Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais
Ilustração: Nilson Cardoso

Dizem que a arte imita a vida, mas há casos em que a realidade é tão improvável que parece ter sido criada por um roteirista de cinema. Impossível elencar o número de produções que têm como pano de fundo o período da guerra fria, quando os espiões dos Estados Unidos e da União Soviética participavam de redes de intrigas e se infiltravam na sociedade civil para executar os mirabolantes planos das duas potências. Há sinais de que estamos vivendo algo semelhante agora – mas na vida real.

Os personagens não poderiam ser mais cinematográficos. Se a obra fosse filmada em Hollywood, teríamos um vilão perfeito: um traficante de armas russo.Viktor Bout (até o nome cai como uma luva para o antagonista) nasceu no Tajiquistão, tem 55 anos e era oficial da Força Aérea até 1991, quando a União Soviética se dissolveu. Com o colapso da URSS, suas repúblicas se viram detentoras de arsenais gigantescos de armamento pesado – e crises econômicas da mesma magnitude. Viktor viu aí uma bela oportunidade de negócios. Com seu conhecimento das rotas aéreas e marítimas, tornou-se a maior referência mundial no mercado negro do tráfico de armas, abastecendo guerrilheiros e exércitos em guerras civis e áreas de conflito do leste europeu à África, passando pela América do Sul e Oriente Médio. O potencial destrutivo dos produtos que Viktor negociava era tão grande que o ex-secretário de Estado britânico, Peter Hain, o batizou de “destruidor de nações”. Dizer que a vida dele daria um filme não é apenas uma figura de linguagem: sua trajetória serviu de inspiração para O Senhor das Armas, produção de 2005 dirigida por Andrew Niccol. No papel de Viktor está o ator Nicholas Cage, que começa sua participação com uma fala antológica: “Há mais de 550 milhões de armas de fogo em circulação no mundo. É uma arma para cada doze pessoas no planeta. A única questão é: Como armamos as outras onze?”, questiona o personagem Yuri Orlov. Capturado em 2008 após uma armadilha de agentes dos EUA em Bangkok, na Tailândia, Viktor Bout cumpre pena em uma prisão no estado de Illinois, perto de Chicago.

O herói dessa narrativa hollywoodiana da vida real segue as regras da diversidade que regem o cinema atual: é mulher, negra e gay. Brittney Griner, de 31 anos, é estrela da WNBA – a liga de basquete profissional feminina – e uma das maiores jogadoras dos EUA. Defendeu a seleção norte-americana nas olimpíadas do Rio de Janeiro e de Tóquio, ganhando a medalha de ouro em ambas as competições. Em 2013, declarou-se homossexual e assumiu o romance com Glory Johnson, uma companheira de quadra. As duas se separaram em 2016 e Brittney se casou com a estudante de Direito Cherelle Watson.

Em fevereiro deste ano, durante a entresafra da temporada esportiva nos EUA, Brittney foi convidada para disputar o campeonato russo pela equipe UMMC Ekaterinburg, uma das favoritas ao título. Desembarcou em Moscou, mas teve problemas na alfândega: a polícia encontrou em sua mala cartuchos de cigarro eletrônico com óleo de haxixe, droga proibida na Rússia. Brittney se declarou culpada no julgamento, alegando que confundiu a substância com um remédio para controlar a dor causada pelas lesões. A promotoria russa não acreditou na versão e a condenou a nove anos de prisão.

Para completar o enredo, há um terceiro personagem: Paul Whelan, ex-fuzileiro naval norte-americano. Em 2018, ele viajou a Moscou para o casamento de um amigo. O exército russo desconfiou e o deteve para averiguações. Whelan foi acusado de espionagem e condenado a 16 anos de prisão.

Como todo longa-metragem, além do elenco principal, temos os coadjuvantes. Aqui, políticos importantes que atuam nos bastidores. De um lado, representando a Casa Branca, temos o secretário de Estado, Anthony Blinken; do outro, em nome do Kremlin, o chanceler Serguei Lavrov. Os dois chefões negociam a troca de prisioneiros. O americano confirmou o plano; o russo preferiu a “diplomacia silenciosa”, pelo menos até que a situação se resolva. Ainda não se sabe se o final dessa trama será feliz, mas há uma única certeza: ainda farão um filme dessa história.