Artes Visuais

Imprensa livre e hackeada

Trabalhos que articulam a produção, a distribuição e o controle da informação, realizados entre os anos 1950 e 2000, compõem a mostra “Arte-veículo”

Imprensa livre e hackeada

“Clandestinas” (1975)

ARTE-VEÍCULO/ SESC Pompéia, SP/ até 2/12

” A situação social, politico, econômica e cultural brasileira…”, começa Geraldo Anhaia Mello, na posição clássica do âncora de telejornal, antes de dar um gole de cachaça. Em oito minutos diante da câmera, até que termine de beber todo o conteúdo da garrafa, o artista desconstrói a pose, repetindo a mesma frase sem desfecho. O vídeo “A Situação”, de 1978, é uma das primeiras obras de videoarte realizadas no Brasil, e é um tapa na cara do público, ao encenar a situação social, politica, econômica e cultural sem solução que acontece hoje, 40 anos depois. A obra é um dos cerca de 200 trabalhos expostos em “Arte-veículo”, curadoria de Ana Maria Maia, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

“A Situação” (1978)

A mostra é o resultado de uma pesquisa de cinco anos sobre intervenções artísticas em meios de comunicação, dos anos 1950 até os anos 2000. Ao longo do processo, a pesquisa rendeu um livro (feito com uma Bolsa de Estímulo às Artes Visuais, em 2014, quando a Funarte ainda apoiava as artes visuais) e também uma curadoria para uma revista digital que traçava um panorama do sistema das artes brasileiras para o público internacional (‘”Plataforma”, 2014, edição seLecT e Latitude). Ana Maria Maia inseriu na publicação obras-anúncios, ocupando espaços que seriam destinados à publicidade, caso a revista não tivesse tido um único patrocinador. O tempo prolongado de pesquisa se reflete diretamente no resultado da exposição, que se afirma como um dos mais potentes e completos exercícios de reflexão sobre as relações entre a arte e os veículos de comunicação. Vai de Glauber Rocha a Leonilson, passando por Neide Sá, Eduardo Coutinho, Lenora de Barros, Eder Oliveira e o coletivo a Revolução não será Televisionada.

Os trabalhos estão divididos em sete diferentes estratégias adotadas por artistas para se relacionar com a mídia de massa brasileira. São elas: perder-se, sair às ruas, duelar, hackear, ouviver, ficcionalizar e experimentar a linguagem. Embora se possa dizer que em muitos casos as relações entre arte e mídia sejam “amigáveis” – em casos de trocas de papéis, experimentações e negociações –, as ações hackers são preponderantes na exposição. No núcleo “hackear” estão reunidos basicamente coletivos de mídia tática que surgiram nos anos 2000. Porém, os hackers se espalham por todo a generosa área de convivência do Sesc Pompeia, e se comunicam ao logo dos maravilhosos lagos comunicantes da arquitetura de Lina Bo Bardi.

PIONEIRISMO “A Corda” (1967), instalação de Neide Sá: apropriação da mídia

“Ocupar um espaço à revelia do que está programado para ele é hackear”, define Ana Maria Maia à ISTOÉ. “Assim sendo, Flávio de Carvalho é um hacker original, ao se infiltrar no programa de entrevistas de Tonia Carreiro, na televisão, para disseminar seu programa moderno”. Antonio Manuel e Cildo Meireles, posicionados no núcleo “perder-se”, que diz respeito às infiltrações em grandes sistemas, também podem ser considerados hackers antes dos hackers. Manuel com a ação “Clandestinas” (1975), em que modifica as chamadas de capa de um reparte do jornal “O Dia”, disseminando frases nonsense para o grande público, como “Pintor ensina Deus a Pintar”, ou “Pintor mostra Pós-arte”. E Cildo com seu seminal “Inserção em Circuitos Ideológicos”, em que coloca para circular frases de ativismo político em produtos de consumo de massas. Nas mãos desses artistas, a imprensa se torna, à sua revelia, inquestionável território de liberdade liberdade.

Roteiros
Educar para e com diversidade

2º SEMINÁRIO E PRÊMIO SELECT DE ARTE E EDUCAÇÃO/ 11 e 12/9/ Centro Cultural Banco do Brasil DF, Brasília

250 Artistas e formadores de 17 estados brasileiros se inscreveram no 2º Prêmio seLecT de Arte e Educação, que terá sua etapa final em Seminário aberto, a ser realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, nos dias 11 e 12 de setembro. Na ocasião, os autores dos seis projetos finalistas terão a oportunidade de apresentar suas realizações para o público e um júri de especialistas, formado por Giselle Beiguelman, artista e professora da FAU-USP; Cayo Honorato, professor do Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da UnB; Mario Ramiro, artista e professor da ECA-USP, e Ana Avelar, crítica e professora de Teoria, Crítica e História da Arte na UnB. Dois projetos serão premiados com R$ 20 mil cada: um na categoria Artista, outra na categoria Formador.

“Os finalistas do Prêmio seLecT destacam em suas propostas novas abordagens das questões de gênero e da cultura indígena nas escolas e no cotidiano”, diz Giselle Beiguelman, presidente do Júri. “Apontam para a urgência de pensar as relações com o meio ambiente, privilegiando um olhar para a diversidade e a experiência do compartilhamento, e propõem interlocuções mais fluidas entre o público e as instituições, alterando as formas de circulação e experimentação dos espaços”.

O Prêmio foi criado em 2017 para apoiar projetos transdisciplinares de arte e educação, que contribuem para a reflexão crítica acerca do mundo — iniciativa particularmente necessária no cenário de desmonte de políticas públicas em que o País está imerso. “Em sua segunda edição, o Prêmio se dedica a uma discussão que, no mínimo, merece periodicidade, qual seja, a das relações entre as práticas artísticas e o ensino da arte, no espaço em que cada um desses lugares de enunciação assume referir-se ao outro de maneira mais decisiva”, diz Cayo Honorato. “Temos no Brasil – ao menos retrospectivamente – uma quantidade de prêmios voltados para cada um desses lugares separadamente, mas poucos voltados justamente para o espaço em que eles se cruzam. O Prêmio seLecT parece-me ainda mais oportuno, num momento em que, lamentavelmente, pretende-se não só retirar a arte da educação (vide a Reforma do Ensino Médio editada em 2016), como também destituir a importância da educação nos espaços de arte (vide a extinção da curadoria pedagógica nos últimos anos).”