O Muro de Berlim já foi o símbolo máximo da divisão mundial, uma barreira de concreto de 155 quilômetros que separou famílias e ideologias por quase três décadas. Hoje, ele cabe na palma da mão e é vendido em cartelas de acrílico por alguns euros. O que muitos turistas não sabem, ao adquirir um pedaço dessa história, é o processo quase industrial — e esteticamente modificado — por trás dessas pequenas pedras.
Julian Sacha e seu irmão são os rostos à frente da Urban Products Sacha GmbH, a empresa que domina o mercado de souvenirs em Berlim. Dentro de galpões repletos de entulho, o que parece ser apenas resto de construção é, na verdade, um ativo financeiro precioso. “Dentro desta tenda estão os pedaços quebrados que já trituramos no verão passado”, revela Julian à reportagem.
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Resumo
A empresa Urban Products Sacha GmbH é a principal fornecedora de fragmentos autênticos do Muro de Berlim para lojas de presentes;
Para tornar as peças atrativas, a empresa pinta o concreto cinza original com spray colorido antes de fragmentá-lo;
O estoque provém de contratos de demolição firmados logo após a queda do regime, em 1990;
Estima-se que ainda existam peças originais suficientes para abastecer o mercado até 2031.
O “falso” que é verdadeiro
A maior polêmica em torno das lembrancinhas é a sua aparência vibrante. É raro encontrar um pedaço do Muro à venda que seja apenas cinza. Julian é transparente sobre a técnica: “É falso? Não, é de verdade! Mas nós pintamos com spray antes de quebrar em pedaços com marretadas”.
A explicação é puramente mercadológica. O concreto original, desgastado pelo tempo e pela poluição da antiga Berlim Oriental, é visualmente monótono. No imaginário do turista, o Muro deve carregar as cores do grafite e da rebeldia que marcaram o lado Ocidental. Como o material original muitas vezes perdeu a pigmentação original ou veio de seções internas que nunca foram grafitadas, a empresa aplica uma nova camada de cores para garantir que o produto “salte aos olhos” nas prateleiras. Sem o spray, o concreto histórico simplesmente não vende.
De entulho a herança familiar
O negócio começou por um golpe de sorte e visão empreendedora logo após o colapso do regime comunista. Em 1990, quando a demolição em larga escala teve início, Volker Pawlowski (sogro do irmão de Julian) assumiu um contrato de demolição que um amigo não queria cumprir. Em vez de descartar o material em aterros, Pawlowski percebeu que o mundo queria levar um pedaço daquela queda para casa.
Ao ser questionado se era uma loucura que o governo alemão pretendesse jogar tudo aquilo fora na época, Julian filosofa: “Se houvesse um muro entre os Estados Unidos e o México e ele caísse, talvez jogassem tudo fora também, em vez de usar como souvenir”. O valor, portanto, não está no concreto em si, mas na narrativa de liberdade anexada a ele.
O fim do estoque?
A pergunta que paira sobre Berlim é: até quando o muro original vai durar? Julian estima que o estoque atual de blocos maciços é suficiente para produzir fragmentos pelos próximos cinco anos. No entanto, a fonte não secou totalmente. A empresa monitora e recompra partes do antigo muro que foram parar em mãos de agricultores locais, que as usaram como material de construção ou cercas rurais nas décadas de 90.
Embora existam réplicas baratas feitas de gesso disponíveis no mercado, a Urban Products mantém sua credibilidade comercializando apenas pedras extraídas a partir do concreto original. A transformação de uma barreira que causou mortes e sofrimento em um item de decoração colorido é, talvez, a maior ironia do capitalismo sobre as ruínas do socialismo alemão.