Cultura

Jack, o demolidor

Ao menos dois endereços lembraram dele. Para festejar os 100 anos de Jackson, que seriam completados neste sábado, 31, o Sesc Santana reservou três noites, de sexta a domingo, em uma série chamada Toada Improvisada: Jackson do Pandeiro 100 anos. A união inédita para esse propósito terá o violinista francês Nicolas Krassik, a cantora espanhola Irene Atienza e os brasileiros Junio Barreto, Silvério Pessoa, Targino Gondim e Mariana Aydar, com releituras dos cocos, rojões, sambas e frevos imortalizados pelo chamado Rei do Ritmo.

Apenas nesta sexta, 30, na Casa Natura, o cantor Geraldo Azevedo comemora os 100 anos do nascimento do compositor e cantor paraibano Jackson do Pandeiro, um dos principais responsáveis por popularizar canções nordestinas no País. Ele vai mostrar clássicos de seu repertório, como Sabor Colorido (Geraldo Azevedo e Capinan), Tempero do Forró (Geraldo Azevedo e Geraldo Amaral), Moça Bonita e Chorando e Cantando (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo), além de releituras para as obras de Jackson (1919-1982) e de artistas que orbitam o mesmo universo, como Luiz Gonzaga e Dominguinhos. A noite terá ainda show de abertura, às 21h, com o sanfoneiro Enok Virgulino, que irá tocar músicas de Jackson do Pandeiro, clássicos do forró e canções de seu novo disco. De Jackson, não devem faltar Um a Um, Canto da Ema, Chiclete com Banana e Sebastiana, em um desfile de ritmos que passavam pelo baião, mas não se restringiam a ele. Algo como rojão, samba-coco e marchinhas de carnaval de sucesso sobretudo nos anos 1950.

Jackson desde criança. O sanfoneiro Enok Virgulino, que faz a abertura, já se tornou uma referência em seus mais de 40 anos de estrada. Ele esteve, por mais de 38 anos, junto ao Trio Virgulino, um dos grupos mais importantes, responsáveis no resgate do forró pé de serra do começo dos anos 90. Atualmente, segue em carreira solo e tem ainda quente o disco Forró Bom É Aqui, de 2018, que contou com a participação de Elba Ramalho e Flávio José.

“Desde criança ouço Jackson do Pandeiro, que faz parte da história da música nordestina. Éramos criados ao som de Jackson. Aliás, tanto ele quanto Luiz Gonzaga fazem parte da minha história, desde sempre. Jackson só vim a conhecer pessoalmente na década de 1970, já no Rio de Janeiro, junto com Alceu Valença, quando fomos divulgar nosso primeiro disco, em duo, em uma rádio. Ele também estava lá, acabamos ficando amigos e, logo depois, fizemos o convite para que ele defendesse, comigo e com Alceu, a música Papagaio do Futuro no Festival da Canção. Foi meu primeiro show com ele e, depois disso, vieram outros tantos”, recorda Geraldo Azevedo.

Pandeiro atômico

Aquilo foi algo que o Brasil não conhecia. Um rapaz de seus 30 e poucos anos chegando assim das Alagoas como um susto, riscado no asfalto de Alagoa Grande tal qual rojão, algo com uma força cool invertida na persona matuta daquele homenzinho miúdo de chapéu malandro que nem Luiz Gonzaga, produzido com genialidade e estratégia em sua imagem de vaqueiro para representar um povo inteiro, conseguia entender. Seu nome era José, José Gomes Filho, que virou José Jack e, depois, Jack do Pandeiro para, então, ser Jackson do Pandeiro.

Jackson nasceu há cem anos, completados neste sábado, 31. Sua passagem por aqui, nem sempre lembrada com a mesma reverência dispensada ao congênere Luiz Gonzaga, tem mais de um motivo para ser lembrada. Se Gonzaga vinha com a face do brasileiro caracterizado do sertão, universalizando uma cultura regional e colocando o Nordeste no mapa, Jackson era o tiozinho do bodega que havia em todas as esquinas no País, regionalizando o mundo e trazendo o mapa ao Nordeste. Sem referências nem ídolos, não seguiu os passos de Gonzaga, o que poderia ter feito à época, preferindo fincar os pés no coco que viu sua mãe cantar desde a infância. “Cheguei à conclusão de que tudo é coco. Se não é coco, é samba”, falou em 1982, à TV Cultura. Antes de ser do pandeiro, Jackson era do fundo do barro do chão cantado por Gilberto Gil.

A força de Gonzagão decretou à própria revelia do artista uma monarquia absolutista que não admitia mais de um rei e deixaria um único herdeiro, Dominguinhos. Assim, o Rei do Baião ficaria mais forte do que o Rei do Ritmo e a pergunta é: seria Jackson maior sem a onipresença de Gonzaga? “Não tem essa coisa de Jackson e Luiz Gonzaga. Até porque Gonzaga estava desde 1948 na cena. Mas Jackson chegou como um fenômeno. Nunca vi nada parecido. Ele chega ao Rio e vence o preconceito dos críticos elitistas que o aceitam como se fosse um jazzista, uma espécie de Charlie Parker da Paraíba”, diz o jornalista e escritor pernambucano José Teles.

O cantor Lenine, responsável pelo terceiro nascimento de Jackson em 1999, quando lançou Jack Soul Brasileiro (a segunda havia sido em 1972, com Gil gravando Chiclete com Banana), faz um paralelo dos dois. “Acho que Luiz Gonzaga talvez esteja mais fresco na memória das pessoas porque também teve aquela grande redescoberta pelo filho (Gonzaguinha), que gerou uma turnê pelo Brasil. Mas ambos tiveram um determinado acaso em suas carreiras para depois serem redescobertos. Acho que a gente que trabalha com informação tem que reverberar a importância desses dois.”

Outra autoridade no assunto é Geraldo Azevedo, que faz nesta sexta, 30, na Casa Natura, um espetáculo com o repertório do paraibano chamado Arraiá do Geraldo Azevedo – Especial Jackson do Pandeiro. Ele vê Jackson ritmicamente ainda maior do que o contemporâneo. “Talvez Gonzaga seja mais popular, mas Jackson tinha mais diversidade de ritmos nas divisões. Até João Gilberto foi influenciado, se levarmos em conta a divisão do canto. Não à toa, Jackson ganhou a alcunha de Rei do Ritmo.”

A divisão rítmica, o ritmo. Muitos o apontam como o maior legado de Jackson, depois da postura de respeito que ritmos novos do Nordeste ganham com a gravação de Sebastiana. Teles diz que Jackson cantava tudo como se fosse frevo. “É a minha teoria.” Lenine só vê uma comparação com os estilhaços rítmicos verbais, feitos com um impulso frenético e arrebatador. “Ele inventou uma maneira de dividir com a voz, ao interpretar as canções, que não teve paralelo. Talvez Miltinho tenha chegado mais perto nessa característica.”

Forró em Limoeiro, de Edgar Ferreira, em 1953; O Canto da Ema, de João do Vale, Ayres Viana e Alventino Cavalcanti, em 1956; Chiclete com Banana, da parceira de anos Almira Castilho e Gordurinha, em 1959. Com um poder de comunicação agigantado pela imagem lépida e peralta, um humor que se fazia sem rir e uma presença de cena horizontalizada ao nível de sua plateia, Jackson deu as cores que faltavam a uma terra que ajudou a descobrir.

ARRAIÁ DO GERALDO

AZEVEDO – ESPECIAL

JACKSON DO PANDEIRO

Natura Musical. R. Artur de Azevedo, 2.134. 6ª (30), 22h. R$ 50 a R$ 220

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.