Jovens enfrentam “desafio” para influenciar decisões ambientais

Representante brasileira critica a falta de estrutura e financiamento para juventude nas COPs, apesar da importância de sua atuação

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A participação de jovens nas conferências internacionais sobre meio ambiente, embora tenha avançado, ainda enfrenta um desafio crucial: a efetiva integração desses agentes nos espaços de decisão. Essa é a avaliação da advogada cearense Beatriz Azevedo, de 33 anos, que foi reconhecida em 2024 como uma das dez Land Heroes (heróis da terra) pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD)

  • Jovens em decisões ambientais ainda enfrentam barreiras para ter suas contribuições incorporadas nas resoluções finais das conferências.
  • Beatriz Azevedo, uma das dez Land Heroes da ONU, ressalta a falta de estrutura e financiamento para a juventude que atua na crise climática.
  • A COP17 de Combate à Desertificação é vista como uma oportunidade para dar visibilidade às questões da Caatinga e do Semiárido brasileiro.

O título de Land Hero é concedido a jovens e organizações que desenvolvem ações de enfrentamento à desertificação, degradação da terra e seca. A iniciativa busca não apenas dar visibilidade a esses agentes de mudança, mas também aproximá-los dos processos decisórios da convenção.

Para Beatriz Azevedo, existe uma expectativa crescente de que os jovens sejam parte ativa da solução para a crise ambiental e climática. Contudo, essa cobrança não é acompanhada por uma oferta proporcional de estrutura, financiamento e oportunidades profissionais. Essa disparidade gera um gargalo que impede a plena atuação da juventude.

Em entrevista à Agência Brasil, a advogada abordou os desafios inerentes à transformação da representatividade em influência política concreta. Ela também discutiu o financiamento de iniciativas de restauração e suas expectativas para a COP17 de Combate à Desertificação, que se realiza na Mongólia.

COP17 da Desertificação debate soluções globais

A conferência teve início na última segunda-feira, 17 de agosto, e se estende até o dia 28 de agosto, em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. Com o tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”, o evento reúne representantes de 197 países, além de cientistas, empresas, organizações da sociedade civil, povos indígenas, pastores, agricultores familiares e jovens.

O foco das discussões abrange temas cruciais como restauração de terras, combate à seca, segurança alimentar, financiamento de projetos e resiliência a eventos climáticos extremos. Beatriz Azevedo, que também preside a Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e fundou a ABA Climate Solutions (consultoria especializada em financiamento climático), está ativamente envolvida nos debates.

A ambientalista tem a expectativa de que a COP17 se configure como mais uma oportunidade para ampliar a visibilidade sobre problemas que afetam diretamente o Nordeste brasileiro. Enquanto as negociações climáticas frequentemente direcionam a atenção para a Amazônia, Beatriz enfatiza que a conferência sobre desertificação oferece um palco primordial para colocar a Caatinga e o Semiárido no centro das discussões.

Como conectar agendas da ONU com a realidade do Nordeste?

Agência Brasil: Como representante brasileira do Land Hero, de que maneira você conecta as agendas da UNCCD com a realidade do Nordeste, região historicamente afetada pela seca e desertificação?

Beatriz Azevedo: Levamos a nossa realidade local para o espaço da ONU por conta dos acessos que nos são abertos. Estive em países como Arábia Saudita, China e Panamá, onde tive espaços de fala para compartilhar a realidade do Ceará e as soluções com as quais venho trabalhando. Já são 14 anos nessa trajetória, então cheguei a um ponto em que quero focar nas soluções, nas ecologias e projetos que funcionam.

A convenção aborda muito a perspectiva de conter e compensar a degradação, tanto pela conservação quanto pela restauração. Hoje, minha empresa está em processo para entrar na coalizão Business4Land, coalizão de empresas que promovem negócios ligados à terra.

Muitos jovens premiados atuam diretamente na ponta. Uma amiga tem um projeto de restauração com moringa na África. Outro colega atua com agricultores na Índia. A minha iniciativa atua no meio do processo: conectando financiadores às iniciativas. Eu foco no debate sobre financiamento e políticas públicas, além de acompanhar a implementação de políticas estaduais no Conselho Estadual do Meio Ambiente. O objetivo é sempre integrar o contexto local ao internacional.

Qual a evolução da participação da juventude em debates ambientais?

Agência Brasil: Você tem participado há anos de diferentes conferências da ONU. Como avalia a participação da juventude nos espaços de decisão?

Beatriz Azevedo: A participação avançou bastante. Na primeira COP da Desertificação que fui, em 2013, não havia espaço para a juventude. Hoje, temos o Youth Forum, programas como o Land Heroes, o Ecopreneur (para empreendedores verdes) e o Youth Negotiators, que treina jovens negociadores. Em termos de participação e presença, demos um salto de qualidade.

O desafio atual é como fazer com que as contribuições dos jovens sejam de fato incorporadas nas decisões finais que são tomadas pelos países. Para isso, os jovens precisam atuar diretamente com seus governos nacionais.

O governo brasileiro historicamente se mostra muito aberto a esse diálogo com o Itamaraty e com os ministérios, o que é fundamental para fundamentar as posições do país.

Agência Brasil: Por que é necessária uma participação específica da juventude nesses debates ambientais e quais são as principais demandas que ela apresenta?

Beatriz Azevedo: Há um debate muito forte sobre justiça climática e representatividade das diferentes juventudes existentes. Os jovens se caracterizam por colocar a “mão na massa”, com muita energia, e por apresentar projetos de grande impacto direto na ponta.

Por outro lado, a juventude é a geração que está sendo preparada para tomar decisões e liderar em um cenário de “novo normal”, marcado pela crise climática e por fenômenos mais severos, como o El Niño.

Uma juventude consciente da ciência e dos processos de tomada de decisão está muito mais bem preparada. Além disso, esses espaços promovem a articulação em rede com o governo e a sociedade civil, fortalecendo a formação das lideranças.

O que a COP17 representa para o Nordeste?

Agência Brasil: Quais são suas principais expectativas em relação às pautas que precisam avançar nesta COP da Desertificação?

Beatriz Azevedo: Vejo que o governo brasileiro tem enfatizado a bioeconomia, a ideia de que a restauração da terra deve caminhar junto com benefícios socioeconômicos, como geração de emprego e renda.

Na minha empresa, discutimos projetos nessa linha. Por exemplo, a cultura da macaúba para a produção do combustível sustentável de aviação (SAF) pode ser associada a projetos de restauração. Outra frente são os projetos de restauração financiados pelo mercado de carbono.

Precisamos de decisões que promovam ações sustentáveis do ponto de vista econômico, ambiental e social. Não se pode exigir a conservação sem oferecer meios de subsistência para quem cuida do território.

É claro que isso deve caminhar lado a lado com a demarcação de terras indígenas e a garantia de direitos. O caminho é viabilizar o financiamento justo para que chegue aos assentamentos rurais e comunidades locais, promovendo a repartição de benefícios.

Agência Brasil: A COP da Desertificação costuma receber menos atenção do público do que as COPs do Clima e da Biodiversidade. Como você avalia essa diferença e a possibilidade de torná-la mais conhecida?

Beatriz Azevedo: Ela é de fato menos conhecida. A do Clima vem em primeiro lugar, seguida pela de Biodiversidade e, por fim, a de Desertificação, até por ser um tema muito associado a regiões específicas, como o semiárido nordestino no Brasil.

Porém, vejo isso como uma oportunidade. Enquanto na COP do Clima a atenção internacional sobre o Brasil se volta prioritariamente para a Amazônia, a COP de Desertificação dá visibilidade para a Caatinga e o Semiárido. É um espaço valioso para o Nordeste pautar suas demandas diretamente com o governo e outros países.

Jovens ativistas sofrem com sobrecarga, diz advogada

Agência Brasil: Muitos jovens ativistas relatam uma sensação de sobrecarga e ansiedade. Como você vê esse cenário de pressão sobre os jovens por mais engajamento e resultados, enquanto precisam lidar com notícias frequentes sobre emergência climática, degradação ambiental e incertezas sobre o futuro da humanidade?

Beatriz Azevedo: Essa reflexão é muito válida. Entre 2016 e 2021, eu me afastei do processo da ONU justamente por me sentir sobrecarregada ao participar das conferências, mas não ver as coisas mudarem no ritmo necessário. Decidi, então, focar no trabalho local.

Existe uma narrativa forte de que “o jovem é a solução”, mas há pouca estrutura e financiamento dedicados a isso. O trabalho no terceiro setor muitas vezes é instável, apoia-se excessivamente no trabalho voluntário e oferece remunerações precárias. O ativismo abre portas e dá visibilidade, mas nem sempre se traduz em emprego e renda imediatos.

Esse cenário impacta a saúde mental. Quando retornei para o espaço internacional, mudei meu foco para o financiamento, pois entendi que esse era o principal gargalo: como fazer os recursos chegarem a quem executa.

Agência Brasil: Qual mensagem você deixaria para os jovens que desejam se engajar na pauta ambiental?

Beatriz Azevedo: Gostaria de deixar uma mensagem de esperança e incentivo. Embora o tema pareça por vezes pesado, trabalhar com a agenda ambiental é uma oportunidade de atuar alinhado aos seus propósitos e gerar um impacto positivo na sociedade por meio de novas soluções, tecnologias e projetos. Vale a pena seguir esse caminho profissional e de vida.

A Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

(Foto: Arquivo pessoal)