Imunização de rebanho é genocídio

O Brasil atingiu meio milhão de mortos por Covid-19. É a triste confirmação de uma tragédia anunciada, antecipada já nas primeiras declarações do presidente da República que subestimou a gravidade da doença, apelidada de “gripezinha”.

Enquanto o vírus amoral segue ceifando vidas e a vacinação se arrasta a passos tardios, a CPI que apura imoralidades durante a pandemia completa dois meses. Um dos pontos chaves da investigação é desvendar se Jair Bolsonaro adotou a imunização de rebanho como estratégia pra conter a pandemia.

No meio científico, a estratégia é tida, no mínimo, como antiética. Foi classificada como “falácia perigosa” por um grupo de pesquisadores que assinaram uma carta aberta em 2020, publicada na renomada revista The Lancet. A imunização coletiva por propagação livre do patógeno tem um custo muito alto, calculado em vidas. Levando em conta a letalidade do Sars-Cov-2, quase 1,5 milhão de pessoas morreriam no Brasil caso a estratégia fosse totalmente adotada.

Mas, para especialistas e gestores de saúde, foi exatamente isso o que ocorreu em Manaus – um experimento a céu aberto, nos moldes da “ciência nazista”, que chegou a usar prisioneiros como “criadouro” de vírus como varíola, tifo e febre amarela.

A imunização coletiva por propagação livre do patógeno tem um custo muito alto, calculado em vidas

Segundo o epidemiologista da Fiocruz, Jessem Orellana, após dois surtos incontroláveis, Manaus se tornou a capital mundial da Covid.

À CPI, depoentes e testemunhas têm afirmado, em tom quase uníssono, de que foi criado, no Amazonas, um ambiente mais que propício à proliferação do Coronavírus, com a ausência de medidas sanitárias, estímulo à aglomeração e adoção do tal tratamento precoce, de que foi garoto-propaganda o próprio presidente.

Some-se a isso, a inação do governo quando, no auge do caos sanitário, os hospitais amazonenses ficaram sem oxigênio, o que precipitou a morte de milhares de pacientes. Para o presidente da CPI, Omar Aziz, que perdeu um irmão para a doença, ”o povo foi cobaia”.

Como ovelhas para o matadouro, os brasileiros foram conduzidos à morte por um líder que não quis pagar o preço da vacina.

Se comprovada a responsabilidade do presidente, ele pode responder por homicídio com dolo eventual. Mas, no caso muito específico de Manaus, há suspeita do cometimento de genocídio, um crime ainda mais grave, que é o extermínio deliberado de uma comunidade, grupo étnico ou religioso.

O azar de Bolsonaro é que em Haia, onde se julgam crimes contra a humanidade, o presidente não poderá contar com a mãozinha de um PGR.


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