evidências. O público jovem e de mulheres não tolera a ideia de seguir adiante com mais quatro anos de diatribes tonitruantes do capitão e da turma que o cerca.