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Incêndios no Pantanal: “Esperando ajuda do céu”

Crédito: Lawrence Wahba/Divulgação

Dia 17 de setembro tinha tudo para ser um grande dia no Parque Estadual Encontro das Águas, local com a maior concentração de onças-pintadas do mundo: “Se Deus quiser as 15:30 estamos voltando pra casa com o incêndio do Parque controlado”, comentou o tenente-coronel Sandro Rogério Arruda, do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso.

O incêndio que se originou com os raios de uma tempestade isolada na noite de 3 de setembro incinerou 7 mil hectares do Parque e de uma fazenda vizinha estava perigosamente próximo da Pousada Recanto do Jaguar.


Fazia alguns dias que equipes do Corpo de Bombeiros-MT, Força Nacional e SEMA, com reforços de brigadistas, veterinários e voluntários de ONGs, esperavam o apoio de aviões de combate a incêndios da defesa civil para entrarem em ação, porém desde o dia anterior a tão alardeada operação mais parecia um daqueles memes de “expectativa vs realidade”.

Fotos Lawrence Wahba/Divulgação

Apesar de o governo de MT ter anunciado em maio uma verba de 73 milhões de reais para o combate dos incêndios, os prometidos aviões eram esperados desde a véspera, quando cheguei a área de incêndio com a equipe do tenente-coronel Sandro, aliás, por incrível que pareça ninguém da equipe conhecia o rio e eu, de fotografo/repórter acabei “promovido” a co-piloto e graças as minhas mais de 30 expedições a região chegamos em segurança desviando de bancos de areia, pedras e galhos. Já a equipe de brigadistas que saiu dez minutos depois não teve a mesma sorte. O barco capotou e embora ninguém tenha se ferido, perderam equipamentos de combate a incêndio e itens pessoais como celulares, documentos e câmeras fotográficas.

Chegando à pousada, um total de 15 homens e uma mulher era tremendamente menor do que se esperava para combater incêndio de tamanha proporção. O clima era de improviso, bombeiros se empilhavam num alojamento precário; o drone de reconhecimento não conseguia decolar pois necessitava de atualização de software; e não havia veículos para levar a equipe até o local do incêndio. Uma pequena moto 125cc de um funcionário da pousada levava os bombeiros, de um em um, até um aceiro – estrada aberta para impedir o fogo de se aproximar.

Ao meio-dia, horário em que as labaredas crescem, havia apenas dois combatentes vigiando o aceiro. O fogo cruzou e não fosse o subtenente Souza Lima, da Força Nacional, junto com um bombeiro do Mato Grosso, o incêndio iria atingir a Pousada.

Naquele dia não houve combate e o fogo continuou consumindo o Parque e a Fazenda Novo Alaska.

Na manhã seguinte os aviões estavam prometidos para as 7am, consegui carona num barco da Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso e estava lá no amanhecer com a promessa de que os aviões chegariam imediatamente. Uma velha caminhonete de um fazendeiro que pediu para não citar seu nome esperava desde o nascer do sol, mas as 10:30, não havia nem sinal dos aviões. Decepcionado o fazendeiro me disse que se saíssem as 6am poderiam controlar o fogo facilmente.

As 13hs eu e mais alguns fotógrafos embarcamos na caçamba da caminhonete do fazendeiro até o local do incêndio junto com veterinários que buscavam animais feridos. Finalmente a operação ia começar, em pleno sol do meio-dia, a 40 graus de temperatura. Nosso drone mostrava um incêndio de grandes proporções. Depois de 4hs no sol, sem nenhum bombeiro, um aviãozinho sobrevoou a área. O sol se pos sem nenhum combate. Frustrado voltei para minha pousada.

No dia seguinte os aviões partiram da pista do Porto Jofre. A imprensa não teve acesso ao combate. Encontrei os bombeiros no porto que me garantiram que o incêndio estava controlado, duas fontes que não quiseram se identificar disseram que era mentira. No dia 19 de setembro o Parque amanheceu cinza pela fumaça, confirmando a versão das minhas fontes.

Acabar com esse incêndio seria apenas uma batalha ganha numa guerra perdida. Afinal dados do boletim de queimadas do INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais) mostram que apenas neste mês houveram 1077 focos de calor no Pantanal e nesse ano já foram queimados 900.000 hectares no bioma, uma área 6 vezes maior do que a cidade de São Paulo,[1] número bem inferior aos cerca de 4 milhões queimados no ano passado, mas bem acima da média histórica e com tendência a crescer nas próximas semanas. Pelo jeito essa guerra só será vencida com a chegada das chuvas torrenciais, que costumam vir no fim de outubro ou começo de novembro, a ajuda dos céus que estamos esperando, é a “ajuda de São Pedro”.

[1] 930 mil hectares = 9.300km2; área cidade São Paulo = 1521km2

[1] 930 mil hectares = 9.300km2; área cidade São Paulo = 1521km2