A controvérsia sobre a liberdade religiosa e a integração de mulheres muçulmanas em piscinas públicas volta a agitar a Itália, com a decisão da piscina pública do Lido di Salorno, na província autônoma de Bolzano, de reservar uma hora semanal exclusivamente para elas. A iniciativa, que visa promover a inclusão de mulheres que, por motivos religiosos ou culturais, normalmente não frequentam esses espaços, gerou um intenso debate entre autoridades e partidos políticos desde sua implementação, em 27 de julho.
O que aconteceu
- A inclusão de mulheres muçulmanas em piscinas públicas gera debate na Itália após medida de Salorno.
- A iniciativa da piscina do Lido di Salorno reserva uma hora semanal para mulheres que não frequentam o local por razões religiosas ou culturais.
- A decisão provocou forte reação de partidos de direita, que a veem como segregação, enquanto defensores citam respeito e inclusão.
Promovida pela administração da piscina em parceria com a associação Armonia, a medida dividiu autoridades, partidos políticos e representantes religiosos. O acordo foi firmado pelo gerente da instalação, Luca Lechthaler, com o objetivo declarado de ampliar a participação de mulheres que, por suas convicções, não frequentam piscinas públicas.
Durante o horário reservado, as participantes poderão utilizar burquínis e terão acesso exclusivo ao espaço, logo após o encerramento do atendimento ao público geral. A proposta recebeu apoio da associação Armonia e do prefeito de Salorno, Roland Lazzeri, que classificou a medida como uma oportunidade para promover a inclusão de uma parcela da população tradicionalmente ausente das atividades esportivas e recreativas do município.
Por que a medida causa controvérsia?
Entretanto, a iniciativa provocou forte reação de partidos de direita. A vice-secretária da Liga, Silvia Sardone, criticou a decisão, afirmando que a medida é “uma escolha insensata que não promove a inclusão, mas sim alimenta a segregação”.
Em nível local, partidos como a Liga do Tirol do Sul, Irmãos da Itália (FdI) e Futuro Nacional Bolzano denunciaram o que chamaram de “integração ao contrário”, argumentando que reservar espaços públicos para um grupo específico compromete o princípio da igualdade de acesso.
Em defesa do projeto, o teólogo don Paolo Renner, diretor do Instituto Superior de Estudos Religiosos de Bolzano, afirmou que a iniciativa está alinhada com valores de respeito e convivência. “A ideia cristã nos fala de respeito, ou seja, de atender às necessidades dos outros em questões onde há espaço para flexibilidade”, explicou à ANSA. Renner acrescentou ainda que, “em uma comunidade multicultural como Salorno, onde a convivência prospera, seria uma pena arruinar esse clima positivo com alguma controvérsia estéril”.
Casos semelhantes e a polarização política
A polêmica não é inédita na região. Em 2009, o Lido de Bolzano esteve no centro de um intenso debate quando o então prefeito Luigi Spagnolli admitiu a possibilidade de criar horários exclusivos para mulheres muçulmanas. A proposta enfrentou forte resistência e acabou sendo abandonada.
Experiências semelhantes também foram registradas em Bergamo, onde uma piscina ligada à diocese reservava um horário semanal apenas para mulheres, permitindo que frequentadoras muçulmanas utilizassem o espaço de acordo com suas convicções religiosas. Enquanto isso, cidades como Viena e Munique já adotam há vários anos horários ou áreas exclusivas para mulheres em determinadas instalações públicas. De acordo com os administradores locais, esses espaços atendem não apenas mulheres muçulmanas, mas também vítimas de violência, pessoas com deficiência e mulheres que preferem ambientes exclusivamente femininos.
O tema também voltou ao centro do debate político após outra iniciativa semelhante anunciada em Roma. A piscina municipal de Tor Tre Teste programou horários exclusivos para mulheres durante o mês de agosto, em cooperação com a comunidade islâmica local.
No entanto, a medida foi criticada pelo vice-presidente da Câmara dos Deputados, Fabio Rampelli (Irmãos da Itália), que afirmou que a decisão representa uma forma de introdução de normas inspiradas na Sharia em espaços públicos italianos. Rampelli anunciou que apresentará um questionamento formal aos ministros do Interior, Matteo Piantedosi, e do Esporte, Andrea Abodi. Além disso, declarou que impedir a entrada de homens em determinados horários de uma piscina pública configura “discriminação de gênero” e questionou a compatibilidade da iniciativa com os princípios de igualdade previstos na legislação italiana.