A segurança pública permanece como o “calcanhar de Aquiles” do Rio de Janeiro, agravada por um cenário de instabilidade na política fluminense. Dados do Instituto Fogo Cruzado, de fevereiro deste ano, revelam que a violência cotidiana segue alarmante: apenas em janeiro, a região que compõe a Grande Rio registrou mais de uma pessoa baleada por dia em assaltos ou tentativas de roubo. Ao todo, 35 pessoas foram atingidas nessas circunstâncias, um aumento de 30% em relação ao mesmo período de 2025. Entre as vítimas, trabalhadores como o motoboy Marcelo Julio Silva, de 52 anos, morto em Irajá, ilustram a vulnerabilidade vivenciada pela população.
Essa insegurança é decorrente de uma paralisia na gestão estadual. Para o especialista em segurança pública Guaracy Mingardi, o governo interino e o mandato tampão dificultam mudanças estruturais. “O comando lá em cima demora muito tempo para começar a influir na segurança. No atacado, vai mudar pouco por enquanto”, disse. A socióloga Carolina Grillo, do GENI-UFF (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense), corrobora essa visão ao afirmar que o governo que estava em vigor, o de Cláudio Castro, não elaborou uma política de segurança própria: “Na verdade, ele apenas dobrou a aposta em políticas que já vinham sendo conduzidas pelas polícias militares há quase quatro décadas: realizar operações de incursão armada em territórios de favela”.
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Os números refletem essa “aposta” no confronto. Embora o total de tiroteios tenha caído de 5.444 em 2017 para 2.315 em 2025, o índice de letalidade subiu. No ano passado, 1.722 pessoas foram baleadas na Região Metropolitana — um aumento de 10% nas vítimas totais e de 23% no número de mortos (944 óbitos) em comparação a 2024. O papel do Estado é evidente: 54% dos baleados foram atingidos em contextos de ação policial. Mingardi critica essa estratégia, pois, nas palavras dele, essa “história de viver de operações é burrice. Ela mata gente, é considerada uma ‘grande vitória’, e depois volta tudo ao que era antes porque você não efetivou a ocupação permanente”.
Além da letalidade, a violência gera um “efeito cascata” nos serviços públicos, como o ensino. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, entre janeiro de 2023 e julho de 2025, cerca de 190 mil alunos da rede municipal tiveram o trajeto escolar interrompido por tiroteios. Carolina observa que essas operações causam paralisação momentânea no crime. “O único efeito é interromper o funcionamento do tráfico durante algumas horas. Prendem pessoas que são todas substituídas, apreendem armas e drogas que serão recompradas. A própria polícia se refere ao trabalho como ‘enxugar gelo’”, afirma.
Relatórios do Fogo Cruzado mostram ainda que a violência se redistribui. Em janeiro de 2026, o Leste Metropolitano viu as mortes saltarem de 8 (em 2025) para 27 casos. Cidades como São Gonçalo e Niterói registraram números críticos de tiroteios e óbitos. Em fevereiro, a média foi de uma chacina a cada cinco dias, como o ataque em Nova Iguaçu que deixou seis mortos. Para Mingardi, a expansão do crime ocorre porque o Estado tem pouca atuação na região do Grande Rio. Ele destaca que a solução passaria por inteligência e asfixia financeira, mas o cenário é de desinvestimento. Em 2025, as polícias Civil e Militar sofreram um corte orçamentário superior a R$ 5,7 bilhões.
O especialista chama atenção também para a falta de foco: “Falta ir atrás do dinheiro em grande estilo. Você tem de saber o que eles vendem, como compram e o que fazem com o lucro”. Já Carolina sugere que o caminho para retomar territórios não é o confronto, mas a regulação de mercados informais, como água, gás, internet, que hoje são controlados por grupos armados. “É preciso desarmar esses grupos e desarticular suas relações com o Estado. Isso é possível, mas o trabalho de ‘descooptação estatal’ é fundamental”.
Enquanto o STF (Supremo Tribunal Federal), por meio do julgamento da chamada ADPF das Favelas, determina uma reocupação territorial focada na retomada de serviços básicos e cidadania para 2026, o Rio de Janeiro segue no impasse entre o corte de verbas e a ausência de um direcionamento estratégico que vá além das incursões armadas cotidianas. A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro para tratar de dados, ações e estratégias, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.