Irã, EUA e Israel aumentam ataques em 2º dia de conflito

Irã, EUA e Israel aumentam ataques em 2º dia de conflito

"AtaquesAtaques a navios petroleiros e militares e retaliação no Golfo marcam segundo dia da ofensiva contra o Irã. Trump fala em negociação com nova liderança iraniana, mas prevê operação de quatro semanas.Israel lançou uma nova onda de ataques contra Teerã neste domingo (01/03), e o Irã retaliou com lançamentos de mísseis contra o território israelense e países árabes do Golfo Pérsico, além de alvejar petroleiros e tentar atingir o porta‑aviões americano USS Abraham Lincoln.

Já os EUA disseram ter matado 48 líderes da República Islâmica, afundado nove navios militares e danificado o quartel-geral dos militares iranianos no segundo dia do conflito iniciado por ataques coordenados entre Washington e Israel.

Entre os mortos estão o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o chefe da Guarda Revolucionária, major-general Mohammad Pakpour.

Teerã estabeleceu um conselho de liderança formado pelo presidente do Irã, Massoud Pezeshkian, o chefe do judiciário, Mohseni Ejei, e o aiatolá Alireza Arafi. O colegiado governará o país de forma interina até a escolha de um novo líder supremo.

A nova liderança prometeu vingança pela morte de Khamenei, mas, segundo o presidente dos EUA, Donald Trump, representantes iranianos o procuraram para retomar as negociações, com o que ele teria concordado.

Contudo, logo depois Trump indicou que os combates podem durar "até quatro semanas".

Quatro mortos no Golfo

De fato, a possibilidade de retomada de diálogo não diminuiu as ofensivas. Somente nos países do Golfo, a retaliação iraniana matou quatro pessoas e deixou dezenas de feridos.

Fortes explosões foram registradas em cidades como Dubai (Emirados Árabes Unidos), Doha (Catar), Manama (Bahrein) e Riad (Arábia Saudita).

A Guarda Revolucionária do Irã diz que mira as bases militares dos EUA no Oriente Médio, mas centenas de mísseis e drones atingiram aeroportos, portos e hotéis. Somente nos Emirados Árabes Unidos foram três mortos. No Kuwait, uma pessoa morreu. Destroços também atingiram Omã e Jordânia.

O assessor presidencial dos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargash, classificou os ataques como um erro de cálculo. "Isso isolou o Irã num momento crítico. Sua guerra não é com seus vizinhos", afirmou.

Em nota conjunta, os chanceleres de Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Bahrein pediram que o Irã interrompa os ataques contra seus territórios sob risco de minar a estabilidade regional. Abu Dhabi fechou sua embaixada em Teerã e convocou seus diplomatas.

Irã atinge navios petroleiros; petróleo dispara

A Guarda Revolucionária do Irã afirmou no domingo que havia atingido também três petroleiros dos EUA e do Reino Unido no Golfo, na tentativa de fazer valer sua proibição de tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. A televisão estatal iraniana afirmou que um petroleiro estava afundando após ser atingido quando transitava pelo Estreito de Ormuz.

Proprietários de navios petroleiros e grandes empresas petrolíferas passaram a suspender o transporte de petróleo bruto, combustíveis e gás natural liquefeito pelo Estreito de Ormuz. Dados de navegação mostram centenas de embarcações ancoradas em águas próximas, e investidores esperam fortes altas nos preços do petróleo bruto nesta segunda‑feira.

O petróleo Brent subiu 10% neste domingo, atingindo 80 dólares o barril, negociado em operações diretas entre trades, fora das bolsas formais. Analistas preveem que os preços podem chegar a 100 dólares o barril quando o mercado for reaberto, nesta segunda-feira.

O transporte aéreo global também sofreu forte impacto, já que a continuidade dos ataques manteve fechados grandes aeroportos do Oriente Médio, incluindo Dubai, o maior hub internacional do mundo, em uma das maiores interrupções da aviação dos últimos anos.

Três militares americanos mortos

O Irã ainda disse ter disparado quatro mísseis balísticos contra o porta-aviões nuclear americano USS Abraham Lincoln. O navio faz parte da frota militar americana que foi deslocada para a região nas últimas semanas.

O Comando Central das Forças Armadas dos Estados Unidos (Centcom), porém, disse que os mísseis não chegaram perto da embarcação, que continua operacional.

O órgão também confirmou as três primeiras baixas de militares americanos em combate neste domingo, sem dar mais detalhes do incidente. Cinco ficaram gravemente feridos, e "vários outros sofreram ferimentos leves causados por estilhaços e concussões".

Mísseis iranianos também voltaram a atingir Israel. Ao menos dez pessoas morreram e 120 ficaram feridas desde sábado. O maior impacto ocorreu em Beit Shemesh, no centro do país, onde um míssil atingiu uma sinagoga e deixou nove vítimas. Outras 11 pessoas seguem desaparecidas.

Em Tel Aviv, uma pessoa morreu. Ao final do dia, mísseis também foram ouvidos em Jerusalém.

Bombardeios atingem escola e hospital em Teerã

Já os ataques israelenses contra Teerã se mantiveram ao longo do dia. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, deixou claro que a ofensiva militar "aumentará ainda mais nos próximos dias". O Exército israelense convocou quase 100 mil reservistas como parte de sua campanha.

Autoridades iranianas culpam os Estados Unidos e Israel pela morte de ao menos 165 pessoas durante um bombardeio que atingiu uma escola de meninas em Minab, no sul do Irã.

"Eram meninas que iam à escola para aprender, com esperanças e sonhos em seu futuro. Hoje, suas vidas foram brutalmente interrompidas", comentou a vencedora do prêmio Nobel e ativista em prol da educação de meninas, a paquistanesa Malala Yousafzai.

A agência de notícias iraniana Isna informou que o hospital Gandhi, no norte de Teerã, também foi alvo de ataques. As agências Fars e Mizan publicaram um vídeo, apresentado como sendo do interior das instalações, mostrando destroços no chão entre cadeiras de rodas.

França, Alemanha e Reino Unido preparam "ação defensiva"

França, Alemanha e Reino Unido alertaram o Irã de que estão prontos para adotar ação militar para defender seus interesses e os de seus aliados no Golfo.

"Tomaremos medidas para defender nossos interesses e os de nossos aliados na região, potencialmente permitindo ações defensivas necessárias e proporcionais para destruir, na origem, a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones", comunicaram os três governos.

O primeiro‑ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que o Reino Unido voltou atrás e permitiu que os Estados Unidos usem bases britânicas para atingir mísseis iranianos e seus locais de lançamento

Já a França enviará dois navios de guerra ao Mar Vermelho nos próximos dias para integrar uma missão naval da União Europeia na região.

Futuro da liderança no Irã segue incerto

O futuro do governo iraniano segue incerto. O ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araghchi, disse que um novo líder supremo será escolhido em "um ou dois dias". Ele indicou ainda que Teerã estaria aberto a qualquer "esforço sério de desescalada".

O regime dos aiatolás vive seu maior desafio existencial desde a década de 1980. Dentro do Irã, muitos lamentaram a morte de Khamenei, enquanto outros celebraram sua morte, expondo uma profunda fratura em um país atônito com o súbito desaparecimento do homem que liderou o regime por décadas.

Imagens de Teerã mostraram enlutados reunidos numa praça central, vestidos de preto, segurando fotos de Khamenei e muitos deles chorando.

Mas vídeos publicados nas redes sociais também mostraram alegria e desafio em outras regiões, com pessoas festejando em cidades como Dehloran, Karaj, e Izeh.

Especialistas indicam que, embora sua morte e a de outros líderes iranianos representem um golpe significativo, isso não significaria necessariamente o fim da teocracia do Irã ou da influência da elite da Guarda Revolucionária sobre a população.

A morte do líder supremo também provocou protestos de muçulmanos xiitas no Paquistão, onde a polícia entrou em confronto com manifestantes que romperam o muro externo do consulado dos EUA em Karachi, deixando nove mortos. No Iraque, a polícia lançou gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral para dispersar centenas de manifestantes reunidos do lado de fora da Zona Verde, em Bagdá, onde fica a embaixada dos EUA.

gq/as (Reuters, AP, AFP, OTS)