Saúde da mulher

Incontinência urinária: tudo o que você precisa saber sobre a condição que atinge 45,5% das mulheres no Brasil

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Você já teve suas tarefas do dia a dia atrapalhadas por uma constante necessidade de urinar? Já precisou interromper viagens de carro e abandonar reuniões ou aulas para ir ao banheiro? Ou ainda, já teve perdas involuntárias de urina e só percebeu quando notou que sua roupa íntima estava molhada? Apesar de comuns, esses sintomas não devem ser considerados normais.

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De acordo com o Brasil LUTS — primeiro grande estudo de base populacional realizado para avaliar sintomas do trato urinário inferior (LUTS) no país —, 45,5% das mulheres sofrem com a incontinência urinária. No entanto, cerca de 60% delas nunca procuram um diagnóstico clínico.

O que é a incontinência urinária?

Trata-se de uma condição de saúde que consiste em sintomas como vontade excessiva de urinar e a constante perda involuntária de urina. Pode ser classificada em dois tipos:

• Incontinência urinária por esforço: quando a paciente sofre escapes de urina involuntários ao tossir, espirrar, rir e se movimentar. É o tipo de incontinência urinária mais comum, com 20,4% dos casos, segundo o Brasil LUTS;

• Incontinência urinária por urgência: também conhecida como bexiga hiperativa, é caracterizada por uma vontade repentina e incontrolável de urinar. Segundo o mesmo estudo, esse tipo afeta 14,9% das mulheres.

Portanto, se você sofre de sintomas como esses, mantenha-se alerta: eles não são normais. A urologista Fernanda Girardi sofre da condição, e conta que não se atentou aos sinais até o momento de sua especialização, quando se identificou com os sintomas relatados pelas pacientes no consultório. “Quando eu tinha 20 e poucos anos, eu ia muito ao banheiro, mas achava que eu era ‘mijona’”, brinca. “Eu percebia que em alguns momentos eu ia muito mais [ao banheiro], como quando eu ficava ansiosa ou quando ingeria bebidas específicas, como café e energético.”

Thais Bernardes, professora de inglês e farmacêutica bioquímica, revela ter passado por uma situação semelhante. “A bexiga hiperativa me incomodava no meu cotidiano; mas, durante muitos anos, eu achei que minha bexiga fosse ‘pequena’.” Ela conta que evitava ingerir líquidos durante as aulas que ministrava — o que afetava, entre outros aspectos, sua saúde vocal — para evitar as visitas ao banheiro. Mesmo assim, era necessário trocar sua roupa íntima até três vezes ao dia, por conta dos vazamentos. 

A professora compartilha, ainda, que tentava “segurar” a bexiga involuntariamente, o que lhe rendeu uma síndrome miofascial (dor muscular regional) e, consequentemente, fortes dores na pélvis. Para isso, lhe foi indicada a fisioterapia pélvica.

O que causa incontinência urinária?

A idade é o fator mais comum relacionado à condição. No entanto, gestação, trabalho de parto, obesidade e doenças que comprimem a bexiga, como cistite e câncer, também são responsáveis pelo enfraquecimento do assoalho pélvico — conjunto de músculos responsáveis por sustentar a bexiga, uretra e útero —, o que pode ocasionar a perda de urina. 

No caso da incontinência urinária por urgência, Fernanda explica: “A bexiga hiperativa não tem uma causa definida. Algumas coisas a desencadeiam, mas não são as causas. Às vezes, descobre-se muito jovem, mas é comum que isso aconteça com o passar da idade.”

Como é o diagnóstico?

Ainda segundo a urologista, o diagnóstico da condição é clínico, e daí vem a importância de deixar a vergonha de lado e procurar um especialista.

“Falar sobre os sintomas do trato urinário está no topo da lista dos tópicos que geram maior desconforto entre as pessoas, principalmente entre as mulheres. Essa vergonha e o estigma que gira em torno da condição pode retardar a procura por um urologista para que seja feito o diagnóstico correto. Por isso, é importante saber que a incontinência urinária pode ser tratada, a fim de melhorar qualidade de vida, autoestima e bem-estar”, declara o urologista e gerente médico sênior de urologia na Astellas Farma Brasil, Marcos Freire.

Tratamento

Cristiano Gomes, urologista, professor livre docente de urologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e Chefe de Clínica do HCFMUSP, explica que o tratamento da incontinência urinária deve ser direcionado conforme o tipo de incontinência.

“Na incontinência urinária de esforço, o tratamento, geralmente, é focado em fortalecer o esfíncter e assoalho pélvico. Em casos nos quais o fortalecimento não é suficiente, as cirurgias são a principal opção”, conta. Ele cita a cirurgia sling — termo em inglês para “alça” —, que se baseia na colocação de uma fina fita de tecido sintético embaixo da uretra, local de sustentação.

No caso da incontinência urinária de urgência, além da fisioterapia pélvica, Cristiano garante que existem bons medicamentos para tratamento. E completa: “No caso em que os remédios não são suficientes, existe o uso da toxina botulínica, que relaxa a musculatura da bexiga e impede a urgência. Além disso, também existe um marca-passo vesical, um estimulador que mantém o controle da bexiga e é colocado por meio de uma cirurgia simples.”

Sem terem tido a necessidade de intervenções cirúrgicas até o momento, Fernanda e Thais relatam seu sucesso com os medicamentos. “Foi libertador, uma mudança de vida. Eu fiquei muito impressionada”, conta a médica, que explica que a condição tem períodos de melhora que podem dispensar o tratamento medicamentoso. “De tempos em tempos, a paciente acaba precisando tomar a medicação de forma controlada, por um período limitado.”

A importância da fisioterapia pélvica

Cristiano explica a importância do assoalho pélvico na sustentação dos órgãos pélvicos: “Quando ele está fraco, pode haver a tal da ‘bexiga caída’, ou prolapso. Além disso, ele tem uma grande importância no mecanismo de continência urinária, visto que ajuda a fortalecer o esfíncter uretral, que é o músculo que segura a urina”, explica.

Sendo assim, fortalecer o assoalho pélvico pode ajudar a melhorar o controle da incontinência urinária, especialmente para mulheres que sofrem por incontinência urinária de esforço, já que não existem medicamentos para o tratamento desse tipo. 

Segundo o especialista, os exercícios de fortalecimento podem ser feitos em casa, mas devem ser indicados previamente por um fisioterapeuta. Além disso, a prática doméstica não isenta a necessidade de consultas regulares em sessões de fisioterapia

Cuidados especiais para gestantes

De acordo com a Astellas Farma Brasil, vivenciar os sintomas de incontinência urinária após a gestação é um sinal de alerta. Isso porque durante a gravidez, os músculos do assoalho pélvico precisam sustentar o útero com o peso do bebê em formação. “O mecanismo de continência da mulher, bem como o esfíncter e a musculatura pélvica, sofre uma compressão, afetando a vascularização e a inervação da região e gerando lesão ou fraqueza da musculatura. Por isso, a gestação é considerada um fator de risco para incontinência urinária. Além disso, durante o parto vaginal pode haver uma lesão nas estruturas de continência e esfíncter, podendo gerar incontinência urinária no pós-parto”, pontua Marcos.

Por isso, Cristiano ressalta que a fisioterapia preventiva é válida para gestantes: “Fazer a fisioterapia pélvica previamente pode ajudar na recuperação [pós-parto] e, muitas vezes, é também necessário realizar uma fisioterapia complementar após dar à luz.”