Itamar Vieira Junior: “Brasileiro gosta de ler, mas não tem acesso”

Escritor critica falta de bibliotecas e ressalta desigualdade de acesso que impede população de ler mais livros

Renato Parada
FENÔMENO Itamar Vieira Junior: novo livro sai com 37 mil cópias já compradas pelo público Foto: Renato Parada

O escritor Itamar Vieira Junior refutou a afirmação de que o brasileiro não gosta de ler, durante sua participação na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô). Em evento que lotou o Largo do Pelourinho na noite da última segunda-feira (7), o autor destacou que, na verdade, “brasileiro gosta de ler”, mas enfrenta significativas dificuldades de acesso aos livros.

O escritor Itamar Vieira Junior defende que o brasileiro gosta de ler, mas encontra grandes dificuldades no acesso a livros e bibliotecas.

  • O autor critica a desigualdade e a escassez de bibliotecas públicas, relembrando sua própria experiência na juventude.
  • Pesquisas recentes revelam uma recuperação no mercado editorial, mas também indicam a perda de milhões de leitores no país.

“Posso dizer para vocês que, em toda parte do Brasil, a quantidade de pessoas interessadas em livros e em leitura é imensa. Isso é um bom retrato para aqueles que dizem: “Ah, o brasileiro não gosta de ler”. Isso não é verdade. O que existe é desigualdade de acesso”, afirmou o escritor, que foi aplaudido pelo público presente.

Autor da Trilogia da Terra, que começou com o sucesso Torto Arado, passou por Salvar o Fogo e agora é concluída com seu atual livro Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior disse que frequentava muitas bibliotecas públicas de Salvador em sua juventude. Ele ressaltou a necessidade de ampliar o número de bibliotecas no país para aumentar o acesso das pessoas aos livros.

Acesso à leitura: desafio para o Brasil

“É um país profundamente desigual e o livro não é barato. E às vezes não há uma biblioteca pública no bairro onde a gente mora lá na periferia”, criticou. “Se não houvesse essas bibliotecas, certamente eu teria perdido muito das leituras que eu fiz ali na minha adolescência, no começo da vida adulta. Mas o certo, o ideal, era que tivesse uma biblioteca em cada bairro”, ressaltou o escritor.

Em 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, apontou que 47% da população com cinco anos ou mais se declarou leitora no Brasil, o equivalente a cerca de 93,4 milhões de pessoas. O levantamento mostrou também que 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores e que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos.

Ao mesmo tempo, o mercado editorial tem visto sinais de recuperação. O Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com a Nielsen BookData, apontou que 18% da população adulta comprou ao menos um livro em 2025, o que representou alta de dois pontos percentuais em relação a 2024. Isso significou o equivalente a cerca de três milhões de novos consumidores.

Como ampliar o número de leitores no país?

Segundo Itamar Vieira Junior, para aumentar o número de leitores no país é preciso criar políticas públicas que garantam o acesso das pessoas aos livros. Um desses exemplos, citou, é o MEC Livros, uma plataforma pública digital que reúne e disponibiliza gratuitamente obras literárias em formato digital, por meio de empréstimo. Um de seus livros, Torto Arado, é inclusive o livro mais emprestado dessa plataforma.

“Esse ano veio um projeto muito bonito que é o MEC Livros. E aí não importa se você está lá numa comunidade isolada no Amazonas ou se você está numa grande cidade como Salvador ou São Paulo, mas você tem o livro ali [ao alcance, de forma gratuita]. Esse é um instrumento que veio para reduzir e mitigar essa desigualdade de acesso que existe. Mas que o brasileiro gosta de história e gosta de ler, nós sabemos. Gosta muito, desde sempre”, afirmou Itamar Vieira Junior.