Comportamento

Indígenas sofrem com volta da malária à Venezuela

Indígenas sofrem com volta da malária à Venezuela

Menina da etnia yukpa descansa em rede perto da avó (fora da foto), deitada com febre pela malária, em sua casa na comunidade Los Ángeles del Tukuko, perto de Machiques, estado de Zulia, Venezuela, em 11 de junho de 2019 - AFP

A densidade da selva venezuelana não lhe dá calor. Na verdade, José Gregorio sente frio. “Dói o corpo, a cabeça, tenho febre”, queixa-se este indígena. O diagnóstico: malária, um mal erradicado há anos entre os yukpa, mas que voltou com a crise, assim como no restante da Venezuela.

“Começou a se sentir mal, os ossos doíam, começou a vomitar, não comia. Agora já está há quatro, ou cinco dias sem comer”, relatou sua mulher, Marisol.

O bebê de ambos, Gregorio José, de quatro meses, balbucia algo junto ao pai na cama.

El Tukuko, um povoado ao pé das montanhas que cruzam a fronteira com a Colômbia, com 3.700 habitantes, é o maior assentamento de indígenas yukpa.

E, como diz Marisol, a malária está “de volta”, do mesmo modo que em toda Venezuela, um país que até agora era considerado o primeiro no mundo a erradicar a doença em 1961.

– “Pandemia” –

Não há estatísticas oficiais sobre a malária em El Tukuko, nem sobre o número de mortes causadas até agora.

Na sala da missão católica onde atende, o médico Carlos Polanco afirma que, de cada dez pessoas que vão ao laboratório para fazer teste para malária, “entre quatro, ou cinco, saem positivo, ou até mais. É um número alarmante”.

Nelson Sandoval, um religioso capuchinho que preside a missão, acrescenta: “Antes de ser frade, conhecia esta comunidade e nunca tinha visto nenhum caso de malária aqui. Isso é uma pandemia”.

El Tukuko está sendo afetado pela Plasmodium vivax, uma forma de malária menos letal do que a outra cepa, Plasmodium falciparum, que prevalece nas regiões amazônicas do sudeste da Venezuela.

Segundo Sandoval e Polanco, a razão da volta da doença é simples. Há alguns anos, o governo venezuelano enviava regularmente funcionários para fazer a fumigação. A fumaça atacava os mosquitos Anopheles, transmissores da malária, e a doença estava sob controle.

Estas campanhas de fumigação foram paralisadas, de acordo com Sandoval, aumentando a população de mosquitos. “A malária veio correndo”, afirmou ele.

A isso, soma-se a desnutrição.

“Antes, (os yukpa) variavam seu consumo, porque havia um pouco mais de acessibilidade aos insumos. Mas agora não é fácil variar. A situação de inflação não permite”, explica Polanco.

“E eles se contentam com consumir o que cultivam, como mandioca e banana”, exemplifica.

Hoje, El Tukuko é a imagem da propagação da malária na Venezuela.

A situação é “catastrófica” para Huníades Urbina, médico e secretário da Academia Nacional de Medicina. Segundo ele, em 2018, “houve 600.000 (casos) e as sociedades científicas estimam que, em 2019, vá chegar a pelo menos um milhão de pessoas afetadas”.

São apenas estimativas, porém, porque “o governo esconde esses números”, disse Urbina.

– Sem resposta –

A expansão da malária caminhou de mãos dadas com o aprofundamento da crise. Em Zulia, os postos de gasolina estão secos há semanas. Os cortes de energia são comuns, e os moradores fogem para o exterior aos milhares.

A falta de perspectiva também intensifica a mobilidade interna da população. E, quando voltam para casa procedentes de áreas infectadas com malária, alguns espalham a doença.

Em El Tukuko, a médica Luisana Hernández se desespera ao pedir alguma ajuda do governo. “A cada dia a deterioração é maior”, desabafa.

Os refrigeradores para o armazenamento de vacinas não funcionam. Embora a equipe conte com um gerador elétrico, o aparelho não pode funcionar por falta de combustível.

Sem possibilidade de trazer medicamentos da cidade e sem recursos para prevenção, erradicar a malária parece uma tarefa quase impossível.

Sandoval tenta fazer isso com os parcos recursos disponíveis. Graças à ONG católica Cáritas e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a missão distribui medicamentos de cloroquina e primaquina contra a malária para os yukpa doentes.