Edição nº2603 14/11 Ver edições anteriores

A indústria das eleições

Estamos nos aproximando do oitavo pleito presidencial sob a égide da Constituição de 1988. Não há nada que comemorar. Basta acompanhar o elenco de pré-candidatos apresentados até o momento. É desesperador. Isso é produto da desmoralização da política. Não custa repetir que a sucessão de escândalos envolvendo políticos de quase todos os partidos, as regras eleitorais, que restringem a participação cidadã, e o alto custo das candidaturas transformaram o processo eleitoral em uma repetição enfadonha, a cada dois anos, do mesmo espetáculo, sem tirar nem por. É a reprise daquele filme que não gostamos e, até o momento, não podemos alterar o enredo, o roteiro, os atores. Resta assisti-lo com desinteresse. E, vez por outra, dormir.

A eleição é uma indústria. Hoje tem pouca relação com o funcionamento da democracia. Sua permanência está relacionada com os ganhos obtidos pelos mercadores da ilusão popular. E uma ilusão cara, muito cara. Envolve milhares de pessoas. Muito dinheiro circula — parte ilegalmente e a Lava Jato intimida os contraventores. Especialistas em ilusionismo — conhecidos como marqueteiros — vão dissertar sobre a importância da democracia para o País. Evitam tratar sobre a ética dos seus candidatos. Consideram um tema inconveniente. Querem é louvar seus clientes, transformá-los em estadistas tupiniquins, os Winston Churchill de chanchada, que não distinguem a coisa pública da coisa privada.

Esperava-se que a redemocratização de 1985 fosse edificar uma República digna do nome. Porém, o processo histórico acabou seguindo outro caminho. Hoje, a eleição – parte da democracia – virou um instrumento de proteger corruptos. Muitos dependem do mandato para garantir o foro privilegiado. Encontram nesse instrumento um mecanismo que permite mantê-los à salvo da ação da Justiça. Sabem que nas Cortes superiores de Brasília é possível operar para postergar ad eternum um processo. E assim podem manter-se à solta cometendo novos e rendosos crimes.

O sistema está esgotado. Assistimos à sua agonia. Pode ser lenta. Mas pode também ser abreviada. O que é inequívoco é a falência do Estado democrático de Direito edificado pela Constituição de 1988. Será substituído, é inevitável. Mas como? Por quem? Nem os falastrões dos marqueteiros conseguem prever.


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