Nascido há 21 anos, o bloco afro Ilú Obá de Min reuniu 30 mulheres em sua origem. Hoje, prestes a abrir o Carnaval de rua de São Paulo, o coletivo, que evoluiu em sua formação e expandiu suas atividades, se posiciona como uma instituição com foco em educação, cultura e arte que conta com 420 mulheres, todas negras. Na abertura da festa deste ano, na sexta-feira de Carnaval, 13, na Praça da República (centro), elas levarão para a população paulistana a “Ópera Negra Obaomin – A Soberania de Yemanjá Ogunté,” com o enredo “Ifatinuké – Iyá-Olobá do Axé Transatlântico”.
O canto, a dança e os tambores do bloco farão homenagem à vida e ao legado de Ifatinuké, sacerdotisa africana que desembarcou no Brasil em 1870 e fundou, no Recife (PE), o Terreiro Iemanjá Ogunté Obaomin, casa matriz do culto iorubá (ou nagô) no Estado. O enredo explora como as casas de candomblé, espalhadas pelo Brasil, serviram como territórios de resistência e expansão dessa cultura.
Ensaios do Ilú Obá de Min antes do Carnaval
O primeiro ensaio do ano do Ilú Obá de Min aconteceu neste domingo, 18, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, no parque Ibirapuera. Serão mais sete até o cortejo, que abre oficialmente o Carnaval de rua às 20h (as informações sobre locais estão no perfil do bloco no Instagram: @iluoba). O enredo deste ano vem sendo trabalhado há seis meses, sob direção artística de Mafalda Pequenino e direção musical de Elisabeth Belisario, a mestra Beth Beli, uma das fundadoras da instituição.
Um dos desafios do Ilú Obá de Min é ter uma sede, algo que estão batalhando há anos, mas que ainda não se concretizou. Instituição sem fins lucrativos, ela depende de parcerias, como a do Museu Afro Brasil e o Museu da Energia, e de patrocínios. No próprio domingo de ensaio, 18, as mulheres fizeram uma apresentação na Casa Natura Musical. “O Ilú já teve muitas conquistas. Tivemos de adentrar lugares políticos e hoje há um projeto parado na Casa Civil”, conta Beth, que lançou o bloco junto com Adriana Aragão, Girlei Miranda e Nega Duda, que conduz o canto que norteia a narrativa no Carnaval.

A direção artística do cortejo é de Mafalda Pequenino (à esq.). Já a direção musical cabe à mestra Beth Beli.
Dirigido por 23 mulheres, o Ilú Obá de Min – que quer dizer, em uma licença poética em iorubá, “mãos femininas que tocam tambor para o rei Xangô” – tem o compromisso de recontar histórias e de conquistar espaço, diz Beth. Ela salienta que, além dos pilares de educação, cultura e arte negras, a instituição tem focado em saúde. “Mulheres negras cuidam de mulheres negras”, reforça Mafalda.
A diretora artística pontua que a associação “carrega” essas mais de 400 mulheres ao longo do ano, mas é no Carnaval que elas realçam suas vozes. “A gente trabalha com educação antirracista. Ocupamos um lugar de violência levando conteúdo que fala da nossa história e do apagamento”.

O Ilú Obá nasceu como bloco e hoje é uma instituição sem fins lucrativos que reúne 420 mulheres.
Quem foi Ifatinuké
Ainda a respeito de Ifatinuké, ela veio ao Brasil vindo de Oyó, um dos mais poderosos reinos da atual Nigéria. Pertencia ao povo Egbá, fundador da cidade de Abeokuta. Africana liberta, ela chegou ao país por Salvador, mas seguiu para Recife. Por aqui, ficou conhecida como Inês Joaquina da Costa. Dois anos depois, fundou o Terreiro Iemanjá Ogunté Obaomin, dedicado à soberana das águas.
Ifatinuké foi uma liderança religiosa, política e comunitária. Guardiã do culto aos ancestrais, deixou um legado de axé, fortalecendo a centralidade do matriarcado nagô e o protagonismo feminino na constituição do sagrado afro-brasileiro. Ela morreu em 1919 e o terreiro que fundou é conhecido atualmente como Sítio do Pai Adão. Tem 150 anos de existência, sendo um dos mais antigos em atividade no Brasil.
O cortejo do Ilú Obá de Min no Carnaval de rua
A Ópera Negra Obaomin – A Soberania de Yemanjá Ogunté poderá ser vista na abertura do Carnaval, às 20h, na Praça da República, e também no domingo, 15, às 14h, em frente à Cia Livre (coletivo teatral instalado na rua Conselheiro Brotero, 195, na Barra Funda).
O cortejo é formado por 99 agogôs, 58 xequerês, 71 djembês e 91 alfaias, sob a regência das mestras Beth Beli, Girlei Miranda e Adriana Aragão. O bloco conta ainda com 37 dançantes do Ayê, 15 pernaltas do Orun e 12 vozes. A harmonia é cuidada por 44 integrantes, garantindo o movimento coletivo do bloco.

As alfaias, instrumentos tocados por 91 mulheres, constituem o coração do bloco.
O abre-alas “As Mantenedoras do Axé” trará como convidadas mães de santo, yalodês, lideranças quilombolas e irmandades. “Nós vamos falar da história dessas mulheres que estiveram à frente da luta das aberturas das casas de candomblé e que firmaram o matriarcado africano. Ifatinuké ressignificou essa organização matriarcal africana em terras brasileiras que é o que nos mantém vivas, que é o que mantém a sociedade afro-brasileira em pé”, destaca Mafalda.
Pelo terceiro ano consecutivo, o Coletivo Coletores apresenta uma variedade de linguagens visuais e tecnológicas, com projeções em diálogo com a Sirius Drones, responsável pela cobertura aérea e transmissão do desfile.

Quinze pernaltas do naipe Orun, uma ala, fazem parte do cortejo.
Serviço
Abertura do Carnaval de rua de São Paulo
Data: sexta-feira, 13
Horário: 20h
Saída: Praça da República (Centro)
Matinê
Data: domingo, 15
Horário: 14h
Local: em frente à Cia Livre – Rua Conselheiro Brotero, 195, Barra Funda
Mais informações:
Instagram: @iluoba