Medicina & Bem-estar

Irmão salva-vidas

Gabriel, o homem-aranha da foto, espera a chegada do novo irmão para se curar de anemia falciforme, doença que provoca crises de dor. O bebê doará as células que o livrarão do sofrimento

ESPERA Luciano e Ana fizeram a seleção do embrião ideal para curar Gabriel (Crédito:Gabriel Reis)

Há três meses a dona de casa Ana Oliveira, 33 anos, de São Paulo, leva no útero a esperança de uma vida melhor para o filho Gabriel, 6 anos. O menino tem anemia falciforme, doença hereditária cuja única possibilidade de cura é a realização de um transplante de medula doada por alguém que seja 100% compatível com o receptor. A chance de dar certo exige que o doador, além da compatibilidade, não seja portador da enfermidade. Encontrar uma pessoa assim é dificílimo. O jeito é fazer o que Ana e seu marido, Luciano, 34 anos, conseguiram: submeter-se à fertilização in vitro (óvulo e espermatozóide unidos em laboratório), selecionar o embrião ideal, implantá-lo no útero da mãe e esperar que o bebê nasça saudável, amado e com a missão de doar células da própria medula para salvar o irmão mais velho.

A anemia falciforme é marcada pela mudança no formato das hemácias, as células do sangue que transportam o oxigênio e fabricadas pela medula. Elas adquirem um formato de foice e se agrupam, atrapalhando o fornecimento de oxigênio aos tecidos. Além de repercussões como necrose, o acúmulo das células nos vasos sanguíneos provoca dores intensas. Uma das crises de Biel, como Gabriel é chamado, durou 36 horas. Só a morfina alivia. A cura é possível com o transplante. No procedimento, a medula do paciente é destruída por quimioterápicos e refeita a partir das células-tronco doadas (extraídas do cordão umbilical ou da medula). A nova fábrica passa a produzir as hemácias na forma certa.

DISPONÍVEL NO SUS

O Brasil tem 50 mil portadores desse mal, mas poucos sabem do procedimento. “E muitos médicos não o conhecem”, diz Luciano. Ele mesmo não sabia, até que há dois anos viu uma reportagem na televisão e leu sobre o tratamento na edição 2206 de ISTOÉ, de 2012. A matéria conta como o procedimento foi aplicado no caso das irmãs Maria Vitória e Maria Clara. A segunda nasceu para doar suas células à mais velha, portadora de talassemia, causada por uma deformidade na hemoglobina, proteína encontrada dentro das hemácias.

É importante saber que a opção existe e está disponível no SUS. “Os resultados para anemia falciforme são excelentes”, afirma o hematologista Vanderson Rocha, do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. “E quanto antes o procedimento for feito, melhor”, completa o médico geneticista Ciro Martinhago, diretor da Chromosome Medicina Genômica, responsável pela realização, há dois anos, do primeiro transplante de medula para anemia falciforme da América Latina. Feito, como no caso de Biel e de Maria Vitória, graças a um irmão salva-vidas. “Mas eles não chegam só para curar. Meu novo filho será muito amado”, afirma Luciano.