"Injusto": turistas reclamam após aumento do preço no Louvre

"Injusto": turistas reclamam após aumento do preço no Louvre

"DepoisMuseu parisiense e outros espaços da França encareceram ingresso para quem é de fora da UE. Críticos acusam medida de ser discriminatória e potencialmente dificultar o acesso de visitantes estrangeiros de baixa renda.Turistas estrangeiros em Paris reclamaram nesta quarta-feira (14/01) do aumento de 45% no preço dos ingressos para o Museu do Louvre, válido apenas para visitantes de fora da União Europeia (UE).

"Na Coreia do Sul não temos esse tipo de medida, então é muito injusto, porque faz parte do patrimônio mundial", disse a sul-coreana HongJu Lee à agência de notícias AFP.

Ao lado dela, o seu namorado, o francês Julien Rittling, disse não se surpreender por pagar menos do que ela, pois "já está contribuindo para o nosso patrimônio ao pagar seus impostos".

Lee disse, porém, que 10 euros (R$ 62,7) adicionais cobrados dela não a impedirão de entrar no museu mais visitado do mundo. "É impossível ver a Mona Lisa sem ir lá; é essencial, e quando vejo as filas, percebo que muitas pessoas sentem o mesmo", disse.

A uruguaia Pamela González, que viajou com seu filho adolescente, também expressou sua incompreensão, embora também não vá desistir da entrada. "É injusto para nós, que viemos de mais longe. Porque favorece quem já está aqui e para quem é mais fácil vir. É muito mais barato do que para nós, que moramos a mais de 10 mil quilômetros de distância", disse ela, com a voz se elevando em sinal de indignação.

Dupla precificação

Nesta quarta-feira, poucos visitantes do museu pareciam estar cientes desse aumento, que será aplicado este ano a outros cinco espaços culturais na França, incluindo o Palácio de Versalhes, e que visa financiar a renovação de patrimônios históricos.

Os ingressos para o Louvre para visitantes individuais que não sejam cidadãos ou residentes de países-membros da UE – ou da Islândia, Liechtenstein ou Noruega – agora custam 32 euros (R$ 200) em vez da tarifa fixa anterior de 22 euros.

A medida é uma das implementações mais severas na Europa do que é conhecido como dupla precificação, quando os visitantes pagam tarifas diferentes dependendo de sua origem.

A prática é comum em muitos países em desenvolvimento, onde, frequentemente, moradores com menos recursos podem visitar locais culturais a preços mais baixos do que os turistas.

Mas até agora era uma raridade em regiões mais ricas como a Europa. A medida gerou críticas na França por ser discriminatória e potencialmente dificultar o acesso de visitantes estrangeiros de baixa renda ao museu da Mona Lisa.

"Se eu for à Índia, as pessoas de lá pagam menos do que as estrangeiras – é justo porque elas têm menos dinheiro", disse a brasileira Marcia Branco, à AFP. "Mas como estou em Paris, num país considerado rico, acho injusto."

Arrecadação para reformas

O governo francês defendeu o sistema de preços em dois níveis, afirmando que ele ajudaria a arrecadar entre 20 milhões e 30 milhões de euros extras anualmente para o museu, que precisa de reformas e sofreu um grande arrombamentoem outubro passado, quando joias históricas foram roubadas.

A rapidez e a eficácia do roubo, perpetrado em plena luz do dia, suscitaram um escrutínio rigoroso das possíveis falhas de segurança na instituição.

Dos 8,7 milhões de visitantes que o Louvre recebeu em 2024, segundo dados do museu, 23% eram franceses. Quase dois terços dos visitantes franceses tiveram entrada gratuita.

A entrada é gratuita para menores de qualquer lugar do mundo e para qualquer cidadão francês com menos de 26 anos. Grupos de até 20 pessoas que reservam visitas guiadas em conjunto também recebem um pequeno desconto por pessoa.

Os cidadãos dos EUA foram o maior grupo de estrangeiros em 2024, com 13%, enquanto grandes países europeus, como o Reino Unido, a Alemanha e a Itália representaram 5% cada. Os chineses, que são um grupo de visitantes em rápido crescimento, foram 6% do total.

"Chocante"

Os sindicatos do Louvre criticaram a decisão, que chamaram de "chocante", e a mencionaram como um dos motivos para recentes greves, sendo a mais recente delas no início desta semana.

Embora os sindicatos afirmem que sua objeção é puramente uma questão de princípio, eles também reclamam que a "precificação diferenciada" significa que os funcionários terão que verificar os documentos de identidade das pessoas para decidir sobre os tipos de ingressos.

Já o acadêmico francês Patrick Poncet escreveu no jornal Le Monde no mês passado que a política era "sintomática do retorno, como em outras partes do mundo, do nacionalismo descarado".

as (AFP, AP)