Comportamento

Investimento pelos ares

Surpreendida pela desistência da compra pela Boeing, a Embraer deu início a uma verdadeira batalha nos tribunais com a gigante da aviação

Crédito: David Becker

DISPUTA Na semana passada a Embraer deu início aos procedimentos arbitrais para provar que são falsas as alegações da Boeing na desistência da compra (Crédito: David Becker )

No sábado 25 uma notícia pegou de surpresa o mercado de aviação. A tão esperada conclusão da venda de parte da brasileira Embraer para a americana Boeing não acontecerá – pelo menos não em um futuro próximo. A americana anunciou o rompimento do contrato de compra da divisão comercial da brasileira, avaliada em US$ 4,2 bilhões, e que vinha sendo negociada há mais de dois anos. O acordo previa a criação de uma joint venture com 20% de participação da Embraer e 80% da Boeing, além de uma nova empresa para desenvolver o avião KC-390, da Embraer, com 51% da brasileira e 49% da americana. O mercado reagiu e as ações da Embraer despencaram 7,49% na segunda-feira 27. No dia seguinte a empresa perdeu o grau de investimento pela Fitch, que considerou negativo o cancelamento da compra e a queda na demanda da empresa nos próximos anos, como consequência da pandemia do novo coronavírus que assola todo o setor aéreo.

Roosevelt Cassio

O comunicado foi dado às portas do prazo final de desistência do negócio e irritou a Embraer por causa dos motivos alegados pela ex-futura-sócia. A Boeing argumentou que a parceira não “atendeu as condições necessárias”, o que a Embraer considera “alegações falsas como pretexto para tentar evitar seus compromissos de fechar a transação e pagar à Embraer o preço de compra”,além da multa da desistência do contrato, estimada em US$ 75 milhões. A Embraer iniciou o processo de arbitragem contra a Boeing, mecanismo para uma solução rápida de conflito extrajudicial que conta com um terceiro escolhido em comum acordo pelas partes do processo. O objetivo é provar que todas as exigências foram cumpridas.

Especialistas são unânimes ao avaliar que a motivação da desistência, na verdade, foi a difícil situação financeira da empresa americana. Além da pandemia, o seu principal avião, o 737 MAX, apresenta problemas de segurança e teve duas quedas fatais, o que provocou a paralisação de sua venda em todo o mundo e uma crise sem precedentes. Concluir uma compra de bilhões nesse cenário seria um negócio muito arriscado. Outra suspeita é que a desistência teria sido motivada pelo fato de a Embraer ter perdido seu valor após a crise sanitária. A empresa hoje está avaliada em aproximadamente US$ 1,1 bilhão, menos de um terço do preço que a Boeing pagaria.

“A Embraer tem liquidez suficiente e acesso a fontes de financiamento para alavancar a continuidade dos seus negócios”, disse o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto. Uma delas é o BNDES, com o qual já avalia possibilidades de empréstimo. Como alternativa está a ampliação da participação do banco na fabricante, da qual já possui fatia minoritária, e como será a reação da Embraer no equilíbrio de seu caixa.

“A Embraer tem liquidez suficiente e acesso a fontes de financiamento para alavancar a continuidade dos seus negócios” Francisco Gomes Neto, presidente da Embraer (Crédito:Lucas Lacaz Ruiz)

Reavaliação

A Embraer foi privatizada em 1994 e se tornou uma empresa de capital aberto e pulverizado. Ainda assim, o governo brasileiro possui uma golden share da companhia, o que lhe permite barrar decisões caso entenda que sejam prejudiciais ao País. O cancelamento da venda, portanto, pode ser uma boa oportunidade para que o Brasil a reavalie: “Há males que vêm para bem”, disse o vice-presidente Hamilton Mourão na quarta-feira 29, em uma transmissão online. O presidente da República, Jair Bolsonaro, também considera oportuna uma nova negociação com outra empresa.

Apesar de ser pequena a quantidade de fabricantes mundiais do setor aeronáutico, e ele estar concentrado entre Boeing e Airbus, especialistas acreditam que com a crise esse market share será distribuído para novas empresas chinesas, russas e japonesas. A China é um parceiro em potencial para o Brasil, tendo em vista as suas boas relações comerciais e a alta probabilidade de a economia asiática se recuperar rapidamente da crise do novo coronavírus. É verdade que uma parceria como essa poderia prejudicar a troca de conhecimento no setor entre o Brasil e os EUA, mas analistas afirmam que esse não seria um complicador. “Hoje não existe uma hegemonia americana em termos de tecnologia. A sua produção de patentes está no mesmo nível da chinesa. E até mesmo a Embraer avança tecnologicamente”, diz Renato Ramos Hallgren, analista de infraestrutura, concessões e transportes do Banco do Brasil.

Negociar com outras nações para acelerar a venda vai ao encontro da agenda liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes. As negociações começaram em 2017, com o apoio do então presidente Michel Temer e no início de 2019 foi ratificada pelo presidente Bolsonaro. Há quem duvide que a venda da Embraer será efetuada em um cenário econômico tão instável como o atual. Especialistas apostam que agora a Embraer focará seus esforços em manter o seu balanço financeiro no azul e garantir que o processo de arbitragem resulte em uma decisão a seu favor. Afinal, foram aproximadamente R$ 485 milhões investidos na preparação para o negócio. A possibilidade de uma nova negociação com a própria Boeing não está totalmente descartada, uma vez que o casamento é interessante para ambas as partes e provavelmente ele ocorreria, não fosse a difícil situação financeira da empresa americana.

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