Jeito de falar das crianças pode revelar riscos à saúde mental, diz estudo

Pesquisa acompanhou 204 jovens por até seis anos e identificou padrões de linguagem associados à vulnerabilidade para transtornos como ansiedade e depressão

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Foto: Imagem arquivos IstoÉ

A maneira como crianças e pré-adolescentes contam histórias pode oferecer pistas sobre sua saúde mental no futuro. Um estudo publicado na revista científica Nature Mental Health identificou que características sutis da linguagem, como o uso de pronomes, preposições e conjunções, estão associadas à vulnerabilidade para o desenvolvimento de transtornos psicológicos anos mais tarde.

A pesquisa analisou 204 participantes com idades entre 9 e 13 anos e acompanhou sua saúde mental por um período de até seis anos. Com o auxílio de inteligência artificial, os cientistas examinaram não apenas o conteúdo das entrevistas, mas também a forma como os jovens organizavam suas narrativas.

Os resultados sugerem que determinados padrões de linguagem podem fornecer informações relevantes sobre processos cognitivos e emocionais, mesmo quando a criança não consegue expressar diretamente o que sente.

Inteligência artificial identificou padrões sutis da fala

Em vez de procurar somente palavras relacionadas a emoções, como tristeza, medo ou raiva, os pesquisadores analisaram elementos que normalmente passam despercebidos durante uma conversa.

Entre eles estão as chamadas palavras funcionais, como pronomes, preposições e conjunções. Embora sejam utilizadas constantemente, essas expressões ajudam a organizar o pensamento, estabelecer relações entre acontecimentos e indicar como uma pessoa se refere a si mesma e aos outros.

O psiquiatra Thiago Andrade Pedrosa, especialista em infância e adolescência do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita, explica que essas escolhas linguísticas podem refletir processos emocionais pouco conscientes.

Segundo o médico, ao contar uma história, uma pessoa toma diversas decisões sobre como organizar suas ideias, mesmo sem perceber.

Esses padrões podem ser particularmente relevantes na infância, período em que nem sempre existe vocabulário suficiente para descrever experiências emocionais complexas.

Crianças nem sempre conseguem explicar o que sentem

Identificar sofrimento psicológico na infância pode ser um desafio porque crianças e pré-adolescentes nem sempre reconhecem ou conseguem nomear suas emoções.

Por esse motivo, profissionais de saúde mental utilizam diferentes recursos durante a avaliação clínica, incluindo conversas, brincadeiras, desenhos e observação do comportamento.

Perguntar diretamente se uma criança está triste, por exemplo, pode não ser suficiente para compreender toda a experiência emocional que ela está vivendo.

A relação entre linguagem e saúde mental já é considerada em avaliações psiquiátricas. Profissionais observam aspectos como vocabulário, ritmo, quantidade de palavras utilizadas e entonação da fala.

A novidade do estudo está na análise de crianças e adolescentes e no acompanhamento de sua saúde mental ao longo de vários anos.

Violência e exclusão social apareceram entre os fatores de risco

Além das características da linguagem, a pesquisa identificou temas narrativos associados a maior vulnerabilidade psicológica.

Relatos envolvendo violência física, ameaças, conflitos interpessoais intensos e exclusão social estiveram entre os principais fatores relacionados a maior risco de transtornos mentais no futuro.

Segundo Thiago Pedrosa, experiências de violência podem comprometer a sensação de segurança de uma criança.

Já a exclusão social pode afetar o sentimento de pertencimento, elemento importante para o desenvolvimento emocional.

A análise considerou o contexto das histórias, permitindo distinguir referências genéricas a conflitos de relatos envolvendo agressões, ameaças ou rejeição social.

Isso não significa que mencionar uma briga ou utilizar determinada palavra seja suficiente para indicar um transtorno psicológico.

Os resultados precisam ser interpretados em conjunto com outros aspectos da vida da criança.

Esportes, escola e atividades coletivas foram associados à proteção

O estudo também identificou elementos narrativos relacionados a menor vulnerabilidade para problemas de saúde mental.

Referências a esportes, dança, atividades escolares, clubes, programas extracurriculares e contato com profissionais de saúde mental apareceram com maior frequência em histórias associadas a menor risco futuro.

Essas experiências podem representar oportunidades de convivência, apoio de adultos de referência e participação em ambientes estruturados.

Atividades coletivas também podem favorecer o desenvolvimento de vínculos sociais e proporcionar uma rotina mais previsível.

Entretanto, os pesquisadores não demonstraram que a simples participação nessas atividades seja capaz de impedir o surgimento de ansiedade, depressão ou outros transtornos.

A associação observada sugere que esses elementos podem estar relacionados a fatores de proteção, sem estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

Pesquisa não permite prever quem terá depressão ou ansiedade

Apesar dos resultados, especialistas alertam que a linguagem não deve ser utilizada isoladamente para diagnosticar problemas de saúde mental ou prever o futuro psicológico de uma criança.

O desenvolvimento de transtornos depende de diversos fatores, incluindo experiências pessoais, ambiente familiar, condições sociais, situações estressantes e acesso a redes de apoio.

Uma característica identificada na fala durante a infância não determina que a pessoa terá depressão, ansiedade ou qualquer outra condição psiquiátrica anos depois.

A pesquisa amplia o conhecimento sobre possíveis marcadores comportamentais de vulnerabilidade, mas não substitui avaliações realizadas por profissionais de saúde.

Quais sinais os pais devem observar?

Para famílias e responsáveis, a principal orientação é prestar atenção a mudanças persistentes no comportamento habitual de crianças e adolescentes.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • Isolamento social e afastamento de amigos ou familiares.
  • Perda de interesse por brincadeiras e atividades antes apreciadas.
  • Queda no rendimento escolar.
  • Alterações persistentes no sono ou na alimentação.
  • Irritabilidade intensa ou mudanças importantes de humor.
  • Expressões frequentes de desesperança.

Esses comportamentos não significam necessariamente a existência de um transtorno mental, mas podem indicar a necessidade de uma conversa cuidadosa ou de avaliação profissional.

O psiquiatra Thiago Pedrosa destaca que, mais importante do que procurar palavras específicas na fala dos filhos, é criar um ambiente no qual eles se sintam seguros para compartilhar suas experiências.

O estudo reforça que a linguagem pode ajudar a compreender aspectos do desenvolvimento emocional, mas o acolhimento, a observação contínua e o acesso ao cuidado especializado continuam sendo fundamentais para a proteção da saúde mental na infância.

Da IstoÉ e Agência Einstein