Entrevista

Alessandro Vieira, Senador

Impeachment é a saída para conter o golpe de Bolsonaro

Sérgio Lima

Impeachment é a saída para conter o golpe de Bolsonaro

Eudes Lima
Edição 10/09/2021 - nº 2695

O delegado Alessandro Vieira pensava que a sua carreira profissional não tinha força suficiente para promover todas as mudanças que ele pretendia à sociedade. Por isso, em 2018 se lançou candidato ao Senado. A ambiciosa tarefa obteve êxito e ele foi eleito pelo estado de Sergipe. Com a instalação da CPI da Covid, Vieira se tornou um integrante indispensável por conta da experiência em interrogatórios. O destaque impulsionou o senador para voos mais altos e ele coloca seu nome para a disputa presidencial por seu partido, o Cidadania. Vieira falou à ISTOÉ sobre a CPI e a retomada econômica. Ele participa da articulação para o lançamento de um candidato da terceira via e avisa que não há saída para retomada econômica enquanto o presidente Bolsonaro não for afastado da Presidência e defende o impeachment.

Como reagir aos ataques à democracia praticados por Bolsonaro?
Esclarecendo as pessoas que ditadura não é uma solução. Não há nenhuma vantagem para o povo que fique submetido ao autoritarismo. E, ao mesmo tempo, trabalhando para fortalecer as instituições. Bolsonaro quer normalizar os absurdos. Na semana passada, por exemplo, eu oficiei ao TSE para que apure sobre a conduta do presidente de campanha antecipada em horário de expediente.

Como o senhor avalia os atos de Sete de Setembro?
O presidente continua cometendo crimes de responsabilidade, principalmente quando ameaça não cumprir ordens do STF. A única alternativa é a abertura de um processo de impeachment. Bolsonaro investe num golpe para poder esconder seus crimes e da sua família.

A família Bolsonaro está envolvida com escândalos das rachadinhas. Até quando esses crimes vão continuar?
Enquanto não houver uma punição, haverá uma repetição das condutas. Também cabe ao eleitor acompanhar e fiscalizar o trabalho dos seus representantes. Temos parlamentares, como foi o caso do deputado Jair Bolsonaro e como hoje acontece com os filhos, que são profundamente improdutivos. As rachadinhas eram de conhecimento das autoridades, mas pouquíssimas providências foram tomadas. E isso explica porque as coisas no Brasil não dão certo.

Como é o trabalho do presidente?
Bolsonaro é o presidente da República que menos trabalha na história do Brasil. Ele emprega a maior parte do seu tempo em atividades de pré-campanha ou de diversão pessoal. Isso é ostensivo. Você não tem notícia dele em reuniões para resolver problemas concretos da população. As reformas administrativa ou tributária mudam a vida das pessoas, no entanto, o presidente não tem sequer uma opinião.

Porque o senhor pediu a convocação da ex-mulher do Bolsonaro, Ana Cristina Valle?
Há mensagens eletrônicas que podem explicar o padrão de vida incompatível dela. Os diálogos revelam que Ana Cristina Valle exerceu influência dentro do Palácio do Planalto a favor do lobista Marconny Faria, da Precisa Medicamentos.

Houve corrupção na compra de vacinas no governo?
Sim. Os indícios são muito fortes nesse sentido e lembrando que o crime de corrupção se configura com o simples pedido de propina. A estrutura de contratos deixou muito evidente quando se tentou forçar preços para cima e, assim, deixar margem para que a corrupção acontecesse.

O presidente atrapalhou o combate à pandemia?
A CPI da Covid vem demonstrando o quanto o presidente, deliberadamente, impactou de forma negativa no combate ao coronavírus. Além da ignorância arraigada, hoje sabemos que interesses econômicos retardaram a compra da vacina e dificultaram uma campanha de esclarecimento da população. É muito claro o dano que Bolsonaro causou e, na minha visão, é imperdoável, porque as vidas perdidas não retornam.

Quais os crimes já apurados na CPI da Covid?
O principal crime foi contra a saúde pública, da mesma forma que houve crime de responsabilidade, à medida que o presidente, por escolha pessoal, negou ao brasileiro o acesso à saúde. Bolsonaro decidiu que o problema não era tão grave ou que politicamente era melhor que as pessoas se contaminassem para que a economia não impactasse tanto.

Os atos de Bolsonaro no Sete de Setembro mostram que o governo acabou?
A pandemia tornou mais evidente os erros. Não existe um projeto de Brasil. Existe um arremedo de medidas econômicas. Na educação e saúde não se tem nada. A cultura está sucateada. Eu fiz campanha para a Marina e declarei voto no Bolsonaro no segundo turno. Na declaração de voto eu já apontava que ele apresentava uma aparente falta de preparo e da manifestação autoritária, que se confirmaram. Eu me arrependo ter votado em Bolsonaro porque subestimei o quanto os defeitos dele podiam impactar em seu governo. Eu imaginei que o entorno ajudaria no controle dos excessos e alinhariam num governo mais normal. Mas isso não aconteceu. Bolsonaro engoliu os seus ministérios, inclusive as Forças Armadas e transformou o governo em um amontoado sem condução lógica.

Quais as reformas que ainda podem acontecer?
Nós tivemos apenas a reforma previdenciária, que já vinha de uma análise de dois anos do governo anterior. De lá pra cá ficou claro que o ministro Paulo Guedes não tem projeto de reformas e nunca teve. Não há dúvida de que nós precisamos ter, com urgência, as reformas tributária e administrativa, além da política. É preciso ter consistência para se ter um governo que não passe pelo fisiologismo escancarado e por um abuso de acesso ao orçamento por meio de emendas. Mas não vejo menor viabilidade no governo Bolsonaro.

Há motivação para novos investimentos no País?
É cada vez menor. Ninguém acredita que Paulo Guedes seja capaz de entregar um bom projeto de estruturação econômica e de fazer a negociação necessária para aprová-lo. Esse governo simplifica negativamente as coisas. Se imagina que negociar no Congresso seja comprar votos ou distribuir emendas e cargos. Não é isso. Você tem que ter a discussão para comprovar que a sua proposta é a melhor, que a vida das pessoas vai melhorar. Na atividade econômica e industrial é muito claro que você não tem uma estabilidade e um incentivo para que se busque maior produtividade e competitividade.

O que fazer para enfrentar a crise econômica do País?
Primeiro, criar uma política de transferência de renda. As pessoas precisam ter a garantia de que não vão morrer de fome. Hoje, temos mais de 20 milhões de brasileiros em situação extremamente precária. Isso passa pela definição do Programa Bolsa Família. Mas tem que ser uma reforma responsável fiscalmente, com fontes de financiamento bem identificadas e que permitam a expansão do atendimento sem criar coisas mirabolantes ou populistas. Depois disso, você tem que ter uma política que permita que o mercado de força empregadora se movimente sem ser atrapalhado pelo governo. Falo da reforma tributária e de uma legislação que permita acelerar toda a parte burocrática que é extremamente lenta no Brasil.

O senhor é delegado em Sergipe. Como avalia os decretos que facilitam a compra de armas?
Eu apresentei à Comissão de Constituição e Justiça, uma sugestão que atendesse a expectativa do cidadão de ter arma para defesa, mas que isso não invada a esfera de proteção coletiva. Mas Bolsonaro causou um tumulto no legislativo com dezenas de decretos e uma onda de desinformação. O Congresso precisa discutir o tema. Não dá para ter armas circulando de maneira que se coloque em risco a coletividade.

O senhor colocou seu nome para candidato à Presidência da República. Qual é a sua principal proposta?
Sim, apresentei o meu nome ao partido Cidadania. Tenho algumas propostas fundamentais. No primeiro dia de trabalho legislativo acabaria com a reeleição para o cargo executivo, porque nós não temos maturidade para viver com um governo que trabalha pensando em reeleição infinita. Depois, tem a questão do combate à corrupção como uma política de Estado, que não precisa de heróis e salvadores da pátria. Precisamos melhorar as decisões do Estado com a certeza de que o interesse público vai ser privilegiado em relação ao interesse dos grupos. É urgente a construção de um programa de transferência de rendas, que seja estruturalmente viável e fiscalmente responsável. Na educação, é necessária uma reconstrução daquilo que estava longe do ideal antes da pandemia, mas no pós-pandemia, somado a incompetência do governo Bolsonaro, teve uma destruição completa. Também, é preciso um resgate no meio ambiente, que tem impacto na questão econômica. E, por fim, uma revolução na parte administrativa, há muito espaço para melhorar os serviços do Estado.

Quais os grupos políticos que senhor discute? E qual seria a sua chapa ideal?
Conversamos com grupos que são de renovação na sociedade organizada de centro-direita a centro-esquerda: Acredito, MBL, Vem pra Rua, etc. Dentro do universo dos partidos tradicionais o diálogo está com as legendas que saem da radicalização: PSDB, Cidadania, MDB, PV, Rede e PSD. Falta ainda liderança nesse processo. A chapa ideal pode inclusive não ter meu nome. O compromisso é de manter uma renovação nas práticas políticas e na preservação da democracia.

Lula e Bolsonaro aparecem à frente nas pesquisas. É viável uma terceira via que chegue no segundo turno?
Eu acredito em uma candidatura que concentre a maioria dos votos da terceira via. Lula e Bolsonaro têm maior intenção de voto hoje, mas também têm uma rejeição consolidada. A maioria não quer nem Lula, nem Bolsonaro, nem extremistas. No entanto, nesse momento os eleitores só conseguiram visualizar essas duas opções. O desafio é apresentar uma alternativa diferente. Não é uma tarefa fácil, mas é viável. Quem comprovar que dá pra fazer diferente e pode mudar a vida dos brasileiros que mais precisam vai convencer o eleitorado.

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