Grafites reais ou imaginários, artigos de imprensa falsos… Os Jogos Olímpicos Paris 2024 enfrentam inúmeras tentativas de desestabilização nas redes sociais, especialmente atribuídas à Rússia, ressaltam vários especialistas.

“A Rússia tenta (…) minar os Jogos Olímpicos de Paris através de várias operações de influência maligna em curso, incluindo campanhas lançadas desde pelo menos 2023”, consideram os especialistas em cibersegurança da Recorded Future num relatório publicado nesta terça-feira (4).

“Os esforços de influência da Rússia convergem para os Jogos Olímpicos de Paris 2024”, afirma o Centro de Análise de Ameaças da Microsoft (MTAC), especificando que Moscou tem uma longa tradição de ataques contra eventos olímpicos e eventos esportivos.

A Rússia negou as acusações nesta terça e desmentiu, através do porta-voz presidencial, Dmitri Peskov, qualquer campanha de desinformação contra os Jogos.

“A Rússia não interfere e não irá interferir nos assuntos internos franceses. Nosso país tem prioridades mais importantes”, acrescentou a embaixada russa em Paris.

No relatório, os especialistas detalham a gama de meios para descredibilizar o evento olímpico: montagens de vídeo, falsos avisos sobre o risco de terrorismo, falsos artigos de imprensa, fotos de pichações reais ou inventadas, etc.

“Os migrantes clandestinos ameaçam perturbar os Jogos Olímpicos de Paris. As autoridades mostram sua impotência. O festival de vaidade do [presidente francês Emmanuel] Macron vai passar, os problemas dos franceses vão continuar”, afirmou, por exemplo, um artigo falso atribuído ao jornal Le Parisien nas redes sociais, misturando informações, boatos e opiniões.

No início de abril, Macron afirmou que “não tinha dúvidas” de que a Rússia tinha a organização dos Jogos Olímpicos na mira, “incluindo o âmbito da informação”.

“Enquanto conseguem lançar um ataque, eles o fazem. É um ruído de fundo constante”, diz uma fonte de segurança francesa, que especifica que a Rússia não é a mais agressiva em relação aos Jogos Olímpicos, mas sim o Azerbaijão.

A agência francesa de luta contra interferências Viginum revelou uma campanha orquestrada em 2023 por esta antiga república soviética do Cáucaso, que o governo francês denunciou oficialmente.

O objetivo a longo prazo das manipulações estrangeiras é dividir a sociedade para enfraquecer os países ocidentais e minar a confiança do público nas suas instituições. Eles contam com lacunas e questões delicadas para colocar lenha na fogueira.

De acordo com uma pesquisa Ifop realizada nos dias 13 e 14 de fevereiro, 43% dos franceses não confiam na capacidade da França para sediar os Jogos Olímpicos, uma porcentagem muito mais elevada nos extremos do espectro político.

– Peixes, estrelas, mãos –

A interferência envolve também a divulgação de imagens de grafite, uma vez que é “uma técnica para fazer as pessoas acreditarem que as ideias e opiniões pintadas em espaços públicos foram pintadas por artistas locais, dando uma falsa impressão de polêmica”, explicam as empresas de cibersegurança CheckFirst e Reset em um relatório publicado nesta terça-feira e dedicado à operação atribuída à Rússia e denominada “Overload”.

A ação consistiria em solicitar informações falsas aos meios de comunicação para ganhar visibilidade e saturar sua capacidade de trabalho.

Alguns dos grafites são falsos, como o que estabelece um paralelo entre o ataque contra atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e os de Paris, em 2024. Esses grafites nunca foram vistos nos muros da capital francesa, segundo uma fonte de segurança.

A questionada limpeza do rio Sena, onde serão realizadas algumas competições, também é um ponto de ataque recorrente. A imagem de um peixe de três olhos que diz “O Sena está muito limpo!” teria sido pintada nas docas do centro de Paris.

Visível em uma conta russa do Telegram em meados de abril, a imagem foi enviada por e-mail no dia 9 de maio a vários veículos de comunicação europeus pedindo que sua veracidade fosse verificada, segundo a CheckFirst e a Reset, que acreditam que houve manipulação.

Para aumentar a confusão, surgiram grafites autênticos nas paredes da capital alertando sobre a queda de sacadas com o símbolo dos anéis olímpicos.

Segundo o jornal Le Canard enchaîné, a polícia identificou os autores: moldavos. A operação lembra outras ações atribuídas à Rússia, como as Estrelas de David pintadas nas paredes pelos moldavos e as “mãos vermelhas” que búlgaros pintaram no Memorial da Shoah.

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