Comportamento

Uma zona nebulosa para crianças

Vídeos de influenciadores mirins para promover bonecas viralizam junto ao público infantil e alertam para a falta de controle sobre a publicidade no YouTube

Crédito: Divulgação

SUCESSO Luíza Sorrentino, em cena do canal Crescendo com Luluca: 778 mil visualizações (Crédito: Divulgação)

Praticamente desconhecida até o começo de 2017, a boneca L.O.L. se tornou o brinquedo mais vendido nos Estados Unidos no ano passado – e a febre chegou ao Brasil no último Natal. As L.O.L. são bonecas de apenas sete centímetros vendidas dentro de bolas coloridas. Alguns pais ficaram revoltados – e não apenas pelo preço, que pode chegar a R$ 160 por aqui. O motivo de preocupação é que as bonecas se tornaram populares graças aos vídeos divulgados no YouTube, feitos por influenciadores mirins que seguem um mesmo roteiro, desembrulhando as várias camadas de embalagem até chegar ao brinquedo. A prática é conhecida pelo termo em inglês “unboxing” e ocupa uma área cinzenta em que o entretenimento se confunde com publicidade.

Enquanto as regras que determinam o que pode ou não ser usado como propaganda para crianças são reguladas de forma rígida em outras plataformas, no YouTube a situação é nebulosa. Em teoria, não existe na lei distinção entre internet, TV ou rádio. “Qualquer espécie de publicidade, seja qual for o meio que a veicule, inclusive plataformas digitais, deve seguir as recomendações da ética publicitária”, diz Gilberto C. Leifert, Presidente do Conar, por meio de nota. Mas no caso dos vídeos de “unboxing”, a situação raramente é muito clara. “Há contratos publicitários, mas a relação comercial é velada”, diz Renato Godoy, assessor de assuntos governamentais do Instituto Alana, responsável por programas como Criança e Consumo. Nessa discussão, as críticas não são dirigidas aos youtubers mirins, mas às empresas. “Muitas vezes, elas se valem da vulnerabilidade do público e do emissário”, afirma Godoy.

Evitar que os pequenos sejam contaminados pela necessidade de consumir é uma tarefa que exige dos pais um monitoramento maior dos hábitos digitais de seus filhos. “Precisamos, de tempos em tempos, ficar junto com as crianças para entender o que as fascina no YouTube”, diz Fernanda Furia, mestre em psicologia de crianças e adolescentes e fundadora da consultoria Playground da Inovação. E, segundo a psicóloga, é importante ajudar as crianças mais velhas a desenvolver uma inteligência emocional digital. “Ou seja, entender sobre os próprios hábitos tecnológicos e comportamentos nas redes sociais”, afirma.

“Qualquer espécie de publicidade, seja qual for o meio que a veicule, inclusive plataformas digitais, deve seguir as recomendações da ética publicitária” –  Gilberto C. Leifert, presidente do Conar

Fenômeno digital

O YouTube oferece uma liberdade aos pequenos que poucas vezes eles têm longe da tela do computador. Falar para a câmera e participar desse universo também é importante para o desenvolvimento delas no momento atual. “Essa maneira de se expressar favorece a sociabilidade da criança na internet. É um processo natural”, afirma Godoy.

O caso específico das bonecas L.O.L. é bastante expressivo porque elas são ótimas representantes da cultura do “unboxing”. Elas podem até ser pequenas, mas o tamanho não importa para as crianças. O que vale é a experiência de abrir cada uma das sete camadas que cobrem o brinquedo, revelando pequenas surpresas, roupas e adesivos para a boneca. “Eu amo puxar cada zíper das camadas, o suspense de abrir a minha própria L.O.L. e colecionar, mas também é muito legal ver os vídeos e acompanhar a surpresa e a empolgação de quem está abrindo. Isso tudo me diverte muito”, diz Luíza Sorrentino, do canal Crescendo com Luluca. Seu vídeo da boneca L.O.L. já teve 788 mil visualizações — o que confirma o fenômeno “unboxing” .