Dedo para o ar, arma em punho e rosto marcado pelo ódio: a imagem do assassino do embaixador russo na Turquia, registrada pelo fotógrafo turco Burhan Ozbilici, levou o prêmio mais prestigioso do fotojornalismo, anunciaram nesta segunda-feira os organizadores do World Press Photo.
O júri elogiou a coragem de Burhan Ozbilici, fotojornalista da agência Associated Press (AP), que fez a foto em 19 de dezembro no momento em que Mevlüt Mert Altintas, um policial de 22 anos, atirou nove vezes contra o embaixador da Rússia em Ancara, Andreï Karlov.
O policial foi morto logo após o ataque, durante o qual gritou “Allah Akbar” (Deus é grande) e afirmou que queria vingar Aleppo.
“Foi uma decisão muito, muito difícil, mas, no final, sentimos que a imagem do ano era uma imagem explosiva que realmente reflete o ódio de nossa época”, explicou Mary F. Calvert, membro do júri, citado em um comunicado.
Vista 18 milhões de vezes nas horas que se seguiram ao assassinato, a imagem “marcou um momento importante na história da Turquia”, declarou à AFP Burhan Ozbilici, ressaltando que “devia fazer o seu trabalho”: “como jornalista, eu não poderia correr para salvar minha pele”.
Mais de 5.000 fotógrafos de 125 países enviaram cerca de 80.000 imagens para o júri. Entre eles, 45 foram premiados em oito categorias diferentes.
Três fotógrafos de Agence France-Presse também foram recompensados por seu trabalho. Trabalhando nas Filipinas, Noel Celis ficou com o terceiro lugar na categoria “General News” por uma imagem tirada em uma prisão superlotada, construída para acomodar 800 presos, mas que que abriga 4.000.
Vemos homens amontoados, sem camisa, rostos marcados, tentando dormir nos degraus de uma escada de concreto.
As imagens da AFP captadas na Síria também foram premiadas com o segundo lugar da categoria “Spot News, Singles” e “Spot News, Stories”. A imagem de Abd Doumany mostra duas meninas com o rosto coberto de poeira e sangue, tratadas por uma enfermeira. Crianças que vivem o horror da guerra e resgatadas dos escombros de Aleppo também são o centro na série de Ameer Alhalbi.
Stuart Franklin, presidente do júri composto por nove pessoas, elogiou a coragem desses jovens jornalistas sírios “que correm riscos terríveis (e) contam sua história do inferno”.
‘Alguma coisa de bom’
Atrasado para a abertura da exposição de arte, Burhan Ozbilici diz que compreendeu imediatamente a gravidade da situação quando ouviu os tiros.
Ele afirmou sentir muito pela morte do embaixador, “um homem digno, sincero, mas morto como resultado da catástrofe síria”.
O fotojornalista, que cobriu a tentativa fracassada de golpe de Estado na Turquia, e realizou missões na Síria, Líbia e Egito, declarou que sempre tenta estar preparado para tempos difíceis e ter a “coragem em um mundo podre pela desonestidade, pelos corruptos, para fazer algo de bom”.
Para João Silva, fotógrafo do New York Times e membro do júri, esta imagem de um homem que “claramente atingiu um ponto de ruptura” representa tudo o que está acontecendo ao redor do mundo hoje. “Ele é a cara do ódio”.
Apresentando uma ampla gama de temas e eventos, como as tensões raciais em Baton Rouge, nos Estados Unidos, ou muros construídos em todo o mundo em razão da crise migratória, a seleção deste ano foi “ousada”, segundo o fotógrafo jordaniano Tany Habjouqa, membro do júri.
No final de janeiro, um membro do júri não conseguiu deixar Washington por causa do decreto do presidente Donald Trump impedindo temporariamente a entrada em território americano de cidadãos de sete países de maioria muçulmana.