Edição nº2521 13.04 Ver edições anteriores

“Imortal é a mãe!”

Foi longevo o brasileiro que queria morrer cedo: aos noventa e um anos, faleceu Carlos Heitor Cony.

O bom humor era uma de suas marcas, e por isso começo essa homenagem com a seguinte história: no aniversário de amigos e em seu próprio, ele cantava “parabéns a você/nessa data querida/muitas felicidades…”, e pronto, parava aí, jamais cantou “muitos anos de vida”. Não desejava isso para si nem para os outros. Desgosto? Nada disso. Somente coerência (coerência, produto em falta!) com seu método de pensar e o pessimismo filosófico (bastante machadiano, eu diria) herdado de Jean-Paul Sarte.

Para o bem do Brasil, Cony poderia estar vivo e ficar junto a nós por mais noventa e um anos. Poucos compreenderam a alma desse País como ele compreendeu, e isso nas tantas atividades que exerceu: jornalista e escritor, dramaturgo e diretor de novela, ensaísta e artista plástico. Vamos parar por aqui, mas fez muito mais. E foi muito mais. O Brasil de hoje, de intolerância, e com alguns intelectuais cujo saber dura a efervescência de um copo de sal de frutas, tem muito a aprender com Cony. Ele era emblema de tolerância, não a tola tolerância dos que querem ser simpáticos, mas sim a tolerância dos que carregam a democracia no DNA.

Se o Brasil é um país engraçado por suas idiossincrasias, a esquerda brasileira é mais que isso — é cômica, é pândega… é ridícula. Cony foi um intelectual que se colocou no primeiro minuto contra o golpe militar de 1964. Apartidário e cético com a praxis política, ainda assim ele acabou preso por seis vezes.

A esquerda almoçava e jantava e bebia criticando Cony, que, detido ou não, se posicionava sempre ao lado da liberdade de pensamento e de expressão. Como se disse, ele foi um raro democrata: aceitava pensamentos distoantes dos seus, mantendo o culto a um saudável individualismo — nada a ver com egoismo, tudo a ver com sólida construção intelectual.

Cony era criticado pela direita porque se opunha à ditadura, era criticado pela esquerda porque se recusava a aderir à fácil formulazinha comunista que reduz as pessoas a pó. Ele foi um livre pensador, coisa que a esquerda (que edipianamente carece de se sentir pertencente a grupos) sequer sabe o que é. Deixa para lá, voltemos ao seu inteligente bom humor. Cony dizia que dobrou duas esquinas erradas na vida: “uma, quando entrou no seminário, outra, quando saiu do seminário”. Pelo conjunto de sua obra ganhou a comenda de Artes e Letras do governo francês. Foi membro da ABL. Certa vez, quando lhe chamaram de imortal, respondeu: “Imortal é a mãe!”.

O Brasil de hoje, com alguns intelectuais cujo saber dura a efervescência de um copo de sal de frutas, tem muito a aprender com Cony


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