ROMA, 23 MAR (ANSA) – Os eleitores da Itália rejeitaram uma reforma constitucional sobre o sistema judiciário e impuseram uma dura derrota à premiê de direita Giorgia Meloni, que contava com a aprovação popular de uma das bandeiras de seu programa de governo para chegar fortalecida às eleições previstas para o ano que vem.
Com mais de 70% das urnas apuradas, o “não” aparece com 54,2% dos votos, vantagem que não pode mais ser superada pelo “sim”, com 45,8%.
O resultado chega após Meloni e ministros terem se dedicado pessoalmente à campanha eleitoral, com a premiê marcando presença constante na mídia ? inclusive no podcast do popular rapper Fedez ? para tentar mobilizar o eleitorado em prol do “sim”.
A afluência de fato foi grande para os padrões italianos (58,9%), porém registrou números mais altos em regiões tradicionalmente de esquerda, como Emilia-Romagna (66,7%) e Toscana (66,3%).
A proposta promovia mudanças significativas na magistratura italiana, como a separação das carreiras de juízes e promotores, impedindo a troca de funções; a criação de um tribunal superior para disciplinar membros do Judiciário; a divisão do Conselho Superior da Magistratura (CSM), órgão de autogoverno da categoria, em duas entidades; e a alteração na forma de eleição dos membros do CSM, que passaria a ser feita por sorteio.
O governo alegava que a reforma, bandeira do finado ex-premiê Silvio Berlusconi, que dizia ser alvo de perseguições de magistrados, modernizaria a Justiça e evitaria que o trabalho de quem julga fosse contaminado pelo de quem acusa, porém não conseguiu convencer o eleitorado em uma votação que, para muitos, foi uma espécie de avaliação do próprio Executivo.
Segundo pesquisa do instituto YouTrend, entre os eleitores do “não”, 31% expressaram o desejo de dar um voto de oposição a Meloni, que, no comando de uma rara coalizão estável na Itália, assegurou inúmeras vezes que não entregará o cargo em caso de derrota.
O resultado do referendo foi recebido aos versos da música antifascista “Bella Ciao” no escritório da Associação Nacional de Magistrados (ANM) no Tribunal de Nápoles, enquanto manifestantes de esquerda em Milão pediram a renúncia da premiê.
A oposição acusava o Executivo de tentar aumentar o controle sobre o Judiciário, sobretudo com as mudanças no CSM e a criação de um tribunal disciplinar, e de não abordar problemas estruturais da Justiça, como o prazo dos processos e a superlotação carcerária.
“Conseguimos! Viva a Constituição”, escreveu no X o ex-premiê e líder do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), Giuseppe Conte, que encabeça o chamado “campo largo” de oposição com o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda. (ANSA).