Em maio de 1976, com a ditadura militar vigente, chegava às bancas uma nova publicação, com uma capa de tema ousado: “A tentação totalitária”, um ensaio do filósofo e jornalista francês Jean-François Revel, um ex-socialista que criticava o socialismo. Também havia chamadas para a atriz Sylvia Bandeira (Falkenburg, na época), o apresentador e empresário Silvio Santos, o escritor, desenhista e humorista Millôr Fernandes e para uma reportagem sobre defesa do consumidor. Nascia desse modo, com apreço à “verdade factual” e “certa graça” no estilo, a revista IstoÉ, como ressaltado na carta do leitor que inaugurou a edição, assinada pelo jornalista Mino Carta, primeiro diretor de redação e um dos nomes mais influentes da imprensa brasileira, morto em setembro do ano passado.

Primeira capa impressa da revista IstoÉ
Ao completar cinco décadas em 2026, IstoÉ não apenas celebra sua longevidade, mas confirma sua essência: acompanhar, reportar e analisar os acontecimentos mais marcantes da história do Brasil. Sobretudo em um tempo em que cresce a desinformação, multiplicada e compartilhada pelas vias digitais. Desde sua primeira edição, a marca IstoÉ se posiciona como uma sentinela da democracia, mantendo seu propósito firme desde o período em que surgiu, sob as sombras do autoritarismo, sem esquecer das crises econômicas que afligiram o país ao longo deste meio século.
No Brasil do regime militar, a revista, que nasceu mensal e depois se tornou semanal, clamava pelo fim do totalitarismo e pelo retorno ao Estado de Direito. As primeiras reuniões de pauta – quando os jornalistas discutem as reportagens da edição – mais se pareciam a comícios pela liberdade. No cenário político, figuras como o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso debatiam os rumos da nação. Foi nesse espírito que a revista revelou ao país, em 1978, um irrequieto líder metalúrgico do ABC: Luiz Inácio Lula da Silva. Foi a primeira vez que ele estampou uma capa de alcance nacional, um marco que ajudaria a cristalizar o debate democrático brasileiro.
O jornalismo independente da publicação foi determinante para o afastamento de dois presidentes envolvidos em episódios nebulosos. Em julho de 1992, a histórica entrevista exclusiva com o motorista Eriberto França revelou as conexões financeiras entre o empresário PC Farias (que faleceu em junho de 1996) e a família de Fernando Collor. O impacto foi imediato: as revelações sustentaram a CPI que levaria à queda do presidente. Vinte e quatro anos depois, a reportagem “Delcídio Conta Tudo” expôs o teor explosivo da delação do senador Delcídio do Amaral, o que tornou o impeachment de Dilma Rousseff um processo irreversível.

Nestes 50 anos, IstoÉ escancarou fraudes que maculavam a imagem das instituições. Foi pioneira ao denunciar o escândalo da “Pasta Rosa”, em 1995, exibindo documentos de caixa 2 em campanhas eleitorais. Também revelou, em primeira mão, a fraude no painel eletrônico do Senado, episódio que resultou na renúncia de nomes poderosos como Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda.
A revista nunca se furtou a investigar os bastidores da economia. Em 1993, a denúncia das relações obscuras entre o então ministro Elizeu Rezende e empreiteiras levou à sua queda, abrindo espaço para a ascensão de Fernando Henrique Cardoso ao ministério da Fazenda e o consequente lançamento do Plano Real.
Inovação e o olhar para o comportamento
A vocação da IstoÉ sempre foi além da política. Inovadora, a revista foi a primeira semanal de informação a dedicar amplos espaços para cultura, ciência e comportamento, transformando o mercado editorial brasileiro. Deu origem a novas publicações, como a IstoÉ Dinheiro, e novas plataformas como o site que reúne hoje títulos tão diversos quanto Menu, dedicado à gastronomia, e Motor Show, voltada aos apaixonados por automóveis e automobilismo.
Tamanha tradição de diversificar o olhar consolidou-se na última década no ambiente digital com a criação de sites e verticais temáticas de alta relevância, como IstoÉ Mulher, espaço dedicado ao protagonismo feminino, direitos e carreiras; IstoÉ Saúde, focada em bem-estar, avanços da medicina e políticas sanitárias; e IstoÉ Sustentável, voltada para a agenda ESG, mudanças climáticas e economia verde. Esses novos canais permitem um aprofundamento técnico e uma conexão direta com públicos engajados em temas que definem a sociedade do século 21.
Se o passado da IstoÉ está conectado à coragem impressa, seu futuro é definido pela onipresença digital. A marca transformou-se em um hub de conteúdo, em que a análise profunda da semanal digital – em formato lançado pela IstoÉ Publicações no segundo semestre do ano passado – convive com a agilidade das redes sociais. A força do título hoje é medida em milhões de interações diárias, dialogando com gerações de leitores em diversas linguagens.
No Facebook e no LinkedIn, a marca IstoÉ mantém uma comunidade com interesse no debate político e social. O Instagram e o TikTok tornaram-se vitrines essenciais para o fotojornalismo de impacto e para vídeos curtos que traduzem a complexidade do cenário nacional para o público conectado. No X (antigo Twitter), a IstoÉ é fonte primária de notícias em tempo real, enquanto o canal no YouTube expande o debate por meio de entrevistas exclusivas e análises jornalísticas.
Novos desafios, mesmo DNA
Aos 50 anos, a IstoÉ reafirma seu compromisso de buscar a verdade, independentemente de quem esteja no poder. A transição para o ambiente digital não alterou o DNA investigativo, mas deu a ele uma escala sem precedentes.
O desafio para as próximas décadas é manter a sintonia com uma sociedade em constante transformação. Se o meio século que passou foi marcado pelo registro das grandes transformações do país, IstoÉ promete continuar provocando, antecipando e participando da evolução da sociedade.
Uma carta histórica
Confira o teor do texto de Mino Carta que apresentou IstoÉ ao leitor na edição número 1:
E volto a escrever uma carta ao leitor, embora, em jornalismo tudo devesse ter estilo epistolar, como propunha um redator-chefe do New York Times aos jovens recém-chegados à profissão: ‘Não tenham medo, façam do leitor um amigo, escrevam-lhe uma carta’. Pois então, meus amigos, aqui está uma nova revista mensal. IstoÉ, expressão afirmativa e, ao mesmo tempo, equivalente de ‘ou seja’, ‘isto é’, ‘espera aí’, que a gente explica, troca em miúdos, esclarece.
Não é que os redatores (jornalistas que me acompanham nas minhas andanças profissionais há muito tempo), os colaboradores (alguns entre os melhores espíritos do país) e eu sejamos donos da verdade. Mas, acredito, nos esforçamos para ficar perto dela e, quando a alcançamos, a cultivamos com desvelo, como flor rara. Neste nosso tempo dado a introspecções, tende-se a achar que as verdades apinham as cabeças e as almas, cada ser carrega Himalaias de verdades — o que, talvez, seja verdade. Mas eu me refiro à verdade factual, e esta, é bom dizê-lo, é uma somente, e o seu contrário é a mentira.
Diferem as maneiras de se chegar à verdade. Por isso, IstoÉ não pretende manter, de fio a pavio, uma impecável e ditatorial unidade de estilo e pensamento embora ninguém, entre nós, dispense certa dose de graça, para o bem dos leitores e de nós mesmos, que gostamos de trabalhar sorrindo. Os nossos artigos são assinados, cada um escreve com franqueza e com as suas próprias palavras, sendo que uma harmoniosa desunião, serviria como prova, entre outras, de amor pela tolerância, pelo diálogo, pela democracia.
IstoÉ também não pretende postar-se na linha de fogo dos fatos para cobri-los em cima, como se diz na linguagem das redações. Ela prefere que os fatos decantem para extrair-lhes os significados de perspectiva mais ampla. E não se dispõe a traçar quadros completos, mas a oferecer uma visão parcial, porém profunda, do momento que vivemos, como cidadãos brasileiros e habitantes do mundo. Uma visão vívida, às vezes inquietante, ou polêmica, ou irônica, ou simplesmente serena — mas sempre e sempre a favor dos destinatários desta carta. Que assino, respeitosamente.
M. C.