Joãozinho, um herói da língua

Íamos encontrar o Mr. Johnny no café da manhã, às 8 em ponto na portaria dum hotel-arranha-céus, um desses que existem por toda a parte em Doha, capital do Qatar, uma terra das arábias.

Na hora marcada — na arábias todo o mundo é muito pontual — procurei entre os presentes um rosto a quem assentasse aquela voz que eu tinha conhecido pela internet umas semanas antes, quando acertámos os detalhes da viajem. Mas não encontrei ninguém a quem servisse.

A surpresa chegou, uns minutos mais tarde, quando uma voz inesperada se aproximando disse: Olá senhor Diogo, bom dia e bem-vindo a Doha.

Meu desconcerto aumentou quando percebi que a voz pertencia ao sorrido rasgado no rosto de um homem sem turbantes e sem sotaques.

— Tudo nesta cidade é Plastick Fantastik, senhor Diogo, mas depressa a gente se habitua.

Afinal o mister Johnny era mesmo o Senhor Fernandes, filho e neto de portugas, conhecedor do Eça de Queiroz e de Marquês de Pombal. Um português de gema como muitos dos portugas que há, também aqui no Brasil e por aí espalhados pelo mundo. Só que este tinha uma história incrível para contar.

O senhor Fernandes não é um simples neto de Cabral, daqueles a quem, hoje, a lei portuguesa confere cidadania originária. O senhor Fernandes nascido em Goa, quando a cidade indiana ainda era território português, é o neto primogénito de Custódio Fernandes, um até hoje desconhecido herói em português.

Ele conta a história com um misto de mágoa, incredulidade, orgulho e alegria. Mágoa, porque o seu avô Custódio, morto em 1950 depois de queimar uma bandeira indiana e hastear de novo a das quinas, defendendo a língua e o cristianismo, foi esquecido pelo seu país.

Incredulidade, porque apesar de Portugal nunca ter assumido os feitos do seu avô, manteve o seu assassino — um tal de Mohan Ranade — preso, em Caxias-Lisboa, durante 14 anos, até que o decadente e fraco Estado Novo Português o libertou em 1969, a pedido do Papa Paulo VI. Mas aí ele já era um lutador independentista indiano. Todo o mundo sabe o terrorista de uns é o freedom fighter de muitos outros.

Orgulho, porque o Código Civil de Seabra, que os seus antepassados ajudaram a implementar, que continua a vigorar em Goa 150 anos depois de ter começado a ser aplicado, foi — no que diz respeito ao direito de sucessões — adotado em toda a Índia.

Mas o que hoje deixa Joni Fernandes feliz é poder dizer que Portugal está de novo se convertendo em num país Global, como há muitos anos atrás aconteceu quando os antepassados lusitanos chegaram à terra de Verem, no distrito de Panda, no Estado de Goa, Índia; Onde há 52 anos nasceu “livre e cristão, filho de João Menino e Neto de Custódio Fernandes, um Herói da Língua Portuguesa”.

A língua é sempre a casa da história.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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