Brasil e EUA: entenda as relações após alerta sobre eleições

Relatório da inteligência brasileira aponta escalada da pressão norte-americana sobre o país, com foco em eleições e economia

Brasil e EUA: entenda as relações após alerta sobre eleições

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) alertou para o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras deste ano, conforme relatório sigiloso enviado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. O documento, divulgado pela Folha de S.Paulo e confirmado pela TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), aponta uma escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil.

A inteligência brasileira classifica a possibilidade de interferência externa com um “nível de criticidade”, contextualizando a situação com a “reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina”. Este seria um dos objetivos prioritários do segundo governo do presidente norte-americano Donald Trump, visando afastar rivais como a China de ativos estratégicos e infraestruturas na região.

Relatório da Abin aponta risco de interferência dos EUA nas eleições brasileiras.

  • O documento detalha uma escalada de pressão e ingerência norte-americana no Brasil.
  • Medidas incluem tarifas econômicas, sanções e ações diplomáticas que impactam interesses nacionais.

A avaliação da Abin indica uma intensificação das ações dos Estados Unidos em relação ao Brasil nos últimos meses. Além da ingerência nas eleições, o Brasil tem sido alvo de medidas econômicas e políticas prejudiciais aos interesses nacionais.

Enquanto isso, o governo brasileiro busca manter boas relações diplomáticas e comerciais. Apesar das críticas às ações de Washington, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva frequentemente declara, em eventos e entrevistas, seu bom relacionamento pessoal com Trump.

Entenda a escalada de tensões entre Brasil e EUA

As relações entre os dois líderes teriam começado com a famosa “química” que brotou durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025. Essa foi a exata definição de Trump após um breve encontro entre ambos, quando Lula deixava o palco e o então presidente dos EUA se preparava para discursar. No entanto, essa aparente boa relação não se traduziu em facilidade para a diplomacia ou para a economia brasileira.

Desde abril de 2025, o Brasil tem sido alvo de tarifas de exportação para produtos vendidos aos Estados Unidos. Inicialmente, foram 10% aplicados a vários países, com um tom puramente econômico. Dois meses depois, porém, a política passou a influenciar as medidas econômicas de Washington.

Em 30 de julho de 2025, Donald Trump assinou uma Ordem Executiva que considerava o Brasil uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA”. Essa medida levou à elevação da tarifa para 50% sobre produtos brasileiros.

Medidas econômicas e sanções políticas

Entre as justificativas para o aumento das tarifas, destacava-se a atuação da Justiça brasileira ao limitar a operação de redes sociais em território nacional. Entre as plataformas citadas estavam a Rumble, da Trump Media & Tecnology Group (TMTG), e o X, antigo Twitter, presidido por Elon Musk, aliado de Donald Trump. As restrições a essas redes sociais estavam relacionadas à incitação de discursos de ódio e atentados à democracia, conforme decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).

Outra justificativa para as tarifas passou pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O governo dos Estados Unidos considerou a condenação uma perseguição política e intimidação a opositores do atual governo. Trump repetia a versão de Bolsonaro, que afirma ser perseguido no processo em que foi acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado no Brasil, após perder a eleição presidencial de outubro de 2022 para Lula.

Além das tarifas, Washington aplicou a Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes, ministro do STF e relator dos processos da trama golpista, bem como a sua esposa, a advogada Viviane Barci Moraes. Essa lei prevê o bloqueio de contas bancárias, ativos e aplicações financeiras nos Estados Unidos, a proibição de transações com empresas americanas que atuam no Brasil, além do impedimento de entrada no país.

Na ocasião, também foram alvo de cancelamento do visto de entrada nos EUA os ministros do STF Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. Em dezembro de 2025, Moraes e sua esposa tiveram os nomes retirados da lista de sancionados pela Lei Magnitsky.

O papel de Eduardo Bolsonaro e a queda nas tarifas

Nesse período, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, já estava nos Estados Unidos, alegando ser um perseguido político. Assim que a Lei Magnitsky foi aplicada, ele utilizou as redes sociais para celebrar as medidas econômicas e legais contra o Brasil. Eduardo afirmou ter atuado junto às autoridades americanas para obter esse resultado, o que levou o parlamentar a ser denunciado por coação no curso do processo, por incentivar os EUA a decretarem tarifas para pressionar a Justiça a não condenar seu pai.

Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF em junho de 2026. Ele continua morando nos Estados Unidos e perdeu o mandato de parlamentar por faltar às sessões da Câmara dos Deputados.

Em fevereiro deste ano, Donald Trump sofreu um revés em sua política tarifária quando a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas sobre produtos importados impostas globalmente. A Corte decidiu que a imposição de tarifas feita pelo presidente interferia nos poderes do Congresso do país e violava um princípio jurídico. O governo dos EUA, então, teve de devolver bilhões de dólares arrecadados ilegalmente.

Apesar da limitação legal, o governo dos Estados Unidos ainda lança mão de tarifas, inclusive contra o Brasil. Em 22 de julho, os EUA anunciaram uma sobretaxa de 25%. A medida atingiu 19% das exportações brasileiras para o país norte-americano.

A alegação do governo Trump, desta vez, baseava-se em “adoção de práticas desleais” do Brasil na relação comercial entre os dois países. Entre essas práticas, estariam o uso do PIX, a regulação das redes sociais, o desmatamento ilegal e acordos preferenciais com México e Índia. Dias depois, uma nova tarifa, de 12,5%, foi aplicada, sob o argumento de que o Brasil não adota mecanismos eficazes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. O governo brasileiro afirmou que a tarifa foi “arbitrária e injustificada”, ressaltando o reconhecimento internacional do país no combate ao trabalho escravo. Atualmente, parte dos produtos exportados para os EUA podem ser tributados em até 37,5%.

Por que os EUA designaram facções brasileiras como terroristas?

Em maio deste ano, os Estados Unidos anunciaram, em comunicado do Departamento de Estado, a designação das facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. O governo brasileiro tentou evitar essa designação por meses, avaliando que poderia abrir caminho para uma ação militar dos EUA no Brasil ou sanções severas em setores econômicos e financeiros.

De acordo com especialistas, a classificação dessas facções como terroristas pode, na verdade, atenuar eventuais punições a quem comete crimes de narcotráfico, lavagem de dinheiro, extorsão, latrocínio e contrabando de armas e munições.

Crise diplomática: Revogação de visto da embaixadora

Em 4 de agosto, os Estados Unidos anunciaram a revogação do visto da embaixadora do Brasil no país, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Washington justificou a medida pela demora do Brasil na resposta à concessão de aprovação diplomática do indicado do governo Trump para assumir a embaixada dos EUA em Brasília.

O governo brasileiro rebateu as alegações, afirmando que eram falsas. Em nota divulgada na época, o Brasil afirmou que os EUA feriram a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas ao divulgar o nome de seu indicado antes da concessão da anuência do país anfitrião.

Apesar de reafirmar seu bom relacionamento pessoal com Donald Trump, o presidente Lula não o poupa de críticas. Em junho, afirmou que Trump “fez uma coisa desaforada” ao sugerir novas tarifas contra o Brasil enquanto os dois países negociavam.

Isso não impede, no entanto, encontros ou conversas telefônicas entre os dois. Após o breve encontro na ONU em setembro de 2025, os dois se encontraram novamente no mês seguinte em Kuala Lumpur, na Malásia, durante a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Na ocasião, Trump disse estar “honrado” por encontrar o presidente brasileiro, mas nenhum acordo foi anunciado.

O último encontro entre os dois ocorreu em maio deste ano, em Washington. Na reunião, Lula procurou explicar que os Estados Unidos têm superávit na relação comercial com o Brasil e que não há “prática desleal” na relação comercial. Levou documentos e acertou com seu homólogo uma mesa de negociação entre as equipes dos dois governos. A reunião durou mais de três horas, e Lula também expôs as medidas do Brasil contra o crime organizado, numa tentativa de evitar a designação de facções brasileiras como terroristas, o que ocorreria dias depois.

Em abril, Brasil e Estados Unidos já haviam anunciado um acordo de cooperação mútua visando combater o tráfico internacional de armas e drogas.

Além de encontros presenciais, os dois já conversaram por telefone ao menos quatro vezes. A última dessas conversas, e a mais longa, com 1h20 de duração, ocorreu em agosto. A iniciativa partiu do presidente brasileiro e a ideia era retomar as negociações comerciais e discutir a contenção de conflitos internacionais.

Ambos estarão juntos novamente na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na próxima terça-feira, 22. Lula, como presidente do Brasil, é responsável por abrir o Debate Geral, seguido do discurso do presidente dos Estados Unidos. Não há, entretanto, nenhum encontro bilateral marcado entre eles.