Cultura

Jaroussky, voz com técnica e expressão

Philippe Jaroussky era um jovem aspirante a violinista ou pianista – ele ainda não havia conseguido decidir – quando, ao lado de colegas de conservatório, resolveu assistir a um concerto em uma Igreja em Paris. A atração era o cantor Fabrice di Falco, nascido na Martinica, que no final dos anos 1990 provocava sensação nos palcos franceses, não apenas pela técnica e pela musicalidade, mas pelo seu registro vocal: um contratenor, ou seja, um homem cuja voz se assemelha à de uma soprano ou mezzo-soprano. “Eu me lembro ainda hoje do choque provocado pelo descompasso entre seu aspecto físico e aquela voz aguda. E durante a apresentação, foi crescendo em mim a sensação de que era aquilo que gostaria de fazer”, lembra Jaroussky que, sem hesitar, largou o piano e o violino.

Jaroussky apresenta-se nesta segunda, 24, e terça-feira, 25, na Sala São Paulo, pela temporada da Cultura Artística, ao lado dos músicos do conjunto Le concert de la loge. A escolha pelo canto não significou um caminho particularmente fácil – ouviu da professora de di Falco, a quem procurou, por exemplo, que deveria voltar aos instrumentos aos quais já se dedicava. Mas foi acertada: é hoje uma das estrelas do canto lírico internacional, um dos responsáveis por ampliar o mercado para contratenores e, nesse processo, ajudar a fazer do período barroco um sucesso mercadológico difícil de ser previsto.

“Eu acho sinceramente que a ideia de passar horas estudando, debruçado sobre um instrumento, nunca me agradou. Havia sempre algo de superficial, e esse, claro, era um sentimento extremamente pessoal, de forma alguma gostaria de generalizá-lo. A voz, no entanto, é um instrumento interno, está dentro do nosso corpo. A técnica, nesse sentido, tem a ver com as nossas sensações, com a maneira como nos sentimos. A técnica, no canto, não pode existir longe da expressão. Foi então que encontrei de fato o sentido de minha relação com a música”, conta Jaroussky.

A relação de Jaroussky com a música, e com o público, não parece se limitar, no entanto, à união entre técnica e sentimento. Há também o carisma, algo difícil de definir, mas facilmente verificável em alguns números. Em um momento da indústria fonográfica que está bastante distante dos dias em que estrelas do canto gravavam com regularidade, o contratenor francês tem em seu currículo mais de trinta gravações – entre CDs e DVDs – em menos de vinte anos de carreira. Além disso, vídeos seus no YouTube passam com facilidade das quatro milhões de visualizações, o que para um artista da ópera não é feito pequeno – ainda mais um que fez do repertório barroco, tido (nem sempre com razão) como altamente especializado, o seu foco.

O repertório, por sinal, seria o item seguinte na tentativa de explicar o espaço que Jaroussky passou a ocupar no cenário internacional. “Como violinista, meu repertório era o da música romântica. O barroco era uma novidade muito grande”, ele conta. Uma novidade que ele aprendeu sobre o palco – afinal, do início dos estudos de canto até a estreia profissional foram apenas dois anos, “tudo muito rápido”. “Meu corpo ainda não estava pronto. Mas com o tempo, não apenas eu conheci melhor essa música como ela me ajudou a encontrar a minha expressão pessoal”, ele explica. Ao lado do repertório mais conhecido, no entanto, Jaroussky tem resgatado autores e obras menos celebradas. “Meu interesse pelo repertório tem a ver, claro, com o que minha voz pede, mas também com uma curiosidade, um desejo de expandir limites. Mesmo dentro do barroco, o século 17 costuma ser a prioridade. Mas se voltarmos ao século 16, descobrimos um repertório que carrega elementos estimulantes”.

Exemplo disso é o seu novo disco, La storia di Orfeo, com seleções de obras que tem o personagem como tema (leia mais abaixo), ou então o repertório das duas apresentações que ele faz em São Paulo, dedicadas unicamente a trechos de óperas de Händel – Jaroussky, no entanto, escolheu títulos menos óbvios, como Radamisto, Flavio, o Rei dos Lombardos, Siroe, Rei da Pérsia ou Giustino. “Há em Händel algo que se sente de imediato, como em Mozart: uma paixão pela voz, pelo cantor. Ainda jovem, ele visitou a Itália e tenho certeza de que o fascínio que deve ter sentido pela expressão vocal italiana o marcou de forma definitiva, dialogando com o lado germânico, orquestral. É uma inspiração que parece não ter limites.”

Inspiração, repertório, técnica e expressão são temas que Jaroussky entende não apenas dentro do universo da música – mas também no diálogo com a sociedade. Foi daí que nasceu a Academia Musical Philippe Jaroussky, criada por ele nos arredores de Paris. “A ideia é ser um ponto de encontro de talentos, visando a excelência artística, sempre, mas compreendendo que o fazer musical é uma oportunidade também de inserção social e profissional”, ele diz.

“Eu sei o quanto é importante ter alguém te orientando, te ajudando a encontrar caminhos. E isso não se restringe apenas à música.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.