O intelectual uigur Ilham Tohti, condenado à prisão perpétua na China por separatismo, foi anunciado nesta quinta-feira como o vencedor do prêmio Sakharov de liberdade de consciência, uma escolha destinada a irritar Pequim, que já havia acusado a Eurocâmara de “apoiar o terrorismo”.
“A Eurocâmara expressa todo o apoio a seu trabalho e pede às autoridades chinesas que o libertem imediatamente”, afirmou o presidente da instituição, David Sassoli, ao anunciar o vencedor do prêmio no plenário em Estrasburgo (nordeste da França).
A candidatura de Tohti superou a de três ativistas brasileiros, incluindo a vereadora assassinada Marielle Franco, e a de cinco jovens quenianas que lutam contra a ablação, em uma votação a portas fechadas dos líderes dos grupos políticos no Parlamento Europeu.
Tohti faz parte da etnia uigur de maioria muçulmana e que constitui a principal população de Xinjiang, uma grande região do noroeste da China que é submetida a um drástico controle policial e onde foram registrados durante anos atentados cometidos por uigures.
O julgamento deste ex-professor universitário de Economia, que na sexta-feira completa 50 anos, gerou críticas de governos estrangeiros e de grupos de defesa dos direitos humanos. O Conselho da Europa concedeu a Tohti em setembro o prêmio Vaclav Havel de direitos humanos
Sua candidatura ao Sakharov, defendida pela bancada liberal, irritou Pequim, que no início de outubro acusou a Eurocâmara de “apoiar o separatismo e o terrorismo”.
“Em suas aulas elogiou publicamente como heróis extremistas que cometeram atos terroristas”, afirmou na ocasião ministério chinês das Relações Exteriores.
A incerteza foi a marca da edição 2019. Ao contrário do ano passado, quando foi premiado o cineasta ucraniano Oleg Sentsov, que a Rússia libertou poucos meses depois, desta vez a premiação, que leva o nome do cientista soviético dissidente Andrei Sakharov, não tinha um favorito.
“Todos os candidatos são pessoas que fazem grandes coisas”, afirmou a eurodeputada ecologista Hannah Neumann, cujo grupo apoiou a candidatura conjunta de Marielle Franco, assassinada em março de 2018, do cacique Raoni e da ambientalista Claudelice Silva dos Santos.
Com a candidatura dos três ativistas, os social-democratas e a esquerda radical buscavam um reconhecimento para o trabalho dos defensores dos direitos civis e do meio ambiente, em um contexto de críticas ao presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
Para o eurodeputado social-democrata Dietmar Köster, o prêmio Sakharov para o trio teria sido “um sinal importante para a sociedade civil brasileira”.
O grupo de direita Conservadores e Reformistas Europeus (CRE) apresentou a candidatura das jovens quenianas conhecidas como “The Restorers”, que criaram um aplicativo chamado i-Cut que permite às menores de idade buscar apoio médico antes ou depois de uma ablação.
“A ablação em si não é a coisa mais terrível que acontece com você, e sim que ninguém aparece quando você pede ajuda. É muito doloroso, você pede, implora, mas ninguém aparece”, declarou à AFP a eurodeputada belga Assita Kanko, vítima de mutilação genital quando eu era menina em Burkina Faso.
Ao menos 200 milhões de mulheres em quase 30 países foram vítimas de mutilação genital, ato considerado uma violação dos direitos humanos. E a cada ano mais de três milhões de menores enfrentam esta ameaça contra seus corpos.
A Eurocâmara concede o prêmio desde 1988 a personalidades que apresentaram uma “contribuição excepcional à luta pelos direitos humanos”. Entre os vencedores estão personalidades como Nelson Mandela (1988) e Malala Yufsafzai (2013).
A cerimônia de entrega do prêmio acontecerá em Estrasburgo em 18 de dezembro.