Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Sentada em seu sofá, com uma caneca com a frase “destrua o patriarcado” na mão, Lori Lamprich relembra seu aborto há 15 anos em sua terra natal, Missouri, um estado conservador do meio-oeste dos Estados Unidos, onde realizar esse procedimento não era tão difícil quanto agora.

Em 2020, esta americana de 39 anos ingressou na Midwest Access Coalition (MAC), uma associação que ajuda mulheres que desejam ter uma interrupção voluntária da gravidez (IVG).

“Tudo que puder fazer para que o processo seja mais fácil, eu farei”, disse à AFP.

Em sua casa em St. Louis, perto da fronteira com o estado de Illinois, Lamprich contou que fazer um aborto foi um desafio para ela. Agora, é simplesmente ilegal.

Planned Parenthood, a última clínica de St. Louis a realizar abortos, teve que encerrar suas operações em 23 de junho, quanto esse estado republicano se tornou o primeiro dos Estados Unidos a proibi-lo. A decisão foi tomada no mesmo dia em que a Suprema Corte anulou a sentença “Roe vs. Wade”, que em 1973 garantiu o direito ao aborto em nível federal.

Agora, a decisão de legalizar ou não o aborto fica a critério de cada de estado. De acordo com o Instituto Guttmacher, 26 estados acabarão por declará-lo ilegal; uma dúzia já o fez.

– “Um mundo completamente diferente” –

De St. Louis, uma cidade de 300.000 habitantes, Lamprich só precisa atravessar a ponte sobre o Mississippi e uma placa diz “Bem-vindo a Illinois”. Lá, o aborto ainda é legal.

“Em apenas 20 minutos, você entra em um mundo completamente diferente”, diz.

Várias vezes por mês, essa voluntária ajuda mulheres a viajar para Illinois. E será cada vez mais procurada.

“Todas as pessoas que forem para a Planned Parenthood em St. Louis serão levadas para Illinois”, anuncia.

Ela as leva para a Hope Clinic for Women em Granite City. Na entrada, os voluntários acompanham as pacientes escondidas atrás de guarda-chuvas com as cores do arco-íris.

John, um ativista antiaborto, segura uma placa com a imagem de um feto ensanguentado. “Dê a si mesma a oportunidade de amar seu filho e segurá-lo em seus braços”, ele grita para as mulheres.

– Estado “santuário” –

Illinois, um estado democrata consolidado, está cercado por redutos republicanos que já proibiram ou estão prestes a proibir o aborto. As mulheres desses estados conservadores que desejam realizar uma IVG terão Illinois como opção mais próxima.

Em 2020, 20% das 46.000 mulheres que abortaram em Illinois vieram de outro estado.

Segundo a Planned Parenthood, entre 20.000 e 30.000 mulheres mais poderiam desembarcar em Illinois a cada ano.

O governador democrata J.B. Pritzker condenou a decisão “asquerosa” dos “extremistas” da Suprema Corte e prometeu fazer de seu estado um “santuário” para o aborto.

Uma das líderes da Hope Clinic, Julie Burkhart, estima que as IVG podem duplicar ou triplicar.

“As pessoas viajam muito tempo para fazer um aborto. Somos um recurso importante para as pessoas dos estados do sul que estão prestes a perder esse direito completamente”, apontou.

As mulheres mais pobres serão as mais prejudicadas pela decisão da corte. Um aborto custa entre 500 e 2.500 dólares, aos quais devem somar transporte, hotel e dias de trabalho perdidos. A associação MAC, que já ajuda essas mulheres, terá que arranjar mais dinheiro.

Alguns analistas temem que estados conservadores processem pessoas que ajudam mulheres a fazer abortos em outro estado. “Isso me assusta, mas isso não vai me parar. Para mim, é muito importante”, disse Lori Lamprich.