O Ministério das Relações Exteriores do Irã declarou nesta segunda-feira, 20, que ainda não decidiu sobre sua participação na próxima rodada de negociações com os Estados Unidos. Teerã acusa Washington de não levar o diálogo a sério, o que põe em xeque a continuidade das conversas e a perspectiva de qualquer avanço diplomático.
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O que aconteceu
- Irã não decide sobre negociações com EUA e os acusa de falta de seriedade no diálogo diplomático.
- O porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Baqai, afirmou que não há planos para a próxima rodada de conversas até o momento.
- Teerã critica as atitudes americanas, que, segundo o país, não demonstram empenho em um processo diplomático efetivo.
“Neste momento, enquanto falo, não temos nenhum plano para a próxima rodada de negociações e nenhuma decisão foi tomada a respeito”, declarou o porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Baqai, durante uma entrevista coletiva. Ele enfatizou que a falta de decisão reflete a insatisfação de Teerã com o andamento das conversas.
Isso se seu após os EUA afirmarem que haviam apreendido um navio de carga iraniano que tentava furar seu bloqueio e Teerã prometeu retaliar, recusando-se, por enquanto, a participar de novas negociações de paz.
De acordo com uma fonte iraniana, a continuação do bloqueio dos EUA aos portos do Irã estaria dificultando a perspectiva de negociações de paz e ressaltou que as “capacidades defensivas” de Teerã, incluindo seu programa de mísseis, não estavam abertas à negociação.
Irã questiona seriedade de Washington
Baqai foi além, criticando a postura de Washington. “Embora se declarem a favor da diplomacia e se mostrem dispostos a negociar, os Estados Unidos estão adotando atitudes que não denotam, em absoluto, seriedade no momento de levar adiante um processo diplomático”, acrescentou. As declarações do porta-voz iraniano reforçam o impasse nas relações bilaterais e a desconfiança mútua.
Governo Trump envia emissário para o Paquistão
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou no domingo, 19, o envio de negociadores ao Paquistão para tentar reativar conversações com o Irã.
O vice-presidente americano, JD Vance, que já havia chefiado a delegação em Islamabad em 11 de abril para um diálogo sem precedentes, mas que fracassou, voltará a estar acompanhado pelos dois emissários habituais de Washington: Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner.
Trump afirmou em sua plataforma Truth Social que estava oferecendo ao Irã um “acordo razoável”. Ele alertou, no entanto, que, em caso de recusa, “os Estados Unidos destruirão todas as centrais elétricas e todas as pontes no Irã”.
“Se não aceitarem o ACORDO, será uma honra para mim fazer o que tem de ser feito, o que outros presidentes deveriam ter feito com o Irã nos últimos 47 anos”, disse Trump. “CHEGA DE SER BONZINHO!”. A declaração ressalta a postura assertiva do presidente.
Com estradas fechadas, arame farpado e barricadas, a capital paquistanesa havia visivelmente reforçado a segurança neste domingo. Jornalistas da AFP viram guardas armados e postos de controle, em particular nas proximidades do hotel Serena, onde foi realizada a última rodada de negociações.
Quais as condições iranianas para o diálogo?
Um acordo está distante, advertiu o poderoso presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, chefe da equipe negociadora, citando “numerosas divergências”.
Em Teerã, sob uma chuva persistente, os habitantes enfrentavam enormes engarrafamentos, sinal de um certo retorno à normalidade. No entanto, a preocupação persiste e a incerteza domina o cotidiano da população.
A desconfiança em relação a Washington é forte no Irã, alvo de bombardeios israelense-americanos em junho de 2025 e depois de 28 de fevereiro a 8 de abril.
Trump justificou a ofensiva alegando que o Irã estava próximo de fabricar uma bomba atômica. Teerã desmente e afirma que seu programa nuclear tem fins civis.
A guerra incendiou o Oriente Médio, causou milhares de mortes, principalmente no Irã e no Líbano, e perturbou gravemente a economia mundial.
Embora os bombardeios tenham cessado desde o início da trégua, o bloqueio persiste no Estreito de Ormuz, crucial para o comércio mundial de hidrocarbonetos.
Teerã declarou no sábado que retomava “o controle estrito” da via marítima, depois de ter anunciado na sexta-feira sua reabertura, o que provocou euforia nos mercados mundiais.
Pouco depois, pelo menos três navios mercantes que tentavam atravessar o estreito foram alvo de disparos. Esses ataques são “uma violação total do cessar-fogo”, protestou Trump.
O Ministério das Relações Exteriores iraniano culpou, por sua vez, Washington pelo bloqueio de seus portos, que equivaleria a “um crime de guerra e a um crime contra a humanidade”.
O tráfego pelo Estreito de Ormuz caiu a zero neste domingo, segundo o site Marine Traffic.
Vali Nasr, professor de relações internacionais na universidade americana Johns Hopkins, apontou que o Irã acreditava, ao reabrir o estreito na sexta-feira, que “os Estados Unidos responderiam levantando o bloqueio”.
Mas a manutenção do bloqueio “apenas alimentou a suspeita do Irã” de que as negociações de Islamabad “não passam de uma artimanha diplomática antes de outro ataque militar”, acrescentou Nasr em sua conta no X.
Ainda mais porque as posições continuam muito distantes, em particular no capítulo nuclear, coração do conflito. Segundo Trump, o Irã aceitou entregar seu urânio altamente enriquecido, algo que Teerã negou.
“Como é possível que o presidente dos Estados Unidos afirme que o Irã não deve exercer seus direitos nucleares sem explicar por quê?”, declarou neste domingo o presidente Masoud Pezeshkian, citado pela agência Isna.
*Com informações da AFP e Reuters