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Italianos se mobilizam por justiça para vítimas de pandemia

SÃO PAULO, 23 MAI (ANSA) – Por Lucas Rizzi – Enquanto a Itália dá os primeiros passos para tentar voltar à normalidade após mais de dois meses de quarentena, um grupo que já reúne cerca de 54 mil pessoas está se organizando para buscar justiça para familiares mortos na pandemia do novo coronavírus.   

A ideia partiu de Luca Fusco, morador de Bergamo que perdeu o pai na pandemia e criou, no fim de março, uma página no Facebook chamada “Noi Denunceremo” (“Nós Denunciaremos”). Em cerca de dois meses, o grupo já reúne dezenas de depoimentos sobre perdas provocadas pelo vírus Sars-CoV-2.   

Em entrevista por telefone, Fusco conta que não esperava tanta repercussão, mas diz que o grande número de adesões mostra a importância da iniciativa. “O principal objetivo desse grupo é conhecer a verdade do que aconteceu, e se tiver havido responsabilidade de alguém, esse alguém deve pagar”, afirma.   

Seu pai, que motivou a criação da página, mal teve tempo de combater a doença. Internado em uma clínica privada com pneumonia, ele não respondia à medicação e morreu dois dias depois de um exame ter confirmado a infecção pelo novo coronavírus.   

Com as filas em cemitérios e crematórios de Bergamo, o corpo foi enviado para longe da cidade, e durante 20 dias a família sequer soube de seu paradeiro. “Depois, finalmente conseguimos recuperar a urna com as cinzas”, diz Fusco.   

Luto – Diego Federici, italiano de 35 anos que vive em Martinengo, na província de Bergamo, conta que decidiu entrar no grupo para fazer a Itália e o mundo conhecerem as “pessoas fantásticas” que eram seus pais, ambos mortos pela Covid-19.   

Segundo Federici, os dois eram saudáveis e não tinham nenhuma comorbidade, mas não conseguiram vencer o novo coronavírus. “Não tinham doenças cardíacas, não eram diabéticos, não tinham nada.   

Saudáveis. Duas pessoas de 70 anos, saudáveis”, afirma.   

A mãe, Ida Mattoni, teve uma grave crise respiratória em 18 de março e foi levada de ambulância a um hospital, onde ficou internada por uma semana até falecer, no dia 25 do mesmo mês.   

Federici diz que recebia poucas notícias sobre o estado de sua mãe, até que, três dias antes do óbito, os médicos informaram que iriam sedá-la.   

“O anestesista havia decidido não adotar um tratamento intensivo ou semi-intensivo porque ela não resistiria. Começaram a dar morfina, até que ela não resistiu mais”, relata.   

O pai, Renato Federici, foi internado no mesmo dia que sua esposa, porém apresentava apenas um pouco de febre e subira na ambulância com as próprias pernas. Renato, no entanto, morreria em 21 de março, quatro dias antes de Ida.   

“Na noite antes de morrer, tomou banho sozinho, comeu sozinho, era autônomo, mas nos ligaram no sábado [21] de manhã dizendo que estava morto”, relata Federici. Tanto Renato quanto Ida só tiveram a infecção pelo Sars-CoV-2 confirmada no hospital.   

Federici, apesar de ter perdido os pais para o novo coronavírus, não foi submetido a nenhum exame. “Todos erraram, nunca me disseram a verdade, até hoje não me dizem a verdade. Eles merecem justiça, eu devo isso a eles. Se eu tivesse morrido, eles teriam movido montanhas, então é justo que eu faça o mesmo”, acrescenta.   

Denúncias – O grupo Noi Denunceremo montou um comitê responsável por coletar denúncias, e algumas delas já foram levadas aos Ministérios Públicos de províncias como Bergamo, Milão, Brescia, Gênova e Turim.   

Entre os alvos estão órgãos públicos acusados de ter subestimado a crise sanitária em seu início. “Eles pensaram que era uma coisa muito mais administrável, mas não conseguiram contê-la.   

Por isso, tivemos uma corrida aos hospitais, que não conseguiram dar conta do número de pessoas. Tivemos um mês em que as pessoas morriam no pronto-socorro”, relata Fusco.   

No fim de fevereiro, quando surgiram os primeiros casos de transmissão interna na Itália, as principais lideranças políticas do país deram declarações que seriam derrubadas pelos fatos poucos dias depois. O primeiro-ministro Giuseppe Conte chegou a dizer que a vida precisava “continuar”, e o governador da Lombardia, Attilio Fontana, afirmou que a Covid-19 era “pouco mais que uma gripe normal”.   

Já o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, virou exemplo no mundo inteiro ao apoiar uma campanha defendendo que a cidade não podia parar e depois pedir desculpas. No auge da crise, hospitais da região da Lombardia ficaram à beira do colapso, e caminhões militares foram enviados para remover corpos que aguardavam sepultamento ou cremação em Bergamo.   

Esperança – Processos ligados a outras tragédias recentes na Itália, como o terremoto de Amatrice, em 2016, e a avalanche no Hotel Rigopiano, em 2017, caminham a passos lentos na Justiça, e Fusco admite sentimentos conflitantes sobre as possibilidades de sucesso das denúncias relativas à pandemia.   

Ao mesmo tempo em que sente uma “grande esperança” de ir até o fim, diz ter uma “razoável certeza” de que isso não acontecerá.   

“Chegará um momento em que as responsabilidades estarão muito no alto”, prevê. Ele ressalta, no entanto, que o objetivo não é processar médicos ou operadores sanitários. Segundo Fusco, esses profissionais são tão vítimas como aqueles que morreram, já que se depararam com uma situação “maluca” para a qual não haviam sido preparados. “Ninguém lhes havia dito o que era, eles não tinham os instrumentos para intervir, leitos livres, máscaras, luvas, remédios”, acrescenta. Desde o início da pandemia, o novo coronavírus já matou mais de 160 médicos e cerca de 40 enfermeiros na Itália.   

O país inteiro contabiliza aproximadamente 230 mil casos e mais de 32 mil óbitos, de acordo com a Defesa Civil. (ANSA)