Comportamento

Indígenas fazem leilão de obras em NFT para comprar equipamentos de vigilância contra invasores da floresta

Povo indígena Paiter Suruí promove leilão de obras de arte no formato digital NFT para financiar equipamentos de proteção às florestas. Estratégia já arrecadou R$ 50 mil

Crédito: Nigel Dickinson

TECNOLOGIA Vigilância tecnológica: dinheiro arrecadado vai comprar drones e computadores (Crédito: Nigel Dickinson)

RAÍZES Moara Tupinambá, uma das artistas que cederam obras para o leilão: “a arte é o nosso novo arco e flecha” (Crédito:Divulgação)

Em 1960, Haroldo Lobo e Milton de Oliveira entoavam na famosa marchinha de carnaval: “índio quer apito/ se não der pau vai comer”. O artefato sonoro, no entanto, não é mais o único desejo dessas comunidades há um bom tempo. Já compreenderam que precisam lutar para manter suas identidades, conseguir a demarcação de terras e garantir proteção para as florestas onde vivem – e sabem que tudo isso tem um custo financeiro. Por mais irônico que possa parecer, o povo Paiter Suruí, de Rondônia, recorreu à tecnologia para resolver seus problemas. A comunidade realizou um leilão com oito obras de arte em formato NFT, produzidas por artistas parceiros e membros da própria tribo, e o sucesso já levou à organização de novo evento semelhante.

NFT é a sigla para o formato non-fungible tokens, nova forma de comercialização artística cada vez mais popular no mercado de arte. São chaves eletrônicas que garantem a originalidade e veracidade de uma obra digital. O objetivo com a operação dos NFTs indígenas é arrecadar fundos para patrocinar iniciativas sustentáveis, proteger as áreas em torno da comunidade e comprar equipamentos de vigilância, como drones e computadores para geoprocessamento. “Somos pioneiros há décadas em utilizar a tecnologia não-indígena como uma ferramenta de mobilização e luta por nossos direitos. Fomos os primeiros a utilizar urnas eletrônicas para escolher a liderança de nosso território”, afirma o cacique Almir Suruí.

NATUREZA Liberdade de Sentir: obra da fotógrafa Pí Suruí retrata o cotidiano da comunidade (Crédito:Divulgação)

A coragem de olhar para o futuro é uma característica da tribo. Almir é pai de Txai Suruí, de 24 anos, que em outubro de 2021 se tornou uma das principais lideranças ambientais no mundo: ela foi a primeira mulher indígena a discursar na abertura de uma grande conferência internacional, a COP-26, na Escócia. Txai cuida da parte tecnológica das tribos localizadas nas regiões de Rondônia e Mato Grosso. É a responsável pelos drones, computadores e sistemas de GPS que monitoram as áreas de desmatamento ilegal, grilagem e invasões. “Nossa imagem é vinculada à pobreza. Se usamos um celular ou viajamos para o exterior, nos acusam de deixar de ser indígenas. As pessoas veem o progresso e o desenvolvimento como destruição. Para nós, a floresta vale muito mais em pé do que derrubada”, diz. Pai e filha afirmam que a ideia do leilão começou a tomar forma quando perceberam a falta de representatividade indígena no resto do País. “As pessoas só se lembram dos índios quando tratam de temas ligados à Amazônia, mas, entre nós, há atores, cantores, pintores e artesãos.”

Oito artistas cederam obras para o o evento com o objetivo de ajudar a causa. Entre eles está Moara Tupinambá, natural de Mairi, perto de Belém, no Pará. Ela faz parte da primeira geração dos Tupinambás a nascer na cidade grande, mas continua a valorizar as raízes de seu povo. Sua arte mescla pintura e colagens fotográficas. Retrata, principalmente, mulheres de diversos povoados indígenas. Para o projeto, Moara quis retratar a força dos povos originários de Abya Yala. A obra foi arrematada por R$ 5 mil: “Esse projeto vai fortalecer nossas florestas e nos ajudar a proteger esse tesouro da humanidade. A arte é o nosso novo arco e flecha”, diz Moara.

NFT Simulation, de Paula Klien: novo formato de obras digitais ganha cada vez mais adeptos no mercado de arte (Crédito:Divulgação)

O leilão contou também com artistas de fora da comunidade. Os NFTs Simulation e Error foram criados pela artista plástica carioca Paula Klien, que costuma buscar inspiração no que ela chama de “as forças da natureza”. “Tenho vontade de fazer parte da cura da terra e ajudar nos problemas do planeta”, explica a artista, cuja obra foi vendida por R$ 7 mil. Ao todo, as oito obras arrecadaram R$ 50 mil – 95,5% desse total será revertido ao Projeto de Gestão e Vigilância Territorial do Povo Indígena Paiter Suruí. A meta é obter recursos para conservar a área de 13 mil hectares da terra indígena Sete de Setembro, área em um território que compreende mais de 280 mil hectares. “O resultado vai ajudar muito o povo Suruí. Além disso, representa a criação de uma fonte permanente de financiamento que pode beneficiar outras causas e organizações”, afirma Fabrício Tota, diretor do Mercado Bitcoin, corretora que intermedia a compra e venda das criptomoedas usadas para comprar as obras em formato NFT. O cacique Almir Suruí aprovou a tecnologia: o próximo leilão será em março e terá a participação de 12 artistas.