Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

O brasileiro Isaquias Queiroz é especialista em duas coisas: canoagem e superação. Único atleta de seu país a ganhar três medalhas em Jogos Olímpicos, desembarca nos Pan-Americanos de Lima-2019 como o principal destaque do Brasil, ainda se recuperando da morte repentina do treinador que o levou ao pódio.

“Este ano está sendo muito complicado, após o falecimento de Jesús [Morlán]”, admitiu Isaquias, se referindo ao espanhol que revolucionou a canoagem brasileira antes dos Jogos de Rio-2016 e morreu vítima de um câncer terminal no cérebro em novembro do ano passado.

Apesar da enorme perda, o canoísta brasileiro de 25 anos, 1,77 m de altura e várias histórias de superação sobre suas costas largas tem seu próximo objetivo nítido em sua cabeça: se classificar para os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020.

Para isso precisa obter um bom desempenho no Mundial que será disputado na Hungria no final de agosto. Os Pan-Americanos de Lima, que ocorrem entre 26 de julho e 11 de agosto, vão funcionar como um ‘termômetro’. Especialmente diante de seus principais adversários do continente: os cubanos.

“Vamos para vencer os cubanos. Se conseguirmos, chegaremos com mais confiança ao Mundial, onde tentaremos vencer não só os cubanos, mas também os alemães”, explicou na semana passada durante um evento da Petrobras, que patrocina vários atletas da delegação brasileira.

– Prodígio baiano da “terra das canoas” –

Isaquias Queiroz dos Santos nascem no dia 3 de janeiro de 1994 em uma cidade do interior da Bahia, 250 km ao sul de Salvador.

De família humilde, durante sua infância superou inumeráveis obstáculos: perdeu seu pai, teve que ser hospitalizado durante um mês devido às queimaduras que sofreu após derrubar uma panela de água fervendo, quase foi sequestrado e perdeu um rim ao cair de uma árvore quando tentava capturar uma cobra.

Mas nada disso foi suficiente para deter o rapaz inquieto nascido em Ubaitaba, que significa “terra das canoas” na língua indígena tupi.

Sua carreira começou aos 11 anos, quando descobriu a canoagem por meio de um projeto social do ministério dos Esportes. Com seu talento e a ajuda incondicional de sua família – sua mãe, Dona Dilma, seus cinco irmãos biológicos e quatro adotados -, despontou rapidamente em um esporte que até então era o patinho feio do atletismo brasileiro.

Aos 17 anos, o jovem atleta conquistou seu primeiro campeonato mundial júnior na prova de 200 metros de canoa individual, além de uma prata nos 500 m.

– A ausência de Jesús Morlán –

O empurrão determinante veio em 2013. No âmbito do “Plano Brasil Medalhas”, Isaquias começou a trabalhar com o técnico espanhol Jesús Morlán, o homem que fez de David Cal o esportista de seu país com mais medalhas olímpicas.

Nesse mesmo ano, veio o primeiro título profissional, no C1 500 metros no Mundial de Duisburg, na Alemanha, onde também conseguiu um terceiro lugar nos 1000 metros.

Desde então, conquistou outros dois ouros na prova individual C1 500 (Rússia 2014, Portugal 2018), e um primeiro lugar junto a seu colega Erlon de Souza na categoria C-2 1000 metros (Milão 2015).

Nos Pan-Americanos de Toronto-2015 conquistou duas medalhas individuais de ouro e uma de prata em equipe.

Nos Jogos Olímpicos de Rio-2016 deu ao Brasil sua primeira medalha de canoagem olímpica em 80 anos. Na Lagoa Rodrigo de Freitas, sob os braços do Cristo Redentor, conquistou duas medalhas de prata (C1 1000 e C2 1000 e uma de bronze C1 200, e se tornou assim o primeiro atleta brasileiro a ganhar três medalhas em uma mesma olimpíada.

Tudo graças a Morlán, segundo Isaquias: “Sem ele eu não teria conseguido ganhar nenhuma medalha”, declarou depois o atleta.

“Para mim ele foi como um pai, me ensinou muitas coisas que nenhum outro treinador me ensinou. Devo minha vida e tudo o que tenho hoje”, afirmou Isaquias, que encontra refúgio em sua esposa e seu pequeno filho, a quem deu o nome Sebastian, em homenagem a seu ídolo e atual adversário alemão Sebastian Brendel.

Morlán foi diagnosticado em novembro de 2016 com um câncer terminal de cérebro, três meses depois da façanha olímpica. Ele passou por uma cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Sem saber quanto tempo de vida teria, decidiu permanecer no Brasil acompanhando a carreira dos “muchachos”.

O técnico morreu de forma repentina no último dia 11 de novembro na cidade de Lagoa Santa, em Minas Gerais, onde a equipe brasileira de canoagem treina.

“Assim que Tóquio-2020 acabar, se eu continuar vivo, estarei pensando em Paris-2024”, havia dito Morlán em uma entrevista recente.

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