Até o próximo dia 1º de abril estará aberta a janela que permite a transferência de parlamentares para outros partidos, sem punição pelo TSE. Os deputados têm menos de um mês para sacramentar as traições que já vinham fazendo há meses, sem culpa. E também terão tempo suficiente para barganhar com os líderes dos partidos emergentes, ou com mais chances de vitória em outubro, para exercer o clássico papel de se dar bem sempre. O movimento mais evidente nesse sentido se dá no PL, partido de Bolsonaro e presidido pelo mensaleiro Valdemar Costa Neto. Com 42 deputados, a legenda deve chegar a 72, tornando-se o maior da Câmara. Para atrair novos integrantes, vale tudo, de empregos públicos a verbas do Orçamento e benesses na divisão do fundo partidário e eleitoral.

Perde

Nesse jogo, o União Brasil deve ser o maior perdedor. Dos atuais 78, deve cair para 55 (a maioria vai para o PL, como os bolsonaristas Bia Kicis, Carla Zambelli e o filho Eduardo, o 03). Outros perdem menos, como o MDB (de onde podem sair quatro deputados) e o PSDB, que pode perder oito. O PSB corre o risco de ter a debandada de 14 dos atuais 30.

Ganha

Além do PL, outro partido da base aliada de Bolsonaro deve crescer um pouco: o PP do ministro Ciro Nogueira pode ganhar mais sete parlamentares e chegar a 50. Esse também pode ser o número a que deve chegar o PSD de Kassab, que hoje tem 36 e deve inchar com o possível acordo com Lula. O PT, com 54, deve ficar estacionado. Republicanos idem.

Poderoso chefão

Janela da barganha: deputados são assediados para transformar o PL no maior partido do país
Itamar Aguiar

Por deter quase R$ 1 bilhão do fundo eleitoral, o União Brasil é a noiva da vez. E quem maneja a grana é Antônio de Rueda, vice-presidente da legenda (sua irmã Maria Emília é a tesoureira). Por isso, tem sido o interlocutor dos partidos que desejam formar uma federação, como João Doria (PSDB) e Baleia Rossi (MDB). Os três juntos, mais o Cidadania, que já aderiu, teriam R$ 1,5 bilhão para a campanha.

Retrato falado

Janela da barganha: deputados são assediados para transformar o PL no maior partido do país
“Elas (mulheres ucranianas) são fáceis porque são pobres” (Crédito:Divulgação)

Deputado do Podemos-SP, o famigerado Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, provocou uma grande crise na sigla, que tem o ex-juiz Sergio Moro como candidato a presidente e que não o deseja mais em seu palanque. O deputado foi à Ucrânia na semana passada e lá gravou áudios escandalosos com ofensas sexistas às mulheres ucranianas. Deve ser expulso da legenda, que prepara ações no Conselho de Ética. Ele queria ser candidato ao governo  e São Paulo. Desistiu.

Governo infértil

Que o governo Bolsonaro é estéril no campo das iniciativas nas relações exteriores já é sabido, mas o vexame da viagem à Rússia uma semana antes de Putin dar início à invasão da Ucrânia não para de aumentar. O brasileiro disse ter ido a Moscou tratar da compra de fertilizantes para o plantio das safras brasileiras, mas, uma semana depois dos combates, Putin determinou a suspensão das exportações russas do produto, dando uma banana para Bolsonaro. Ou seja, como a Rússia produz 30% dos fertilizantes usados pelos agricultores nacionais, teremos que voltar aos tempos da agropecuária rudimentar, quando se usava esterco de animais como adubo para as plantas.

Sem estoques

Pior: os estoques do Brasil são suficientes apenas até setembro. Mesmo que a guerra termine já, os preços da Ucrânia, Rússia e Belarus, os maiores produtores, devem subir até 20%. O Brasil já exportou fertilizantes no passado e hoje é grande importador. A alta tributação desestimula a produção local.

Contra fake news

Como as notícias falsas devem tomar conta das eleições e o TSE sinaliza que será rigoroso com os candidatos que fizerem jogo sujo, os partidos reforçam suas assessorias jurídicas. O PSDB de João Doria escalou os advogados Alexandre Jobim e Marcio Pestana, enquanto Sergio Moro acertou com Gustavo Guedes e Ciro fechou com Walber de Moura Agra.

O TSE está de olho

Embora petistas e bolsonaristas sejam useiros e vezeiros em agressões na Internet, as duas campanhas também se preparam para enfrentar a batalha jurídica que deverá ser dura. O PT contará com o ex-ministro Eugênio Aragão, além de Cristiano Zanin, pau para toda obra. Bolsonaro deverá ser assessorado por Tarcísio Vieira, ex-ministro do TSE.

Os gastos milionários de Lula

Janela da barganha: deputados são assediados para transformar o PL no maior partido do país
Marlene Bergamo

O uso do cachimbo faz a boca torta. De tanto usar indevidamente o fundo partidário, o PT lançou mão de R$ 1,5 milhão desses recursos públicos para pagar os advogados do escritório de Cristiano Zanin, que defenderam Lula na Lava Jato neste ano. No total, o PT gastou R$ 20,5 milhões com a campanha de Lula, mas o Tribunal Superior Eleitoral indeferiu a prestação de contas.

Nota da assessoria do ex-presidente Lula

Ao contrário do que foi publicado pela revista Isto É, a defesa do ex-presidente Lula não foi paga com recursos do fundo partidário. A defesa do ex-presidente foi paga por ele mesmo e parcialmente pelo PT, mas com recursos próprios do partido, originários de contribuições dos filiados, não de fundo partidário.

Toma lá dá cá

Janela da barganha: deputados são assediados para transformar o PL no maior partido do país
Deputada Carla Morando, do PSDB-SP (Crédito:Divulgação)

O que achou dos áudios do seu colega Arthur do Val sobre as mulheres da Ucrânia?
Senti nojo ao ouvir o áudio. É inadmissível esse tipo de comportamento. As mulheres ucranianas merecem respeito. O deputado deve ser punido severamente.

Como punir esses homens infratores?
O governador João Doria acaba de lançar o programa “Violência Nunca Mais” para punir judicialmente qualquer forma de discriminação contra a mulher no serviço público estadual. A medida deveria servir para todo o Brasil.

Acha que é grande o machismo na política?
Somos a maioria da população e temos que conquistar mais espaços públicos. Infelizmente, a política ainda é um ambiente machista. Na Alesp, dos 94 deputados, só 19 são mulheres.

Rápidas

* A sexta-feira, 4, foi trágica para Moro. Em visita à Cocamar (Maringá), pela manhã, uma caldeira explodiu e dois soldadores morreram, encerrando o evento. À tarde, Arthur do Val (Podemos) gravou mensagens obscenas sobre as mulheres ucranianas, terminando a parceria.

* Em meio à esculhambação da República, o advogado Rodrigo Roca, que defendeu o senador Flávio Bolsonaro no escândalo das rachadinhas, está assumindo a Secretaria Nacional do Consumidor, do Ministério da Justiça.

* Arthur Lira, presidente da Câmara, não se emenda. Quer se manter no posto no ano que vem. Assim, ficará com Bolsonaro até outubro. Se ele se reeleger, permanece ao seu lado. Caso contrário, se bandeia para o colo de Lula.

* O Centrão ficará com quem ganhar as eleições, quer seja Lula, Bolsonaro ou alguém da terceira via. No passado, ficou com Lula e acabou no mensalão e petrolão. Agora está com Bolsonaro e fez o orçamento secreto.