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Indígenas reativam a revolta contra os pacotes do FMI no Equador

Indígenas reativam a revolta contra os pacotes do FMI no Equador

Manifestantes nos arredores da Assembleia Nacional, em Quito, em 8 de outubro de 2019 - AFP

Milhares de homens e mulheres que dizem estar em pé de guerra. Eles exalam desconfiança. Depois que se acreditou que sua revolta fora controlada, os indígenas estão novamente nas ruas de Quito para combater um velho adversário: os “pacotes do FMI”.

Nesta quarta-feira (9), o movimento indígena equatoriano, que esteve por trás da derrubada de três governos entre 1997 e 2005, mostra sua força.

Após ter avançado sobre Quito vindos de vários pontos dos Andes, eles se instalaram em El Arbolito, um parque perto das sedes desocupadas do governo e do legislativo.

Ali, eles velavam suas armas, varas e flechas, antes da grande mobilização que convocaram contra o governo de Lenín Moreno e sua decisão impopular de desmontar os subsídios aos combustíveis.

A medida, que fez os preços do diesel e da gasolina dispararem 123%, faz parte de um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter empréstimos bilionários para aliviar a falta de liquidez da economia, dolarizada e endividada.

“Não é possível que um governo neoliberal venda o sangue de nosso povo ao FMI e por isso nos declaramos em luta indefinida. Não ao pacotaço!”, disse Jaime Vargas, presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie).

Moreno tentou, sem sucesso, conter a marcha para a capital por meio de um regime de exceção e por deslocamento de militares.

Mas, por fim, o mandatário moveu temporariamente a sede do governo de Quito para Guayaquil, a 270 km, diante do assédio ao palácio presidencial de Carandolet.

– Hostilidade com a imprensa –

A resistência indígena, como se referem a si mesmos, conseguiu em 2006 cancelar a negociação de um tratado de livre-comércio com os Estados Unidos.

Também derrubou os governos de Abdalá Bucaram (1996-97) e de Jamil Mahuad (1998-2000) por ajustes econômicos acordados com o FMI.

E eles usaram a mesma estratégia: marchando, bloqueando e enfrentando os militares sem temor.

Desde a chegada da esquerda ao poder em 2007, os povos originários não se mobilizavam com tanta força. Contudo, o governo reativou sua ira ao fazer um acordo com o FMI.

De estatura média, Vargas é um dos poucos líderes que fala com a imprensa. A maioria dos indígenas desvaloriza a imprensa pelo que consideram uma cobertura “mínima” de suas queixas.

Eles são avessos a câmeras e microfones. As emissoras locais precisam ter seus postos de transmissão a cerca de 550 metros de El Arbolito.

Na segunda, os indígenas tinham entrado vitoriosos, brandindo wipalas (bandeiras de arco-íris) e depois de caminhar pelo centro do país e enfrentar as forças militares na base de pedras e organização.

Em Quito – semiparalisada pelos protestos -, eles encontraram solidariedade. Mãos generosas lhes abasteceram com mantimentos.

Os indígenas, que representam 25% da população equatoriana de 17,3 milhões, vão ficar em Quito indefinidamente.

As “huarmis” (mulheres, em quéchua) protestam lado ao lado dos homens, além de se responsabilizarem pela alimentação.

E os “caris” (homens, neste idioma) agem como sentinelas do acampamento improvisado, rodeando o parque em grupos, vigiando e evitando a aproximação de estranhos.

– Guerreiros ancestrais –

Eles só deixam chegar perto os “mestiços” que lutam ao seu lado. Nesta terça, em uma demonstração de seu poderio, conseguiram chegar até a sede do legislativo. Um grupo chegou a entrar no hemiciclo, mas foi retirado por agentes.

Nem o gás lacrimogênio parece demover seu espírito combativo.

“Os shuar e achuar da Amazônia; os kichwas somos guerreiros; os arutam, os iwias somos quem defendemos a pátria”, afirmou Vargas, exibindo orgulhoso um penacho de guerra.

Em Quito, os militares se mantêm distantes do espaço indígena – preferem aguardar para conter suas investidas fora do parque.

“Somos povos historicamente guerreiros que nos libertamos em todos esses processos”, lembrou o líder achuar.