Visita do Papa à Argentina expõe equilíbrio delicado entre Igreja e governo Milei

Divergências sobre políticas econômicas e sociais marcam a relação, apesar da cooperação nos preparativos para a chegada do pontífice em 2026

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A apenas um mês da esperada visita do papa Leão XIV à Argentina, a Igreja Católica local mantém um delicado equilíbrio em sua relação com o governo do presidente Javier Milei.

Enquanto os preparativos para a agenda do pontífice avançam em clima de cooperação, setores da Igreja manifestam preocupação com a vulnerabilidade social, a pobreza, a crise enfrentada por pessoas com deficiência e o que consideram uma retórica agressiva no discurso público.

Segundo fontes citadas pelo jornal argentino Infobae, a organização da visita de Robert Prevost – nome de batismo de Leão XIV – está transcorrendo de maneira “harmoniosa” entre representantes da Igreja Católica e a Casa Rosada, sede do governo argentino.

As mesmas fontes afirmaram que estão sendo realizados os “ajustes finais” da operação, principalmente em questões relacionadas à segurança, ao deslocamento dos fiéis e à coordenação dos diferentes eventos previstos durante a passagem do pontífice pelo país.

Os preparativos também contam com a participação dos governos da província de Buenos Aires, da província de Córdoba e da Cidade Autônoma de Buenos Aires.

Apesar da colaboração na organização da visita, a relação entre a Igreja e o governo Milei tem sido marcada por divergências desde que o presidente assumiu o cargo, em dezembro de 2023. As diferenças se concentram principalmente nas políticas econômicas e sociais adotadas pela administração, que tem como prioridades a redução do déficit público e a regulação do mercado.

Nas últimas semanas, as críticas de setores da Igreja ao governo ganharam intensidade.

Recentemente, o arcebispo de Buenos Aires, Jorge García Cuerva, fez um pronunciamento interpretado como uma crítica à retórica de Milei e ao que considera uma normalização da agressividade, tanto nas redes sociais quanto em ambientes institucionais.

“Nossa nação tem muitos abraços pendentes: abraços de perdão diante de tanta difamação e insulto; abraços de solidariedade diante de tanta indiferença”, afirmou o religioso.

“As feridas da difamação, da intolerância e da violência física e verbal estão infeccionadas, e parece que o coração do povo está sendo infectado”, acrescentou.

Dias depois, às vésperas da grande peregrinação à cidade de Luján, García Cuerva voltou a abordar a situação social do país.

Em sua mensagem, alertou que Leão XIV será recebido por “uma Argentina em crise”, com um grande número de pessoas vivendo em extrema pobreza.

A declaração ocorreu pouco depois da divulgação de dados oficiais sobre a pobreza e a indigência no país. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), no período analisado pelo órgão, 32,3% da população argentina estava em situação de pobreza, enquanto 7,5% vivia em condições de extrema pobreza.

Outro foco de tensão surgiu na última segunda-feira (5), quando representantes do Comitê de Pessoas com Deficiência da Conferência Episcopal Argentina (CEA) se reuniram com autoridades do Ministério da Saúde.

Durante o encontro, os representantes religiosos expressaram preocupação com a continuidade dos serviços destinados às pessoas com deficiência e com a situação das instituições e organizações sociais que atuam no setor.

A manifestação reforçou a preocupação de setores da Igreja com os efeitos das políticas de ajuste sobre grupos considerados especialmente vulneráveis.

No mesmo dia, a Pastoral Social da Conferência Episcopal Argentina divulgou um comunicado intitulado “Pela Defesa do Nosso Território e pela Proteção da Nossa Soberania”.

O documento abordou a decisão da Suprema Corte argentina de manter o Decreto 70/2023 e seus efeitos sobre a legislação relacionada à propriedade da terra.

A Pastoral Social apelou à “responsabilidade” dos legisladores, das autoridades do Poder Executivo e dos integrantes do Poder Judiciário para “garantir a defesa da nossa terra e o cuidado da nossa Nação”.

Segundo a entidade, essa responsabilidade está diretamente relacionada ao “bem-estar da população do país”.

A primeira viagem apostólica do Papa à América Latina acontecerá de 6 a 17 de novembro de 2026, com passagens oficiais pelo Uruguai, Argentina e Peru. (ANSA).